Prédio do futuro Museu da Imagem e do Som segue abandonado

A construção do Museu da Imagem e do Som (MIS) segue paralisada. A obra, que deveria ser inaugurada em 2014, segue sem previsão de conclusão e causando transtornos a quem vive no entorno e transita por ali. Problemas como falta de segurança e aumento de vetores de doenças estão entre as situações relatadas.

O canteiro foi desmontado em março de 2017, após bastante tempo sem movimentação no local. Na época, a assessoria da Secretaria de Estado de Cultura do Rio de Janeiro informou que como a obra era financiada pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento, ela não sofreria o impacto da crise econômica do estado e que 70% fora concluído em sete anos. O restante incluiria acabamentos e instalações e, para tudo ser concluído, seria necessário contratar uma nova empreiteira. A licitação já estaria em curso, mas, passado mais um ano, o local segue abandonado.

Nesse período, quase tudo continua como antes, mas fatores externos deterioraram a construção: tapumes seguem tampando toda a calçada, obrigando os pedestres a caminharem por um corredor destinado a eles onde, originalmente, ficavam apenas vagas de carros. Entretanto, a grade que delimitam a área está quebrada, com partes faltando e bastante enferrujada. Ferrugem também pode ser vista nos suportes de placas, instalados virados para a Rua Djalma Ulrich. Além disso, boa parte dos informativos que deveriam estar instalados ali já não existem mais.

Ao observar a fachada, torna-se ainda mais evidente que há muito tempo ninguém faz nada ali. Comparando a visão atual com uma foto do final de março de 2017, nota-se que os espaços com aberturas (onde, provavelmente, seriam instaladas portas) seguem sem nenhuma proteção, tornando a parte interna do futuro museu vulnerável a ações da chuva, do vento e da maresia. Nos vidros, pode-se ter uma amostra da sujeira do local: muitos deles, principalmente nos andares debaixo, ficaram opacos tamanha a quantidade de poeira. Perto da caixa d’água, a lateral de uma estrutura construída ali como temporária parece pronta para desabar. Nos tapumes recém-colocados naquela ocasião, substituindo o painel com o nome do museu, cartazes informativos e até uma gravação com a voz de Carmen Miranda, podem ser vistas algumas pichações – em uma das laterais, um pedaço encontra-se queimado, indicando que a população em situação de rua que se abriga ali durante a noite já acendeu uma fogueira encostada na estrutura.

Segundo alguns porteiros de edifícios próximos, essas pessoas também cometem delitos. “Já até cedi imagens da câmera para a polícia”, comenta um deles. Outro aponta assaltos na Avenida Atlântica, no trecho onde é necessário transitar por um corredor entre o tapume e a divisória quebrada – quem começa a andar naquele local não enxerga o que o espera no fim da passagem – além de outras questões: “Há muita bagunça. Fica cheio de xixi na rua durante a noite”, queixa-se. A presença de vetores de doenças também é alvo de denúncias: diversos profissionais de todo o quarteirão denunciaram o aumento de mosquitos. “Um morador teve dengue e se mudou por causa disso”, conta um dos funcionários. Apesar dos incômodos, o edifício mais afetado é o vizinho à obra, na Avenida Atlântica, que recentemente foi invadido por ratos. “Tiveram que desratizar o prédio todo. Acho que eles entraram por baixo dos tapumes”, sugere um dos empregados do condomínio.

Além dos incômodos, esse abandono também é prejudicial para a integridade do prédio, uma vez que, sem estar finalizado, apresenta muitas partes de concreto. “Esse material é altamente vulnerável quanto a sua durabilidade ou vida útil às intempéries diretamente sobre seu subtrato ou camada superficial externa sem a proteção adequada. Em cenários próximos à orla marítima, isso é severamente agressivo devido às partículas carregadas de cloretos, sulfetos e óxidos de carbono em suspensão no ar, que são absorvidos pelo substrato do concreto e penetram pelos vazios do material, chegando ao meio interno, onde está localizado um dos elementos mais importantes de resistência desse tipo de estrutura, as armaduras ou barras de aço. Se iniciarem o processo de oxidação e corrosão devido ao contato desses elementos agressivos externos nelas, podem comprometer a preservação da segurança e manutenção da capacidade resistente de cargas calculadas originalmente e estas virem a decair numa progressão geométrica rapidamente em poucos anos”, afirma o professor de Engenharia Civil do Centro Universitário Celso Lisboa, Orlando Gomes. Ele ainda aponta que além dos possíveis comprometimentos estruturais devido ao abandono, esse tempo sem intervenções também pode ter sido suficiente para o surgimento de diversos outros problemas. “Já pode ter sido estabelecido um estágio inicial de deterioração e degradação estrutural do prédio, assim como sua depreciação antes mesmo de entrar em uso público. O descaso da obra com esse tipo construtivo é um problema gravíssimo”, alerta.

O engenheiro Hebert Houri também aponta a probabilidade de perigo: “A maresia ‘deposita’ no ar uma espécie de poeira salgada, que quando entra em contato com uma estrutura metálica ou com o aço, provoca oxidação. Por ser uma região litorânea, o mais indicado é que a estrutura do prédio seja de madeira ou concreto armado com algum cobrimento mais espesso por cima. A função dessa espessura é justamente proteger a armadura de aço das ações causadas pelas intempéries como o sol, a chuva e até mesmo essa ‘poeira salgada’”. O concreto sofre ações de compressão, enquanto o aço tem a função de tração na estrutura. Caso ocorra uma rachadura na espessura do concreto, a armadura começa a ficar exposta. Em exposição com essas intempéries, o aço corrói e a armadura desgasta, perdendo sua resistência de tração. Quando não ocorre esse conjunto tração/compressão, a estrutura de concreto tende a ruir e desmoronar”, alarma.

Consultada, a assessoria da Secretaria de Estado de Cultura do Rio de Janeiro não respondeu a nenhum dos contatos recentes.