Em 2019, o fim da Segunda Guerra Mundial completa 74 anos. O Brasil participou do conflito, enviando cerca de 25 mil homens para lutar contra os países considerados inimigos naquele momento político. Passadas sete décadas, muitos ainda estão aptos a contar suas lembranças daquele período, quando foram enviados à Itália. Celebrando o Mês do Idoso, a Editora Posto Seis conversou com dois desses veteranos, a fim de conhecer suas histórias.

Um deles é Israel Rosenthal, de 98 anos, que atuou como dentista em um dos acampamentos na Itália. Ele se voluntariou para ir à guerra por um motivo bastante particular: “Eu sabia que os judeus estavam sendo assassinados. Eu sabia que se fosse preso, acabaria em um campo de concentração”, afirma ele, também judeu. Ainda assim, em um ato de bravura, decidiu participar, o que não foi bem aceito por sua mãe: “Ela chorou muito. Na véspera do embarque, eu estava acampado na Vila Militar. Todos os outros foram dançar e eu fui para casa me despedir. Ela não sabia que eu ia. O pessoal chegou de madrugada e logo embarcamos. Prometi que ia voltar e quando isso aconteceu, o navio chegou e eu nem desfilei, fui direto para lá. A vila estava toda embandeirada para me receber”, recorda-se.

Sua ida à Europa foi em novembro de 1944, já no final do conflito, que durou ainda mais dez meses. O navio que o conduziu levou 5,3 mil homens e, ao chegar, o brasileiro passou a dividir alojamento com mais quatro companheiros. Ainda não era inverno, mas as baixas temperaturas foram um dos maiores desafios nesse primeiro momento: “O frio chegou a -2ºC e dormíamos em barracas. No primeiro mês, não tomei banho. Nos davam um tambor de água todo dia. Eu botava um pouco no cantil para beber e com o resto, lavava o rosto”, lembra, explicando que, posteriormente, foi improvisado um chuveiro pendurado na árvore para a tropa se higienizar. Em contrapartida, a alimentação cedida é alvo de elogios: “A comida era muito boa, melhor que a que tinha na casa de muitos”.

Rosenthal nunca esteve no front. Recém-formado pela Faculdade de Odontologia da Universidade do Brasil, onde foi diplomado cerca de um ano antes de sua ida à guerra, ele foi escalado para trabalhar na área de saúde. “Quando cheguei, havia só dois dentistas no acampamento. A fila para os atendimentos era tremenda. Logo, solicitaram, no mínimo, mais quatro. Não sabiam quem escolher, mas um dos que já estavam lá havia feito um curso comigo e me reconheceu”, explica. Sua rotina consistia em acordar às 6h. Das 7h às 12h, trabalhava, quando parava, por uma hora, para o almoço. Depois, continuava até às 17h, quando escurecia e parava de atuar devido à ausência de luz elétrica.

Apesar de não ter participado diretamente dos conflitos, lembra ter conhecido muitas das vítimas fatais deles: “Sempre que havia baixa no front, os homens lá do acampamento eram quem substituíam”. A perda mais sentida, entretanto, aconteceu após o cessar-fogo, quando grande parte dos militares já havia retornado ao Brasil. Um de seus amigos, que ainda estava na Itália, foi metralhado sem querer após outro combatente esbarrar no gatilho da arma. O corpo foi trazido ao Brasil e, posteriormente, transferido ao Monumento aos Pracinhas, no Parque do Flamengo.

Quando isso aconteceu, Rosenthal já havia retornado, mas antes, ganhou folga e aproveitou para conhecer Paris junto com os outros dentistas. A viagem, entretanto, não foi como o esperado: “Não aproveitamos nada! Chegamos no dia 14 de julho, durante a comemoração da Queda da Bastilha. A Champs Elysée estava lotada. O intendente estava com a gente e ficou assustado com a multidão. Voltamos para a caminhonete porque se nos perdêssemos, havia risco de não voltarmos para a Itália. Dormimos nela por três dias porque não havia nenhum albergue com vagas. Não tínhamos nada em franco (moeda local), só comida e cigarros americanos. Na volta, conseguimos hospedagem em uma cidade perto. Quando mostramos os cigarros, nos deram dois quartos, comida e banho de banheira”.

