Os primórdios de Copacabana são retratados no romance “Sol e Sonhos em Copacabana”, recém-publicado pelo escritor Aliel Paione. A trama se passa em 1900, durante o governo de Campos Sales, e traz, dentre seus cenários, o cabaré de Mère Louise, que existiu no Posto 6 até meados da década de 1920. A história apresenta Jean-Jacques Chermont Vernir, um diplomata francês que, após se apaixonar por uma das funcionárias do rendez vous, se envolve em um triângulo amoroso que engloba ainda um senador da república, o que resulta em consequências e desdobramentos que surpreendem os leitores.

Paione situou seu romance no bairro por um fator afetivo. Quando criança, saía do interior de Minas para passar as férias no Rio, onde se hospedava em Copacabana. “Como aquela vida efervescente e a beleza do mar azul me deslumbravam!”, lembra. Adulto, mudou-se para a região na década de 1980, durante alguns anos, o que faz a área ser muito presente em seu imaginário. Atualmente, desiludido com o Brasil, decidiu escrever um romance que retratasse a vida republicana – o que Aliel reconhece como um possível processo inconsciente de fugir da realidade contemporânea do país. Grande conhecedor de história, logo imaginou um texto ficcional que criticasse as mazelas.

“Os fatos relativos ao governo Campos Sales, como a atuação de seu ministro da fazenda, Joaquim Murtinho; a sua política econômica (Funding Loan); a vida social e política da República Velha; a gestão do prefeito do Rio, Pereira Passos, já eram do meu conhecimento. Fiz algumas pesquisas sobre o bairro de Copacabana à época, bem como sobre o Mère Louise. Baseei-me em alguns fatos para escrever uma história que efetuasse uma crítica política, fundamentada numa história de amor. Existem alguns aspectos sutis embutidos na narrativa, conforme um leitor mais perspicaz poderá comprovar”, explica.

Seu livro é um dos únicos trabalhos a relembrar o Mère Louise, cuja construção é apontada em quase todas as fotos do Posto 6 da época, porém, sem que sua importância seja evidenciada – o negócio era administrado pela francesa Louise Chabas, uma das primeiras mulheres empresárias do Brasil e que ainda no século XIX, já administrava diversas casas, sendo esta de Copacabana a principal delas. “Eu vejo este esquecimento como um fato corriqueiro no Brasil, que geralmente não valoriza aspectos relevantes de nossa vida cultural e histórica. Vejo-o, portanto, como uma pobreza cultural. Provavelmente agravada, nesse caso, por tratar-se de uma mulher e dona de um cabaré, o que se inserem num moralismo hipócrita e na ignorância do machismo brasileiro. Ora, a vida de um cabaré (principalmente os mais requintados) é rica em vários aspectos que deveriam ser explorados”, aponta.

O autor segue defendendo o tema, bastante abordado em sua história (o Mère Louise era bastante frequentado por políticos e outros homens de grande importância na sociedade da época) lembrando que, na década de 1950, havia o chamado “Catetinho”, no Centro, frequentado por senadores e deputados que saíam do congresso e seguiam para lá. “Por que não conhecer a exuberância daquele recanto tão importante para vida sexual e emocional da república? Um político importante, feliz com o amor de uma bela mulher e num dia de pleno sucesso poderia ter saído dali e proposto um projeto auspicioso para os brasileiros. E quem seria de fato o responsável pela ideia? Não seria a bela mulher que satisfez o político, infundindo-lhe a imaginação de que ela o ama?”, sugere.

O trabalho lançado no ano em que o bairro que serve de pano de fundo para a história completa 125 anos, o que não foi planejado. Palone encara a coincidência como prazerosa, mas, de antemão, anuncia que “Sol e Sonhos em Copacabana” é a primeira parte de uma trilogia. “A ideia é escrever sobre três gerações que terminam em 1954 com o suicídio do presidente Vargas”, promete.