A suspensão repentina das aulas, em decorrência da pandemia de COVID-19, pegou os profissionais de educação de surpresa. Muitos tiveram que improvisar atividades para continuar lecionando a seus alunos de casa. Com o professor Robson Cavalcanti, da Escola Municipal Alencastro Guimarães, não foi diferente. Orientador da Educação de Jovens e Adultos (EJA), ele criou exercícios baseados nas publicidades do Jornal

“Com os adultos, uma das coisas que a gente estimula na questão da leitura são os diversos tipos de texto e o jornalístico é, naturalmente, muito importante para quem está em processo de EJA. Eles aprendem a gostar, a utilizar as informações e a compreendê-las”, analisa Cavalcanti, que devido à sua formação, pode lecionar todos os conteúdos de Ensino Fundamental.  Leitor do veículo, ele encontrou nas páginas uma inspiração para exercícios enviados aos estudantes pela internet: “Sempre gostei de ler o jornal. Moro na Rua Anita Garibaldi e sempre o pego no Shopping dos Antiquários. É um jornal muito diverso, que fala de cultura, arte, receitas…  Ele passeia nos diversos tipos de textos dentro do texto jornalístico e tem muitos anúncios”

Foi a assinatura digital, entretanto, o que possibilitou sua ideia. “Recebi o PDF (formato do arquivo enviado online aos leitores), fui recortando e colando e montei esse material”, explica, citando que a Prefeitura não desenvolveu nenhuma plataforma específica para os alunos do EJA estudarem de casa. Essa brecha foi preenchida com o Whatsapp, onde as turmas foram transformadas em reunidas. “Pedi que cada um chamasse os colegas que estavam de fora. Eles fotografam os exercícios prontos, mandam para mim, fotografo a correção e envio de volta para eles. É uma coisa muito embrionária e, de certa forma, foi uma ação oficiosa. Antes de sabermos que teríamos esse grande período de afastamento, a gente deixou de trabalhar só um dia. Teve aula até sexta-feira. Na terça, já enviei as lições. Não foi uma coisa da Prefeitura, foi nossa”, reforça.

Os enunciados propõem, em sua maioria, a realização das quatro operações matemáticas básicas. Em um deles, associado ao anúncio de uma ótica, Robson cita que a personagem Ana Clara irá comprar um par de óculos no referido estabelecimento por R$895, dividindo o valor em 10x sem juros. A partir de então, os alunos devem calcular o total de cada parcela. Em outro, o professor usa a tabela de preços de um laboratório e menciona quais exames a outra personagem, Carla, irá fazer. Os estudantes, então, devem identificar quanto custa cada um deles e obter os gastos. Em seguida, devem orçar quanto deverá ser pago se essa quantia for parcelada em 2x.

A aceitação foi um sucesso. “Todos adoraram, fizeram rápido os exercícios. Como os exemplos são muito cotidianos, muito próximo da realidade deles, que se identificaram. Isso criou um clima de proximidade muito grande, eles ficaram à vontade. No EJA, tem muito disso. Às vezes, os alunos não se sentem confortáveis. A gente trabalha com uma lacuna que fica em função do que eles não puderam fazer quando crianças ou jovens. Trabalhamos sempre com a questão do estímulo de uma auto estima mais bacana, mais incrementada”, cita, continuando: “Todos têm acesso ao jornal. É um objeto que eles veem em papel. Um dos anunciantes é da própria Ladeira dos Tabajaras, onde tenho alunos”,  cita, destacando que a maioria reside naquele logradouro, no Chapéu-Mangueira (no Leme) e em outros endereços próximos. “Os que não moram, que são minoria, trabalham na área. A escola tem acesso muito fácil, é colada na estação do metrô”, aponta.

Devido ao sucesso, o Jornal Posto Seis deve continuar sendo usado em exercícios após o retorno das aulas presenciais. “vou levar em outros momentos ou organizá-los, em forma de blocão, e continuar aproveitando porque o jornal, além da relevância social, é um instrumento pedagógico muito bom para exercícios de leitura e escrita”.