O Leblon completou 100 anos em 26 de julho. Conhecido pelos moradores como um lugar tranquilo e bucólico, é alvo da curiosidade dos turistas, que querem conhecer a região que já foi cenário de muitas novelas. No entanto, quem passeia pelas tradicionais ruas da vizinhança nem imagina que há muitas histórias diferentes das que a telinha mostra, muitas delas antes mesmo de a região virar bairro na data que ficou marcada como seu aniversário.

     Para relembrar esse passado, é necessário citar a área da Lagoa Rodrigo de Freitas como um todo, já que o desenvolvimento do Leblon está diretamente ligado ao de outras partes da cidade, como a Gávea e o Jardim Botânico – foi no local do parque homônimo onde foi fundado, logo após a chegada dos portugueses, o Engenho D’El Rey, que deu origem aos primeiros loteamentos. Com o fim do empreendimento, o terreno foi comprado por Sebastião Fagundes Varela, que se tornou também o dono do litoral, área que não era alvo do interesse de ninguém. O casamento de sua bisneta e herdeira, Petronilha, alterou os rumos da área. Seu esposo, Rodrigo de Freitas Castro de Carvalho, tornou-se o proprietário de toda a enorme fazenda. Sua propriedade era tão significativa que logo o espelho d’água tornou-se conhecido como a “Lagoa do Rodrigo de Freitas”.

     A riqueza era tanta que, em 1711, quando o holandês René Duguay-Troin ocupou a Ilha das Cobras, no Centro, a Corte Portuguesa reuniu homens de posse para obter o valor exigido como resgate, entre eles Freitas, que, com a entrega, passou a ter problemas financeiros que culminaram no seu retorno à Europa. As terras foram arrendadas por um capataz e sublocadas, o que levou à decadência da região, desapropriada por D. João VI em 1808. A orla, que não interessava ao regente, foi repassada e adquirida pela chacareira Aldonsa da Silva Rosa, que passou a ser a dona de toda a chamada Fazenda Copacabana, nomeada em referência à igrejinha erguida no local do atual Forte de Copacabana.

     Após várias sucessões, o terreno foi comprado pelo homem que, futuramente, daria nome ao bairro. O francês Manuel Hipólito Carlos Leblon (nascido Emannuel Hyppolite Charles Toussaint Leblon de Meyrach – seu nome foi alterado após vir morar no Brasil e a versão em português é a que consta eu seu registro de casamento e nos contratos assinados aqui) instalou, no fim da praia, uma empresa de caça baleeira, a Aliança, cuja produção contribuía com a iluminação pública e com a construção civil. Com o fim desse negócio, em 1857, devido aos avanços tecnológicos, a Fazenda Copacabana foi dividida e grande parte dela foi adquirida pelo comendador José Antônio Moreira Filho, o 2º Barão de Ipanema. Filho era adepto da causa abolicionista e abrigou muitos escravos fugitivos, fundando ali o Quilombo Leblon (também chamado de Quilombo do Seixas), que contava com toda a estrutura necessária, como estábulos, água nascente, mata virgem e árvores frutíferas. Lá, os negros cultivavam camélias, flores que eram o símbolo do movimento abolicionista e que foram entregues pelos quilombolas à Princesa Isabel no dia da assinatura da Lei Áurea, após uma procissão a pé até o Paço Imperial.

     Apesar da origem semelhante à de Ipanema, que começou a ser urbanizada em 1894, o Leblon desenvolveu-se lentamente como um apêndice da Gávea (até então, um lugar rural) devido às restrições geográficas. Ainda que o prefeito General Souza Aguiar ter concedido isenção de impostos para todas as novas construções no Leme, em Copacabana, em Ipanema e no, então chamado, Campo Leblon em 1909, a primeira ponte sobre o Canal da Lagoa (posterior Jardim de Alah) só seria construída nove anos depois, o que possibilitou a chegada de novos moradores e fez com que, no ano seguinte, o Leblon fosse transformado em bairro independente, data esta lembrada anualmente nos aniversários do local.

