O casal Neuza Rodrigues da Costa e Adão da Silva tem motivos de sobra para celebrar a vida. Ela tem 89 anos; ele, 102, mas a idade de nenhum dos dois é encarada como empecilho no dia a dia. Em meio às tarefas domésticas e os afazeres de um escritório, a dupla mantém a rotina conservando o carinho e a troca de afeto há quatro décadas.

    Suas vidas se cruzaram por um acaso: Adão era corretor de imóveis quando vendeu um terreno para Neuza. “Ficamos conversando e se passaram 40 anos. Foi amor a primeira vista”, relata a dona de casa, complementada pelo parceiro: “Quando vi esse monumento, fiquei quieto. Eu não estava acostumado a ter companheira por tanto tempo, mas ela tem um negócio que me segurou”, elogia. Antes, ele chegou a viver com outras mulheres, o que resultou em 48 filhos (“As mulheres me davam as crianças para segurar…”, justifica, mencionando não saber quantos netos tem). Ela, por sua vez, foi noiva de outro homem, mas afirma que o relacionamento não deu certo porque ele era “farrista”.

     Questionados sobre o segredo da longa união, Adão brinca dizendo que são as brigas entre eles que os mantém juntos. “É difícil ela concordar comigo! Ela acha que tenho que ficar em casa de domingo a domingo”, comenta. Suas saídas, na maioria das vezes, são para o escritório onde atua como representante da Zona Oeste de um partido político, ramo no qual exerce função desde que Getúlio Vargas ainda era o presidente do Brasil: “Cheguei ao Rio em 1931 para trabalhar. Vim fazer 14 anos aqui. Fui empregado de casa de madame, escoteiro, ajudante de porteiro, faxineiro, sapateiro, leiteiro… Em 1934, fui convidado pela Ação Integralista Brasileira, onde fiquei até 1938. Saí, fui para o Partido Democrata Brasileiro e daí, terminei no Partido Humanista da Solidariedade. Ganhei diploma do curso primário, do ginásio, depois meu curso foi a vida”. Apesar de ter convivido com diversos políticos e, inclusive, ter sido cabo eleitoral de vários que conseguiu eleger, Adão preferiu não seguir esta carreira por questões particulares.

    Durante a maior parte dessa trajetória, ele viveu em Copacabana e presenciou todas as mudanças urbanas da região. “Era um bairro quase sem edifício nenhum… Tinha o São Paulo (na Rua Barão de Ipanema), o Copacabana Palace e o Guarujá (que ficava na Avenida Atlântica, mas, atualmente, o condomínio, com nome de “South Beach Residencial Club”, tem como endereço a Rua Domingos Ferreira). Eu era amante da praia”, diz, citando ter vivido em diversos lugares como as ruas Barata Ribeiro, Sá Ferreira, Figueiredo Magalhães, Constante Ramos e Siqueira Campos. Em determinada época, viveu também no Leme, onde sua história novamente esbarrou na política: Adão dividia endereço com o então presidente Eurico Gaspar Dutra. “Ele morava na Rua Gustavo Sampaio. Minha casa era nos fundos da dele. Não tínhamos nenhum contato, nunca falei com ele”.

     Neuza também chegou a Copacabana cedo, apesar de viver a maior parte de sua vida em Paciência – nos quase 40 anos de união, o casal seguiu vivendo um romance às antigas, com cada um em sua residência até recentemente, quando Adão se mudou para a casa dela na Zona Oeste. “Eu vivia na Estrada Intendente Magalhães, mas fui criada em Copacabana. Eu trabalhava em casa de família. Fiquei morando lá, em frente à Sapataria Fluminense (que ficava no número 643 da Av. N. Sª de Copacabana) e a gente ia muito à praia”, lembra. Assim como aconteceu com seu companheiro, sua trajetória profissional também começou cedo: “Com 14 anos, eu já trabalhava em fábrica. Ali mesmo tirei diploma de corte e costura e cabeleireira”, recorda-se, mencionando ter ficado órfã de mãe aos sete anos e de pai, aos 17, após perder também seu irmão. Com os certificados em mãos, exerceu funções diversas e gosta de se manter na ativa até os dias atuais: “Se tiver uma festinha na sua casa, me chama para ajudar. Faço de tudo!”, orgulha-se.

    Em sua visão, seus dotes domésticos ajudaram a conquistar Adão. “Segurei ele pela boca. Minha mãe também era mineira (seu parceiro nasceu na cidadezinha de São João do Nepomucemo, em Minas Gerais). Aprendi com ela muitos quitutes como galinha com quiabo”. A alimentação do casal, atualmente, é toda preparada por Neuza. É ela quem prepara o café-da-manhã do companheiro, geralmente composto por café com leite, pão com ricota e banana, assim como o almoço (como a dupla dorme cedo, essas são as únicas refeições feitas): “Comemos muitos legumes e frutas. Sempre faço chuchu, beterraba, feijão… fomos criados comendo de tudo. Comprei moela, limpei tudo e deixei temperadinha. Vou fazer com angu”, exemplifica suas receitas, apontando as diferenças em relação às gerações atuais: “Antes, as mães ensinavam a fazer comidinhas. Quando a mulher ficava mais velha, sabia cuidar da casa. Até para mandar em empregado tem que saber fazer. Hoje, não sabem”, analisa.

     Juntos, o casal divide um passatempo: assistir novelas na TV. Adão gosta de “A Dona do Pedaço”, exibida às 21h pela Rede Globo. Neuza também gosta dessa, mas não é sua favorita. “Durmo mais que vejo”, analisa, mencionando acompanhar mais “Por Amor”, transmitida à tarde na mesma emissora. Separados, cada um aprecia um estilo de lazer. Ela é adepta de eventos sociais e frequenta semanalmente as reuniões que acontecem às quintas-feiras no Clube Recôncavo, em Sepetiba: “Uma ensina tricô, outra crochê… Somos umas 50”, cita, dizendo ser participante das excursões promovidas pelo espaço. “Lá que conheci Petrópolis, Teresópolis, Poços de Caldas, Aparecida, São Paulo… Também fui muito ao Canecão. Todo ano vamos ao Sítio do Japonês, em Itaguaí, mas nesse ano, não fui por causa da minha perna (que estava machucada)”, lamenta. Ele, por sua vez, prefere investir em seu próprio conhecimento. “Gosto muito de história, de ler, de conhecer o mundo político tanto nacional quanto internacional. Quer me ver fulo da vida? É falar de assunto diferente enquanto estou ouvindo alguma coisa”, observa o centenário.

    Apesar de a dupla não ser formalmente casada, há um consenso entre os dois de que a união é para a vida inteira: “Quando a gente casa, faz juramento. Deus colocou esse companheiro em minha vida. Ele já tem idade, assim como eu. É uma pessoa que me dá respeito. As pessoas dizem que eu sou muito nova, mas estou com meu velho aqui. Minha sobrinha se casou com um jovem e se separou. E se eu tivesse ido na conversa dela? Antigamente era muito melhor, a mulher respeitava o homem e o homem também respeitava a mulher. Agora, ninguém toma mais a benção do outro, é só ‘oi’ para todos”, finaliza Neuza.