O retorno ao Brasil aconteceria logo após voltar à Itália e nesse breve intervalo, um reencontro o surpreendeu: “Eu estava arrumando as malas quando a Clarice Lispector chegou e me abraçou”. A escritora era sua amiga de infância: ela estudava com o irmão dele e o trio, somado da irmã da ucraniana, Tania Kauffmann, caminhava junto às escolas (Rosenthal e Tania estudavam em outra instituição). “Eu tinha 23 anos e estávamos há uns 10 sem nos ver”, relembra, mencionando, entretanto, não ter mantido contato após esse episódio. “Há uns dois anos, o filho dela fez uma palestra. Não pude ir por não ter companhia, mas o procurei e citei o álbum de formatura da Clarice. Meu irmão faleceu e deixou com minha cunhada, que também morreu”. O material foi entregue e, em troca, o veterano recebeu um exemplar o livro “Clarice, Fotobiografia”, que guarda com carinho.

Após voltar a seu país-natal, pediu afastamento do Exército, ciente que, se ficasse, seria enviado para outra localidade, como ocorreu com outros militares – segundo Rosenthal, essa estratégia de espalhar as pessoas fora adotada pelo então presidente Getúlio Vargas devido ao medo de ser deposto do cargo que ocupava há 15 anos, o que aconteceu menos de um mês depois. “Não quis ir para não deixar minha mãe”. A partir de então, ganhou a vida como dentista da Prefeitura, atuando em distritos escolares até ser promovido a chefe desse serviço no município do Rio de Janeiro, cargo onde também realizava exames como radiografias nos pacientes e o contato direto com a radiação, sem nenhuma proteção, durante sete anos lhe trouxe consequências graves: enquanto o valor de referência de plaquetas em um adulto saudável é acima de 150 mil por microlitro de sangue, as de Rosenthal raramente passam de 40 mil. “Hoje, não posso sequer extrair um dente sem precisar de transfusão de sangue”, acrescenta, mostrando os diversos hematomas em todo o corpo causados por esta condição.

Atualmente, o dentista possui 23 medalhas de reconhecimento por sua participação na Segunda Guerra Mundial, mas nunca veste todas ao mesmo tempo devido ao peso delas (“o paletó não aguenta”). As homenagens são incontáveis: no dia 25 de outubro, ele deve receber mais uma na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, mas não sabe se estará presente na cerimônia devido à dificuldade de ir sozinho até o local, em decorrência da idade avançada, e devido ao horário (o ato está marcado para ser iniciado após às 18h e Rosenthal teme voltar para casa muito tarde). Também é presidente de honra da Associação de Veteranos da Força Expedicionária Brasileira, que funciona na Rua das Marrecas, no Centro. Apesar do esforço em manter esse passado vivo, ele lamenta a falta de apoio do Poder Público. “A história está se acabando. A sede era uma casa, que foi derrubada para virar um prédio de cinco andares. Tínhamos 10 mil associados. Com o tempo, as filhas e esposas, além de historiadores, também passaram a se associar. Éramos isentos de impostos, mas agora, não mais”, aponta, comentando que, em paralelo, o número de membros foi bastante reduzido em decorrência da morte da maioria. “Estamos tentando um encontro com o governador Wilson Witzel para falar sobre isso. As dívidas dos últimos cinco anos beiram R$800 mil”, lamenta.

Igualmente reconhecido, o também veterano José Cândido da Silva também relembra histórias de sua participação na Segunda Guerra Mundial. Diferente de Rosenthal, ele atuou no front, o que lhe proporcionou uma experiência bastante diferente. Atualmente com 96 anos, sua chegada no conflito aconteceu por um acaso. Natural da cidade de Pilar, no Alagoas, ele veio morar no Rio a convite de um tio em setembro de 1941, um mês após completar 18 anos. Por este motivo, ainda não tinha carteira de reservista. Sua inscrição no Exército aconteceu em novembro. “Eu queria ser motorista ou mecânico. Na época, não havia muitos automóveis no Exército. Os quartéis tinham carro só para o comandante”, cita, mencionando ter sido levado por um amigo da família a um espaço, na Vila Militar, onde havia automóveis. Seus planos, entretanto, não deram certo, já que não havia mais vagas naquela unidade. Enquanto caminhava pelo local, em Deodoro, descartou outros quartéis ao ver soldados usando enxadas enquanto capinavam mato, o que ele não queria fazer. Assim, chegou no último endereço, que abrigava o Regimento Sampaio, a única das unidades da região a ser recrutada para ir à Itália.

José Cândido da Silva“Em 1942, o Brasil declarou guerra à Alemanha. Os alemães torpedeavam os navios e vinham de submarinos às nossas praias”, menciona, citando que antes de ir à Europa, foi enviado para Angra dos Reis, onde havia risco de invasão estrangeira. A certeza de participação nas batalhas gerou pânico dentre seus colegas: “Muitos ficaram nervosos. Alguns fizeram maldade com o corpo para ficar doentes e não terem que ir. Eles diziam que não queriam matar, já que não tinham inimigos. Era verdade”, ressalta. Apesar desse sentimento coletivo, garante ter se pensado diferente: “Sempre quis ir. Eu achava que tinha disposição para lidar com o inimigo. Eu não sabia nada de guerra, só que era um matando o outro e que o mais corajoso ou mais sortudo sobreviveria”. Na época, ele tinha 19 anos.