     A solução para impulsionar a urbanização logo se tornou um problema: a ponte estreitou demais a passagem de água entre o mar e a lagoa, que, sem renovação, logo tornou-se putrefata e foco de febre amarela e malária. Para resolver essas novas questões, além de o Canal da Lagoa ter sido alargado, foi aberto outro, dessa vez na Rua Visconde de Albuquerque e, posteriormente, foi utilizado como parte do trajeto do Circuito da Gávea, que fomentou o automobilismo no Brasil. As vias do bairro, até então quase que primitivas, eram cenário de perigosas e emocionantes corridas do Grande Prêmio Cidade do Rio de Janeiro. Os corredores se aventuravam nos 11km do circuito, apelidado como “Trampolim do Diabo” por cruzar os trilhos do bonde que ligavam o bairro ao Jardim Botânico, fazendo os carros escorregarem. A prova era concluída após o percurso, que partia da Gávea e era circular, ser repetido diversas vezes. As condições das corridas eram precárias. A velocidade dos automóveis, conhecidos na época como “baratinhas” por causa de seus modelos, chegava a 90km/h. Em muitas partes, o terreno era de chão de terra batida. Nos trechos mais modernos, os paralelepípedos eram os problemas dos corredores, que também encaravam desafios como pistas estreitas e curvas sinuosas. O público acompanhava as provas de diversos pontos, como o Mirante do Zig Zag (atual Mirante do Sétimo Céu), que recebeu esse nome devido o formato de sua subida.

 

     Na década de 1930, o Leblon continuava praticamente vazio, apesar de já sofrer com a favelização. O local, ainda bucólico, foi agraciado com o Jardim de Alah, uma praça cujo nome foi inspirado no filme “The Garden Of Allah”, lançado dois anos antes e que fez muito sucesso. Ali, em torno do canal, (aberto também na década de 1920, junto com o da Rua Visconde de Albuquerque), foi projetada uma praça. A via aquática fazia parte da concepção. Sua estrutura estreita e profunda (diferente da ligação natural com o mar, que era larga) tinha o intuito de permitir a navegação de gôndolas pela via aquática, indo a passeio até a Lagoa Rodrigo de Freitas, o que não aconteceu, apesar dos deques para embarque e desembarque. Foram instaladas comportas perto do mar, com o objetivo de controlar a entrada e a saída das águas – o que nunca efetivamente foi feito com êxito. O lazer se estendia à praça em seu entorno, que virou um ponto de passeio familiar, com charretes puxadas a bodes e cavalos (para a alegria das crianças) e outros atrativos.

 

 

     No mesmo ano, outra opção de entretenimento foi entregue à população: o Estádio da Gávea (que, apesar do apelido, fica no Leblon), de propriedade do Clube de Regatas do Flamengo. Um dos episódios mais conhecidos foi a final do Campeonato Carioca de 1941. Na ocasião, o Flamengo precisava vencer o Fluminense, mas começou o jogo perdendo, para a alegria da torcida rival. No entanto, para a surpresa de todos, o atacante Pirillo marcou dois gols, conseguindo um empate e ameaçando a taça do time rival. Com isso, a torcida tricolor passou a chutar todas as bolas no interior da Lagoa Rodrigo de Freitas (que, na época, ainda não tinha sido aterrada e beirava o estádio), com o intuito de encerrar a partida devido à ausência delas. Para contornar a situação, o time de remo do Flamengo entrou na água e retirou as bolas, o que não foi suficiente para conquistar o gol de virada. A estrutura foi muito usada até a década de 1960, quando parte dela foi demolida para a abertura da Rua Mário Ribeiro, que visava melhorar o fluxo de veículos entre a Lagoa e a Barra.

 

     Pouco tempo depois, outro fato curioso fez o Leblon virar notícia: foi descoberto um centro de espionagem nazista em uma casa localizada no número 318 da Rua Campos de Carvalho (atual General San Martin). O alemão Josef Starziczny, que estudou em escolas militares, recebeu a missão de vir ao Rio de Janeiro observar a movimentação dos navios dos Aliados e informar ao Eixo. Com o nome falso de Niels Christensen, chamou a atenção da polícia ao comprar os equipamentos para a montagem da estação de rádio, já que, no contexto da Segunda Guerra Mundial, um estrangeiro adquirindo esse tipo de material era considerado suspeito. Sua prisão salvou o transatlântico inglês Queen Mary, que levava a bordo 8 mil soldados canadenses, e cuja localização fora informada aos submarinos germânicos, que estavam prontos para atacar quando a tripulação foi avisada e desviou o caminho.

