Quem visitou a exposição do Museu Nacional que ficou em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil teve a oportunidade de conferir uma réplica do trono do reino africano de Daomé, exposta com destaque na segunda sala dedicada à mostra. A peça foi produzida pelo estudante Miguel Monteiro Nunes, de 14 anos, para a feira de ciências de sua escola e o nível de detalhamento impressionou a direção da instituição, que solicitou a peça para o acervo que está sendo reconstruído.

      “Como havia acabado de acontecer o incêndio, a proposta (do trabalho) era trazer a essência do Museu Nacional de volta”, cita Miguel. Foi sua professora quem sugeriu o que deveria ser feito – cada turma foi responsável por reproduzir uma seção do museu e coube à sua turma desenvolver a área de etnologia, que não era a favorita do garoto. “Eu não gostava muito, achava chata, já que era muito pequeno quando ia. Preferia as múmias, a parte dos oceanos, os dinossauros e os meteoros”, diz, sincero. Ainda assim, a história por trás do objeto foi estudada para ser apresentada na feira de ciências para a qual a reprodução foi desenvolvida.

     Antes do incêndio, Miguel visitou o Museu Nacional diversas vezes, quando também passeava pela Quinta da Boa Vista e ia ao zoológico. Após o incêndio, foi convidado por uma equipe de reportagem para voltar ao local, acompanhado de sua mãe, Ana Paula Nunes. A ida aconteceu em março, mas o cheiro de queimado ainda persistia, mesmo seis meses após o incêndio. Devido ao risco de acidentes, os dois foram impedidos de acessar o interior do prédio, mas o cenário impressionou: “Quando a gente olha pela janela do primeiro andar, vê o céu”, comenta o garoto, triste com a atual realidade do prédio histórico. Sua opinião é complementada pela de sua mãe: “A Quinta hoje é deprimente. É muito triste ver as paredes e as árvores do jardim ali da frente queimados. Ficou só a carcaça do museu. Quando fomos, estavam colocando colunas de ferro para tentar salvar aquele esqueleto”.
     O nível de detalhamento impressionou imediatamente a professora: “Ela ficou chocada, disse que eu exagerei”, comenta, observando que, naquele momento, seu interesse era apenas garantir uma nota boa. Para isso, pediu a ajuda de sua tia, Eliana Navarro, que viu na internet as medidas originais e o ensinou a técnica de papel machê, adotada para a confecção do novo trono, o que gerou muita sujeira e muito papel espalhado pela casa durante cerca de um mês.

     Coube à secretária do colégio levar representantes do museu à apresentação dos alunos e o trabalho de Miguel chamou a atenção. “A responsável pela visita ficou emocionada. Ela entrou e ficou rodando (para ver de todos os ângulos”, lembra o menino.

     Até então, montar objetos em casa era apenas um hobby. Brinquedos como espadas e escudos já haviam sido feitos pelo estudante. “Me dá dois potes de biscuit (massa de modelar utilizada em peças artesanais diversas) que fico feliz da vida”, pontua. Outros materiais como papelão e peças de Lego também são usadas em suas criações, estimuladas por sua avó, que sempre lhe dá ferramentas de presente. Apesar do talento, o menino ainda não sabe se usará essas habilidades em seu futuro profissional: “Quero ser engenheiro, mas também penso em estudar Direito”, afirma, ainda incerto sobre qual carreira seguir.

     Enquanto não chega a uma conclusão, o garoto se diverte lembrando de quanto o trono ainda estava em sua casa, onde ele e sua irmã, de sete anos, inclusive se sentavam na peça para averiguar se ela realmente estava firme. Atualmente, o contato com o objeto é bastante restrito, o que foi constatado ainda durante a montagem da exposição. Ele foi convidado para conferir essa etapa e se surpreendeu ao ver funcionários manuseando o trono com luvas. Apesar dos cuidados extremos, Miguel ficou preocupado com um detalhe:      “Eles estavam segurando errado. Pensei: ‘vai quebrar’”, lembra, mostrando conhecimento pleno sobre sua criação, que, apesar de seu receio, resistiu. Foi neste dia que ele descobriu o peso da peça: “Tem entre 7 e 8 quilos” – o fato de ser feito quase que majoritariamente de papel evita que ela seja muito pesada.

     O sucesso fascinou a família do menino. “Foi uma surpresa! Eu não imaginava que ficaria numa sala, em destaque. Ganhou dimensão a nível nacional”, comemora Ana Paula, que aponta que o filho se questionava acerca do destino do objeto antes do convite para integrá-la ao acervo do Museu Nacional: “Ele dizia que botaria no quarto e faria uma mesa”. Já Eliana brincava com a possibilidade, até então inexistente, de a produção ser destinada ao acervo da instituição. “Eu falava: ‘já pensou se alguém do museu gosta?”, cita, dizendo que recebia de Miguel respostas negativas: “Quem vai querer um trono de papelão?”. Seu pai, Fábio Nunes, lamenta ser essa a única raridade reconstruída: “Se aquele museu tivesse acervo digital, uma impressora 3D reconstruiria diversas peças. Os documentos históricos poderiam ser escaneados” – o crânio de Luzia, o fóssil mais antigo da América do Sul, também ganhou uma nova versão.

     Apesar de a matéria-prima da réplica ser bastante frágil, a técnica adotada na montagem, assim como a finalização empregada, garante a durabilidade da peça, que, quando o museu for reaberto, poderá ser visitada por todos.