O artista plástico Di Paula abriu as portas de seu ateliê, em Copacabana, para um grupo composto por outros pintores e colaboradores do espaço se conhecerem. A ideia era promover um intercâmbio de ideias e dialogar sobre possíveis parcerias, além de apresentar aos presentes uma aula do americano Cleveland Palmer, que demonstrou as técnicas aprendidas no exterior ao público.

O estúdio funciona há 20 anos e, segundo o professor Luiz Dantas, é focado em quebrar a resistência que muitos adultos sentem em desenhar. “Quem segue padrão se limita”, observa, justificando a falta de um estilo pré-determinado para a arte ensinada no local. Ele chama a atenção para o fato de uma criança de cinco anos ser capaz de produzir, de modo infantil, uma imagem, enquanto adultos mostram resistência em fazer isso: “O mais importante do desenho não é rabiscar e sim enxergar o que está vendo. Não existe dom”.

Di Paula tá continuidade à ideia, comentando que, ao crescer, as pessoas sentem vergonha e não fazem mais achando que os rabiscos ficarão feios. “Nossa ideia é tirar esse bloqueio racional. Alguns não querem ser aristas, mas querem desenvolver as habilidades do lado direito do cérebro (responsável pela criatividade) e usá-las na empresa em que trabalham”, aponta, mencionando que graças aos estímulos dessa parte, certos objetos foram criados, como smartphones, uma vez que foi necessário imaginá-los antes. “Apenas para finalizá-los usaram o lado esquerdo, que é o racional”.

Essa mesma tecnologia, smartphones, é apontada por ele como uma ferramenta que vem separando as famílias, o que a arte pode reverter, em sua visão: “Nesses 20 anos em que dou aula, assisti muitas famílias se desintegrando por causa disso, mas tenho alunos que são pai, mãe e filho e todos vêm no mesmo horário”, comenta. No Dia das Crianças, ele promoveu um evento, patrocinado pelo Imperator – Centro Cultural João Nogueira, do Méier, onde muitos pais e filhos desenharam, alguns em parceria pela primeira vez, o que permitiu um contato inédito entre ambos.

Dentre os presentes no encontro no ateliê, estava André Batista, filho de Di Paula e responsável pela parte empresarial do espaço. Ele cita que desde menino era incentivado por seu pai a estimular a criatividade, o que, em sua opinião, o ajuda até no trabalho, em uma construtora: “Sempre fui mais ousado até na parte artística. Não sou desenhista, mas tenho desbloqueios aqui”. Di Paula complementa a ideia explicando que a visão de conjunto e de tomada de decisões são beneficiadas pela arte, uma vez que eventualmente é necessário adotar novas visões.

Assim como Batista, outro frequentador também usava suas habilidades adquiridas no trabalho. Paulo Corrêa atua na área de marketing, definida por ele como “a que transforma algo já pronto em mais rentável” – daí a necessidade de desenvolver a criatividade. “Tenho uma visão particular sobre letreiros. Eles ficam acima da cabeça e normalmente as pessoas não os veem quando andam. Quando elas estão nos ônibus, ele passa rápido e ninguém os vê. Marketing é isso: observar e dar funcionamento melhor às coisas”, justifica após exemplificar uma visão diferenciada do que parece óbvio à maioria das lojas.

Outro membro do encontro, o angolano Fernando Guimas também chegou ao ateliê pelo mesmo motivo. Em seu caso, houve recomendação médica de que ele desenvolvesse o lado direito do cérebro. Ele, que é engenheiro eletrotécnico, acabou descobrindo a vocação desconhecida e já começou a pintar – na época, estava produzindo sua segunda tela, que seria entregue ao cônsul de seu país natal. Di Paula complementa dizendo que há outros casos de alunos ali por indicação de profissionais da área da saúde, como um pintor autista: “Ele senta aqui há 14 anos e, sem falar nenhuma palavra, produz suas telas”, diz. Dantas ainda conta que essas produções são enviadas à terapeuta dele, que já descobriu muito sobre seu paciente dessa forma.

