Há oito anos, a empresária Márcia Melchior mantém a Orquestra Violões do Forte e SindiRefeições, oferecendo a estudantes da rede pública a oportunidade de se apresentar em diversos eventos. O projeto é vinculado ao Instituto Rudá, que amplia os benefícios concedendo ao público-alvo aulas de disciplinas diversas, permitindo que o trabalho com a música traga reflexos para suas vidas escolares e pessoais.

“Eram duas orquestras independentes, mas quando a crise nos pegou, pedimos autorização para o presidente do SindiRefeiçõesRJ, João Ricardo de Oliveira, e para o comando do Forte para que uníssemos as duas para baratearmos os custos e continuarmos com a excelência nas apresentações”, explica. O público delas é imenso: apenas no Festival Travelling Rio, em Rennes, na França, foram 50 mil. No Brasil, as apresentações em endereços como o Centro Cultural Banco do Brasil, a Casa França-Brasil, o Museu Histórico Nacional, o Parque das Ruínas, a Quinta da Boa Vista e o Teatro Carlos Gomes, fora tantos outros, somaram mais 60 mil. Houve eventos também em conjunto com outros conjuntos como na conferência Rio + 20 e na Jornada Mundial da Juventude, quando o Papa Francisco estava entre os espectadores.

Devido ao sucesso, Márcia foi laureada com diversos prêmios, como o “Mérito Carlos Gomes”, concedido pela Sociedade Brasileira de Artes, Cultura e Ensino – Carlos Gomes, no grau de Comendadora Láurea. No Dia do Exército Brasileiro (19 de abril), receberá mais um, mas mesmo com diversas medalhas, condecorações e diplomas, afirma que seu maior orgulho são os trabalhos desenvolvidos pelo Instituto Rudá, que oferece aulas de reforço de inglês, português e matemática para alunos da rede pública.

O embrião da ideia foi desenvolvido em 2007, porém, não foi possível dar continuidade a ela nesse primeiro momento devido à ausência de patrocinadores, já que a ideia original acompanhava o surgimento do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj) e visava fundar uma escola de música e uma orquestra para a população de Itaboraí, beneficiando principalmente as pessoas mais necessitadas. Entretanto, os problemas envolvendo a obra e a Operação Lava Jato afastaram os possíveis apoiadores da ideia, que só saiu do papel, anos depois por uma coincidência do destino.

Nesse mesmo tempo, em paralelo, a empresa mantida por Márcia, Forum da Cultura Produções Artísticas, era responsável pela Orquestra do Instituto Pão de Açúcar, de Vila Isabel, que teve sua metodologia de ensino modificada. Na última apresentação do grupo, que não teria mais onde tocar, um homem emocionado chamou a atenção da produtora. Era o futuro comandante do Forte de Copacabana, General Afonso Henrique Ignacio Pedrosa, que viria a assumir a fortificação poucos dias depois. Satisfeito com o que tinha visto, ele disse que seu sonho era contribuir com algo naquele estilo. “Questionei sobre o porquê de ele não criar um grupo e após algumas reuniões, conseguimos chegar a um acordo quanto a usar o espaço como a casa da nova ‘Violões do Forte’. Aquela seria nossa última apresentação, depois disso o programa acabaria. Ele caiu do céu pra gente naquele momento”, conta.

Dessa forma, surgiu a nova orquestra e também o Instituto Rudá, que, em parceria com o Exército Brasileiro, oferece ainda lições de saxofone, clarinete, flauta, trombone e trompete lecionadas por professores que são sargentos músicos. “Acreditamos que o ingresso na carreira militar traz a muitos jovens a perspectiva de trabalhar com o que gostam, ingressando como sargentos músicos numa carreira estável, com bons salários e possibilidade de crescimento profissional”, descreve Márcia, antes de detalhar o relacionamento da instituição com o projeto: “Os militares nos dão muito apoio e até correm atrás de patrocínio. Eles são muito afetivos! O General Richard (atual secretário de segurança do Rio) até nos chamou para uma apresentação aos novos alunos da Escola Marechal Castello Branco (Eceme)”.

No início, a Violões do Forte visava dar oportunidades apenas a quem já tocasse violão. Porém, com esses requisitos, Márcia conseguiu reunir apenas nove participantes. Com o baixo número de alunos, as vagas foram abertas a quem também tocasse outros instrumentos, o que gerou imensa procura e formando assim sua primeira equipe com 25 músicos. Além de socializar e integrar, a orquestra traz a oportunidade de profissionalização destes jovens. De forma natural, muitos deles estão trilhando seus próprios caminhos, como é o caso dos integrantes do “Grupo Social Soul”, primeiro lugar no concurso “Vou Tocar Na Estação Rio”, promovido pela Rede Globo.

Apesar das dificuldades, a coordenadora destaca que os alunos fazer parte do projeto por prazer. “Alguns vêm de muito longe e com o maior amor do mundo, somos quase uma família. Tem que ter muita força de vontade para vir ensaiar todo sábado e ficar o dia inteiro aqui, além dos concertos mensais”, afirma a idealizadora. Além dos rapazes do “Social Soul”, o “Violões do Forte” já revelou Sargentos Músicos para o Exército (apenas em março, foram três os selecionados) e recentemente um de seus alunos passou nas provas para fazer faculdade de música na Berklee College of Music.

Atualmente, Márcia não precisa mais correr atrás de novos talentos, pois a busca é muito grande. Todos os meses, cerca de 50 novos jovens procuram o Instituto Rudá para cursar as oficinais oferecidas. Além disso, a orquestra continua contando com 25 jovens, além de outros 30 no processo de aprendizado. O número, porém, não é o suficiente para Márcia, que afirma só não ter mais aprendizes pela falta de patrocinadores. “As portas estão abertas para todos que quiserem vir, mas como perdemos um auxílio financeiro no ano passado, o número tem que ser limitado. Neste momento só temos ajuda do FHE Poupex, por meio do General Enzo Martins Peri, e do SindiRefeições, através de João Ricardo de Oliveira. Temos novas pessoas querendo participar, o que dificulta mesmo é a falta de recursos”, finaliza. Quem quiser ajudar pode obter informações de como fazer em www.violoesdofortedecopacabana.com.br/como-ajudar.

 

Texto: Daniel Henrique