O Dia da Consciência Negra foi comemorado no Colégio Estadual Infante Dom Henrique. Na tarde de 27 de novembro, os alunos foram convidados a participarem de uma sequência de atividades, que marcou a data e promoveu reflexão sobre seu significado. A programação contou com uma breve palestra e apresentações artísticas diversas, além de oficinas promovidas pela gibiteca da casa.

O evento foi iniciado com a roda de conversa, que recebeu como convidados recepcionados pelo diretor da da instituição, José Carlos Madureira, que convidou cada um a falar um pouco sobre o tema, relacionando-o a questões como racismo, preconceito, e diversidade. “Se temos problema no dia a dia, a escola é o palco principal dos valores democráticos. Democracia não é só de dois em dois anos”, sugeriu Madureira, que continuou: “A base da construção da sociedade brasileira é composta por negros e índios. Negro não é só para espetáculo e showzinho para aparecer na TV. É ser humano. Tem todos os direitos”. O discurso foi estendido à população LGBTI+ e aos diversos grupos religiosos: “Ninguém tem o direito de apontar e dizer ‘a minha é certa e a sua, errada’”. Quando a palavra foi dada aos demais participantes, a atriz Dja Martins aproveitou o momento para destacar que esta tolerância deve ser aplicada também à população acima do peso, eventualmente alvo de gordofobia por parte da sociedade.

Em seguida, à palavra foi dada ao presidente do Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do Estado do Rio de Janeiro (Sated-RJ), Jorge Coutinho, que mencionou já ter visitado a África e ter conhecido algumas das culturas daquele continente pessoalmente. “Nossa luta é diária, não é só em 20 de novembro (Dia da Consciência Negra) que vamos pensar no negro. Temos que pensar quando este é morto nas comunidades. A única saída é a educação é a cultura. Ser um negro como presidente de um sindicado de elite, que representa os artistas, é muito complicado. Cabe a vocês, que são jovens, essa consciência da transformação no coletivo”.

Outra convidada, a atriz Lu Gondim, que também é professora, disse destacar estas mesmas questões com seus alunos. “O que tento mostrar a eles é que eles têm que ter objetivo na vida e ele tem que ser a educação”. Ao falar sobre a importância dos pretos na sociedade, lembrou da atriz Ruth de Souza: “Ela batalhou muito para alcançar seu lugar. Ela dizia ter três pilares: a educação era o primeiro;a postura, o segundo e o comportamento, o terceiro. Sem eles, não se chega a lugar nenhum, mas a primeira escadinha a ser subida é a educação. O resto vem com o tempo”, analisou.

Seguindo a mesma linha, o jornalista Mauro Franco evidenciou que aqueles alunos poderão exercer as profissões que quiserem, no futuro. “Nos centros universitários, só encontramos a discussão dessa questão (da inserção dos negros na sociedade) em uma disciplina, Antropologia”, criticou, elogiando a oportunidade de discutir o tema em uma instituição de ensino. A cantora Eliane Faria também exaltou a chance de debater com estudantes: “Sou mãe de três mulheres e falo com vocês o mesmo que digo para elas em casa. Hoje, todos podem falar, todos têm voz”. O mesmo foi destacado pelo professor de física Isan Mascarenhas: “A escola está promovendo a cultura que o país está precisando. Aqui, vocês estão sendo formados para serem cidadãos melhores”.

O último a conversar foi o professor de história Washington Kuklinski Pereira, que abordou questões históricas ao mencionar as revistas que circulavam pelo Brasil na época da abolição da escravidão. “Os negros sempre eram representados de maneira grotesca. A partir de 1886, quando as fugas se intensificaram, eles não eram retratados como alguém que lutava pela liberdade. A nação de Palmares foi reconhecida pelos holandeses em Pernambuco. Quem é colocado como o grande herói é a Princesa Isabel”.

Após a palestra, a diretoria da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas, Bruna Oliveira, apresentou sua própria vivência: “No Ensino Fundamental, eu tinha medo de ir para a escola e mexerem em meu cabelo. Não havia um dia para discutirmos nossa história. Nem mesmo a conhecíamos. O Dia da Consciência Negra não é para acabar com o racismo. Isso é todo dia. Esta data é para saudar nossos antepassados. Somos a única coisa capaz de salvar o futuro do país”, palpitou. Outro convidado foi o músico Jefferson do Pandeiro, que expôs sua trajetória de sucesso para inspirar os estudantes: “Saí de um colégio como este e fui para a Broadway. Contracenei com Frank Sinatra e Sammy Davis Jr. Pisei em um palco que brasileiro nenhum tinha pisado e por onde passaram Carmen Miranda e Elvis Presley. Tenho certeza que daqui sairá um presidente, governador, empresário ou empreendedor”, ressaltou.

Em seguida, tiveram início as apresentações artísticas. O grupo Dancegrafia, composto por alunos do colégio, produziu uma encenação reproduzindo as chibatadas e o sofrimento dos negros no passado, convidando todos à reflexão. A proposta foi semelhante à da esquete “Lerê Lerê”, dos integrantes da Gibiteca, que mostrava escravos lutando por suas liberdades ao som de “Retirantes”, de Dorival Caymmi.

Outros estudantes participaram de um desfile de moda afro, promovido pela professora Sônia Fuchs e realizado ao som da cantora Karina Duque Estrada, que cantou o sucesso africano “Pata Pata” no idioma original, xhosa, uma das línguas faladas naquele continente. A dança kuduro também representou a música daquela região, antes do conjunto Som Na Lata, do Espaço Cultural Fazendo Arte, do Morro do Turano, divertir os discentes, que aproveitaram o momento de lazer para dançar e interagir entre si. Um deles, o jovem Vitor Hugo, foi selecionado para uma apresentação considerada por ele especial: a porta-bandeira da Beija-Flor, Selminha Sorriso, que chegou em meio à festa, para ser seu mestre-sala naquele momento. “Não vou dormir hoje”, frisou o adolescente, emocionado.

A comemoração foi encerrada com a participação da gibiteca que funciona dentro do colégio. Ela promoveu oficinas diversas, como Poesia Ao Pé do Ouvido, com a educadora Arlene Costa; Quadrinhos, com o cartunista Paulo Alves; Fotografia Com O Celular, com Omar Brito, que apresentou o trabalho Favelagrafia, feito nas comunidades da cidade; Origami das Raízes do Brasil, com Joana Darc Lage, que atua também com garrafas PET; e Contação de Histórias, com a atriz Carine Haziel.