     Nesse momento, o processo de favelização já ocupava determinadas áreas do bairro. A comunidade da Memória, a mais antiga, foi a primeira a ser removida em um grande incêndio, em 1942, dando lugar ao terreno do atual 23º BPM. A grandiosa Praia do Pinto, entretanto, era a apontada como problemática devido à insalubridade. Quando sua extinção começou a ser planejada na década de 1950, ela já contava com 20 mil pessoas, número este que cresceu até 1969, quando os barracos vieram abaixo em outro incêndio. No local, foram erguidos os prédios da “Selva de Pedra”. Antes disso acontecer, muitos moradores já haviam sigo realocados para a Cruzada São Sebastião, construída na Pedra do Bahiano (hoje escondida embaixo do Shopping Leblon, o que justifica as escadas rolantes em sua entrada). Custeado por Dom Hélder Câmara, o conjunto habitacional foi erguido nos moldes da vanguarda cujas ideias predominavam na Europa desde os anos 20, que visava “industrializar” as moradias. O complexo foi construído na forma de dez blocos de edifícios, com sete andares cada, totalizando 910 apartamentos. Na planta inicial, estava prevista uma igreja, uma escola, um centro social e um mercado, além de apartamentos de três tamanhos (pequeno, médio e maior), todos com cozinha e banheiro independentes.

     Outros grandes complexos também eram erguidos, como o Conjunto dos Jornalistas, os prédios mais altos do Leblon durante bastante tempo (o Leblon já estava bem adensado, mas por prédios baixos que raramente passavam dos cinco andares). Os três prédios, erguidos nos mesmos moldes europeus, receberam esse nome pois, após serem concluídos, tiveram algumas de suas unidades doadas a estes profissionais. Outros apartamentos foram destinados a ex-pracinhas e comerciários que sofriam com ordem de despejo. Durante muito tempo, o condomínio servia de referência aos navios que chegavam à cidade, constando nas cartas náuticas por causa do tamanho das estruturas. Logo, essa referência desapareceu devido à especulação imobiliária, que fez surgir novos “espigões” na medida em que Ipanema ficava saturada.

     Acompanhando o desenvolvimento, já em 1971, a Companhia Brasileira de Alimentos (Cobal) instalou no terreno vizinho à antiga Favela da Praia do Pinto um hortomercado, com espaços de vendas padronizados, onde todos os vendedores se concentrariam, reduzindo as perdas de alimentos e o aumento da higiene. Outro projeto igual já tinha sido colocado em prática no Humaitá. Cerca de 20 anos depois, bares e restaurantes transformaram a Cobal em um dos locais favoritos dos cariocas. Na mesma época, o Baixo Leblon tornou-se o espaço da contracultura, reunindo os jovens e os intelectuais da época, que antes se reuniam perto do Píer de Ipanema (demolido em 1974). A região tornou-se uma referência de agitação noturna. O trio formado pela Pizzaria Guanabara e pelos bares Real Astoria e Diagonal foram apelidados de “Triângulo das Futilidades”. Um dos principais nomes que exemplifica essa época é o compositor/cantor Cazuza, frequentador assíduo das noites do Leblon, que transportou a realidade daquele cenário para a letra de algumas músicas.

     Com o passar do tempo, novos espaços surgiram no bairro, como o Parque Natural Municipal do Penhasco Dois Irmãos, de 1992. A subida é pelo antigo Mirante do Zig-Zig. Na área de lazer, com vista panorâmica da região, foram construídas quadras de esportes, playground infantil, um pequeno teatro de arena e trilhas. Há também o antigo Mirante Sétimo Céu, que, após o acidente do vôo 447, que caiu no mar quando ia a Paris em 2009, recebeu dois monumentos às vítimas, com 228 pequenas pombas brancas (uma representada cada vítima) que, instaladas em um mural de vidro, parecem voar pelo Leblon.

     Atualmente, o Leblon continua sendo um bairro querido e valorizado pelos cariocas. O metro quadrado dos imóveis fez a área tornar-se a mais cara da cidade, o que aumenta mais ainda a curiosidade dos visitantes, que sempre seduzem com as belas paisagens, que prometem encantar a população por mais 100 anos.