A idosa Josephina Maria da Conceição comemorou mais um aniversário no dia 25 de setembro. O fato seria corriqueiro se não fosse um detalhe: nascida em 1909, ela completou 110 anos cercada de familiares e amigos. Com a nova idade, Josephina entra para o seleto grupo de supercentenários, composto por pessoas acima dessa faixa etária e que sequer é contabilizado pelo Censo.

     Nascida em Sapucaia, no interior Fluminense, mudou-se para o Rio de Janeiro logo após o casamento, quando tinha 15 anos, dois a menos que seu marido, Jorge Edmundo Souza. Morou a maior parte da vida no bairro de Cavalcanti, na Zona Norte, mas há cerca de 30 anos, reside em Nova Iguaçu. Quando solteira, trabalhava na roça, onde lavava roupa na beira do Rio Guandu. Após a mudança, dedicou-se integralmente à família. Nunca trabalhou fora de casa nem teve acesso aos estudos, o que não a impediu de cuidar da economia doméstica de sua residência: seu talento com números permitiu que ela conferisse, com precisão, cada troco recebido.

    Atualmente, Josephina é a matriarca de uma grande família. Viúva há bastante tempo (Souza morreu aos 58 anos), teve 11 filhos, dos quais cinco já morreram. A prole resultou em 21 netos, 36 bisnetos, 25 tataranetos e três tetranetos, além de mais uma que está para nascer – os números foram contabilizados por uma das netas, Rosemary de Souza Costa, a única a conhecer essas informações. Há ainda os descendentes de sua única irmã, Clotilde, que morreu aos 97.

    A saúde física da idosa é perfeita. “Ela não tem diabetes, glaucoma, não treme… Só está em cadeira de rodas porque quando fez 100 anos, começou a cair e o médico achou mais seguro fazer assim. Ela escuta bem, pede para ir ao banheiro e se lembra de todas as pessoas”, aponta uma das netas, Leila Cristina de Souza, que sugere que a idade real da avó seria ainda maior: “Ela tem por volta de 112, mas a certidão é de 1909. Ela falou que antigamente, demoravam a registrar porque esperavam mais crianças nascerem. Aí (os adultos) iam ao cartório e registravam todos”. Ela tenta palpitar sobre o segredo da longevidade: “Acho que era pela vida levada. Não havia agrotóxicos (afetando sua alimentação)”. Seu primo, João Francisco dos Santos, menciona ainda que a independência pode ter sido a chave do sucesso: “Ninguém nem lavava as roupas dela nem da irmã, que cuidou das suas até seu último dia”. Leila complementa: “A vovó fez tudo até os 100 anos. Ela ainda tem muita força. Se der um neném no colo dela, ela não derruba”. Em relação aos novos membros da família (seu descendente mais novo estava com três meses no dia da entrevista), a neta garante que Josephina tem consciência de cada nascimento: “Ela fica toda feliz! Brinca, dá beijo! É muito carinhosa!”.

    Esse afeto foi retribuído pelos parentes que organizaram sua comemoração e que proporcionaram decoração (com tema de corujas, símbolo da sabedoria), bolo enfeitado, docinhos, painel decorativo e muito mais. A afeição ficou evidente no momento da chegada da aniversariante, quando grande parte dos convidados fizeram fila para cumprimentá-la. “Ela nos ensinou a ser como a gente é. Também ensinou a não botar o pé no sofá, a não abrir a geladeira na casa dos outros… agora, ela só não participa mais como antes”, exemplifica João Francisco, complementado por Leila: “Nós tínhamos que dar benção na entrada e na saída de casa. Ela também tomava conta de outras crianças que os pais a pagavam para isso. A casa da vó era uma festa!”.

      Apesar de feliz com a presença de todos, a idosa passou a maior parte do tempo divertindo-se com uma de suas bonecas (ela possui uma vasta coleção e gosta de passar o tempo com elas e assistindo TV), dando mamadeira para sua “filhinha” e, em alguns momentos, dançando (sentada) com ela. Ironicamente, a trilha sonora era composta majoritariamente por sambas, gênero musical que surgiu quase uma década após seu nascimento (a gravação mais antiga desse estilo da qual existem registros é “Pelo Telefone”, de 1917). Em meio à comemoração, deliciava-se comendo churrasco, manuseando sozinha os talheres. “Ela brinca, canta e até briga. Ela fala muitas coisas certas”, analisa a prima, Antônia de Souza.

     Josephina pode ser a pessoa mais longeva do Rio de Janeiro. A equipe da Editora Posto Seis buscou registros de nascidos antes dela ainda vivos no Estado, mas ninguém foi encontrado. O último Censo foi em 2010 e na data, o IBGE limitou a divisão etária em até “mais de 100 anos” – nessa categoria, foram contabilizados 763 no território fluminense, dentre 24.236 em todo o país. De acordo com o Gerontology Research Group (GRG), a maior autoridade no estudo desse público no mundo, apenas a paulistana Alice Alves Zuza, que completa 111 anos em outubro, teria mais idade registrada que a moradora de Nova Iguaçu em todo o Brasil, mas a fluminense (ainda) não está listada. Outras três brasileiras já ganharam lugar no estudo, mas nenhuma está viva.

      Para ser incluído no material, são necessárias comprovações diversas, o que deixou de fora casos como o da alagoana Josefa Maria da Conceição (a similaridade dos nomes é mera coincidência), que virou notícia na semana do aniversário de Josephina por tentar ser inserida no Guinness Book como a pessoa mais velha do mundo, com 117 anos. Outros casos de grande repercussão e que também ficaram de fora da listagem foram os dos cearenses José Coelho de Souza, morto no Acre em 2017 com supostos 133 anos; e José Aguinelo dos Santos, que faleceu em São Paulo quatro meses depois alegando ter 129; e do baiano Moacir Gonçalves de Jesus, que viveu até julho em Rio das Ostras com presumíveis 117. O primeiro, assim como sua família, nunca teria procurado o reconhecimento de homem mais velho do mundo, apesar de seus documentos atestarem seu nascimento antes mesmo da Proclamação da República – fato este que surpreendeu os fiscais do INSS que estiveram em sua residência para confirmarem se ele ainda estava vivo, em 2016. Já o segundo não entrou para o Guinness Book pela ausência de um teste de carbono 14, necessário para confirmar sua idade, o que não foi feito devido aos altos custos. Não há informações sobre a razão pela qual o terceiro, que também teve a idade averiguada por fiscais do INSS, não ter entrado na contagem.

    No mundo, o GRG reconhece a japonesa Jane Tanaka, 113, como a pessoa mais idosa do mundo. Entretanto, o título de maior longevidade ainda é da francesa Jeanne Calment, que morreu em 1997 aos 122 anos. Sua longa vida virou polêmica recentemente, quando foi discutida a possibilidade de sua filha, Yvone, ter assumido a identidade da mãe, mas a teoria foi descartada pelo cientista François Herrmann, professor da UNIGE Faculty of Medicine, em Genebra, na Alemanha, que atestou as incoerências dessa versão. Sem reconhecimento oficial, o mais idoso teria sido o indonésio Saparman Sodimejo, conhecido como Mbah Ghoto. Em sua morte, em 2017, ele teria 146, o que nunca pôde ser comprovado porque seu país de origem não emitia documentos oficiais antes de 1900. Nessa data, ele já era adulto e esse intervalo de tempo inviabilizou qualquer possibilidade de conhecimento de sua data de nascimento real.