A Associação Marlenista do Rio de Janeiro (AMAR) celebrou, com grande festa no Hotel Othon, os 50 anos do show “Carnavália”, estrelado pelos cantores Marlene, Blecaute e Nuno Roland. O espetáculo, até os dias atuais, é considerado um marco pelos fãs, que ainda lembram da alegria que as músicas traziam a eles no período pós-AI-5. A comemoração contou ainda com show de Weder Werneck, que comemorava 40 anos de carreira na ocasião.

“Carnavália” estreou em junho de 1968, trazia em seu roteiro 87 músicas do cancioneiro carnavalesco e foi apresentado durante seis meses no Teatro Casagrande, no Leblon – posteriormente, as apresentações foram levadas ao Teatro de Arena, em Copacabana (nessa temporada, o humorista Grande Otelo passou a integrar o elenco), mas até os encarcerados na Penitenciária Professor Lemos Brito, na Ilha do Governador, puderam se distrair ao som dos sucessos, tamanho o sucesso. A repercussão foi tão grande que nasceu ali o hábito de encerrar determinadas festividades ao som de “Cidade Maravilhosa” – a ideia foi da cronista Eneida de Moraes, que assinava o espetáculo. Às vésperas da estreia, ela reescreveu o final para deixar o público entoar a canção defendendo-a como hino da cidade, o que estava ameaçado devido a um projeto discutido na Assembleia Legislativa (para os deputados, era necessário outro com maior dignidade para as cerimônias oficiais, menos alegre e carnavalesco).

O show de 23 de agosto foi gravado ao vivo e transformado em dois discos, que foram lançados pelo Museu da Imagem e do Som em dezembro daquele ano. Ambos chegaram as lojas a tempo de alegrar o réveillon das famílias, considerado bastante sombrio devido à assinatura do AI-5, o que ocorrera 18 dias antes da virada do ano. Antes mesmo do trabalho ser comercializado, Marlene apontou sua participação como um dos pontos altos de sua carreira e defendeu o lançamento dessa coletânea aos jornais da época alegando que o carnaval daquele período era diferente do retratado nas faixas porque a comercialização das músicas de má quantidade acontecia de modo deplorável. Já Eneida garantiu ter sido a maior emoção de sua vida ver senhoras e senhores vibrando com músicas como “Lata D’Água”, um dos maiores sucessos de Marlene.

Na comemoração dos 50 anos dessa antologia, personalidades diversas foram escolhidas pela presidência da AMAR para serem homenageadas como a cantora Ellen de Lima, apontada como uma das preferidas do apresentador César de Alencar nas apresentações na Rádio Nacional e a favorita dos rodoviários; o maestro Tranca, que trabalhou com Marlene durante 30 anos, em todas as apresentações desde o antológico “Te Pego Pela Palavra”, de 1974. Os dois entregaram um ao outro o prêmio recebido, antes de outros presentes serem lembrados, como o cantor Venilton Santos, responsável por êxitos como a música “Sorriu Pra Mim”, que recebeu sua lembrança das mãos da cantora Márcia Calmon, filha do pianista Waldir Calmon, que gravou com a Rainha do Rádio Ângela Maria o sucesso “Babalu”.

O presidente da Fundação Sócio-Cultural José Ricardo (Funjor), Luiz Murillo Tobias, foi chamado para representar seu pai, o artista que dá nome à instituição gerida por ele e considerado o príncipe da Jovem Guarda para entregar o prêmio dedicado a Adelino Moreira, cujo centenário estava sendo lembrado também na festa, à filha dele, Carmen Moreira. Encerrando aquele bloco de homenagens, o jornalista Mauro Franco, editor da Editora Posto Seis, foi chamado ao palco para ser prestigiado pelos serviços prestados à cultura através de suas publicações jornalísticas. Posteriormente, um dos fãs de Marlene, Jorge José de Lima, também foi reconhecido como apreciador mais antigo da estrela do rádio – ele também atuou como secretário dela.

Em seguida, Werneck assumiu o palco para dar início à sua apresentação, que mesclou sucessos de diversos estilos musicais, mostrando toda sua versatilidade artística. Em determinados momentos, ele recebeu as participações de Heloísa Caetano, que cantou três músicas; Otávio Almeida, que, de improviso, animou a noite com palhinhas; Márcia Calmon, que apresentou um medley de sucessos de Marlene que são apresentados em seus shows; e Blecaute Jr., filho de Blecaute, que também exibiu seu talento em canções variadas. Antes de cantar, ele lembrou os 35 anos sem seu pai, data que, segundo ele, será marcada em um show no Theatro Municipal, assim como o centenário do nascimento dele, em 2019. Em meio ao roteiro, o idealizador do show, Ciro Gallo, apresentou um breve texto destacando a importância de “Carnavália”, que foi revivido no bloco final, quando Werneck encerrou a apresentação com uma sequência de canções daquele repertório.