Devido ao sucesso do ateliê de Di Paula, o professor norte-americano Cleveland Palmer trouxe um grupo de alunos para um intercâmbio artístico no ano passado. O sucesso foi tão grande que o retorno é previsto para junho, quando os estudantes devem passar uma semana no Brasil apresentando as técnicas brasileiras. Aproveitando sua passagem pelo Brasil, o californiano, que é casado com uma brasileira e por isso fala português, aproveitou para exibir suas técnicas a todos. “Tenho ensinado há 23 anos. Luto pelas artes e tento transmitir uma mensagem ao mundo inteiro, começando pelo Brasil, de que as pessoas têm medo por não terem fé suficiente no conhecimento acadêmico. Meu objetivo é acabar com esse bloqueio. As pessoas ficam mais autoconfiantes quando sabem o que fazem”, aposta.

Uma das desafiadas a acabar com essa limitação foi Susana Toledo, que há mais de 50 anos fez curso de pintura, mas parou de desenvolver a arte após pintar duas telas. Após tanto tempo parada, em setembro de 2017, foi a uma reunião onde um artista presenteou os aniversariantes com retratos deles. Daí, surgiu a ideia de aprender a técnica rapidamente para ofertar a 20 amigas a mesma lembrança, porém, feita por ela. Seu prazo era até dezembro, quando conseguiu concluir “apenas” 16 – atualmente, o número já subiu para 22. “Não fiquei satisfeita com as cores, prefiro em preto e branco”, observa, mencionando que, ao mesmo tempo que driblou o entrave, começou a descobrir seu próprio estilo.

Já Vera Figueredo também se descobriu nas artes, mas não como pintora. A ex-professora, que há 18 anos não produz telas, optou por seguir carreira na área de curadoria. “Premio artistas nas exposições em galerias, no Clube Naval, na Escola de Guerra Naval, na Escola Superior de Guerra… Recentemente, fiz um trabalho com crianças de escolas públicas no qual elas expuseram seus trabalhos. Vejo várias telas e gratifico muito os artistas. Me achei na organização e ajudando-os. Hoje, ajudá-los a sair de seus ateliês para irem a diversas galerias é minha alegria”, afirma, explicando não ter mais tempo de pintar.

Outro participante, André Redine, que está inaugurando, em Teresópolis, o Centro de Desenvolvimento Mental, Vocacional e Esportivo (CDMVE), que visa orientar garotos que sonham em ser jogadores de futebol, mas que são rejeitados pelos clubes. “Perguntei ao (ex-jogador) Jairzinho quantos viram profissionais e ele falou que pouquíssimos são aproveitados, mas que só um ganha sucesso”, observa, citando que as razões para rejeição são diversas como não estarem prontos ou acima do peso. “Muitos desses garotos têm responsabilidade de levar comida para casa com 12, 13 anos e o esporte era a única esperança. A frustração, em muitos, se transforma inclusive em violência. Os clubes hoje formam jogadores, mas não atuam na parte social”, afirma, dizendo que os candidatos ficam com a ideia de que não servem para nada, fora que muitos são dispensados com problemas físicos. Sua ideia engloba um projeto multidisciplinar com profissionais diversos apresentando áreas de atuação para estes meninos se espelharem. “O interesse é mostrar que eles podem ser alguém na vida. Esse negócio da bola vira um problema sério. Estigmatizou-se que futebol é uma profissão, mas é uma pirâmide invertida. Pouca areia passa na peneira”, frisou.

O jornalista Mauro Franco também foi convidado para o encontro. Apesar de não pintar telas, é participante ativos das artes, sendo acadêmico da Academia Brasileira de Belas Artes e da Académie de Lettres et Arts Luso-Suísse, através da fotografia e da literatura. Em sua apresentação, defendeu a produção delas como instrumento de transformação social: “Se, na entrada das UPPs, junto com repressão entrasse a arte e a educação, provavelmente a sociedade estivesse melhor. Repressão sozinha não dá resultado. A arte é transformadora. Defendo que essa atividade, inserida através do Estado, seja uma saída para nossas crianças e jovens”.