Antes da ida, a tropa passou por testes diversos. Cândido garante nunca ter falhado em nenhum. Após chegar na Itália, os brasileiros foram enquadrados no corpo do exército norte- americano, o que ajudou, principalmente, nos dias gelados: “Pegamos -23ºC. Já imaginou eu no meio do mato, com neve caindo, sem abrigo nenhum? O Exército brasileiro nos forneceu roupas inadequadas, mas os americanos nos deram até um capote de lã dessa grossura”, destaca, usando a largura de seu dedão como medida. Também foram os estrangeiros quem cederam mantimentos como café solúvel, biscoito e ração fria, mas a maior parte dos alimentos eram enviados pelo próprio Brasil: “Comíamos feijão e arroz, como aqui. Os alimentos iam de avião. Às vezes, havia dificuldade em chegar para nós no front, mas sempre levavam montados a burro ou cavalo. Todo dia vinha. Às vezes demoravam, mas os italianos traziam”.

Durante toda a participação na guerra, o veterano atuou sempre na infantaria. “Não saí da linha de frente. Eu ficava três meses em posição e descansava por 15 dias. Nunca dormi em uma cama na Itália. Ficava o tempo todo sentado. Foram meses e meses em cima dos fox-holes (abrigos subterrâneos) ou na casamata”, acrescenta. A maior dificuldade, entretanto, foi o medo: “Éramos mais de 25 mil homens entre oficiais e praças. Quero que me diga um que não sentiu. Cada um tem seu jeito de demonstrar. Vi muita gente chorar. Nunca disse sentir medo, mas ouvi muito. Todos me falavam”. Apesar desse sentimento, sempre foi confiante para as batalhas: “Eu sabia da possibilidade de fracasso, mas pedia para um anjo cuidar do meu corpo. Tenho certeza que algum espírito foi comigo. Vi muita gente baleada morrer perto de mim. Nunca fui atingido. Só me machuquei quando um estilhaço de uma pedra pegou em meu supercílio. Inflamou, deixou uma bolha, mas não me atrapalhou. Só me furou”.

Foi logo após esse pequeno incidente que aconteceu a Batalha de Monte Castello, na qual os americanos venceram a resistência alemã. Cândido participou com um esparadrapo tampando um de seus olhos devido ao ferimento. “Eu falava comigo mesmo, na minha mente: ‘nós vamos vencer’. Lá, o corpo chegava a tremer. Ficava agoniado, com medo”, lembra. O veterano aponta que a guerra acabou em maio de 1945, mas que os brasileiros retornaram em setembro. Apenas nesse tempo teve a merecida folga, quando aproveitou para viajar pelo país onde estava vivendo desde que chegou na Europa. “Não tivemos muitas folgas ou alegrias porque estávamos brigando. Éramos uns 12 mil fazendo isso e os outros estavam na intendência, responsáveis por fazer nossa comida, pelo transporte, pelos serviços médicos e até por nosso pagamento (dividido em três parcelas – apenas uma era entregue aos oficiais; outra era destinada à mãe de cada um e a terceira, ao quartel de onde cada um veio). Eles namoravam, viajavam, dormiam na casa dos italianos. Nós, não”. Naquele intervalo, aproveitou para conhecer outras cidades italianas: “Ficamos esperando (a volta) em Piacenza, que fica na área de Turim, perto de Milão… visitei muitas cidades”, diz, mostrando um souvenir comprado em Veneza naquela época: uma escultura metálica representando uma gôndola.

A chegada ao Brasil, para ele, foi memorável. “Foi uma recepção nunca vista aqui no Rio. Milhares de pessoas foram nos ver, inclusive autoridades”. Ali, ele teve a oportunidade de cumprimentar Ary Barroso, então atuando como repórter, momento este que lhe marcou: “Na nossa saída, ele fez uma reportagem com a gente. Na volta, também”. Apesar de feliz com o reconhecimento, Cândido optou por se desligar do Exército. “Me arrependi, mas continuei a vida. Fui trabalhar com comércio. Na época, ganhava um salário-mínimo. Depois, nós, veteranos, fomos amparados. Não como eu merecia, mas estou bem, graças a Deus. Se tivesse ficado, teria saído como capitão ou até major. A missão que cumpri foi de alta bravura. Teve elemento que não fez nada, ficou de perna pro ar e virou major. Estou monetariamente bem. Não preciso de nada, mas merecia uma promoção”, finaliza.