Há cerca de dez anos, a Associação Girassol – (Movimento Pela Plena Inclusão Social) oferece diversas oficinas gratuitas a deficientes visuais, promovendo um intercâmbio de aprendizado entre os alunos e os professores voluntários. O projeto, instalado em uma sede cedida pelo Centro Lions de Ação Comunitária, capacita os participantes a diversas atividades que não são restritas às paredes da sala: eventualmente, as habilidades são apresentadas ao público em ocasiões diversas, mostrando que eles estão sendo preparados para serem independentes.

Atualmente, são oferecidas aulas como dança de salão; teatro; percussão; inglês; conhecimentos gerais; informática (através de dois métodos: um destinado a cegos, baseado em softwares de leitura da tela e teclado em braile, e outro para pessoas com baixa visão, com a ampliação da tela); coordenação motora e andamento e postura, entre outras. Essa última é lecionada por Talluma De Luca, que busca transmitir aos alunos conhecimentos de etiqueta básica e social. “Tento ensiná-los a usar talheres, a tomar sopa… a experiência com os caldos não dá para fazer sempre por causa da dificuldade em trazer tudo o que é necessário, mas eles também aprendem como se comportar em ocasiões como casamentos e velórios”, aponta.

Apesar do foco em ajudar os deficientes visuais, a professora aponta que muitos deles acreditam que o resto da sociedade também deveria ser treinado para lidar com eles. “As pessoas, ao tentar ajudá-los, os puxam. Muitas acabam gritando, mas eles não são surdos; são cegos”. A voluntária aponta ainda que muitos dos participantes queixam-se ainda de outros aspectos: segundo Talluma, uma aluna reclama frequentemente de ser tratada como criança, apesar de já ser uma mulher de meia-idade. “Perguntam se ela quer que cortem a comida no prato, mas ela quer que a expliquem como fazer”, destaca.

Na ocasião da visita do Jornal Via, o conteúdo da aula fora trocado – excepcionalmente, o grupo aprendia como desfilar em passarela para um evento que acontecerá no dia 7 de julho, no qual todos dançarão quadrilha e terão seus dias de modelos apresentando trajes produzidos pelo aluno Eron Pereira de Lucena, que incrementa peças com materiais recicláveis. Ele afirma ser um dos fundadores da associação, já que participa das aulas há quase 10 anos. “Costumo dizer que a cada mês, nasce uma semente do Girassol”, assinala, referindo-se ao crescimento do grupo – de tão expressivo, algumas aulas, como a de coordenação motora através da dança, tiveram que ser encerradas por falta de um espaço físico adequado para receber todos. Ainda assim, apesar dessa consequência, Eron mostra-se feliz com a grande procura: “Meu objetivo é viver e ver a alegria do povo. Imagina esse pessoal em casa, sem ter para onde ir? Imagina o quanto de exercício todos fazem para vir e depois, para voltar?”.

Portador de baixa visão (ele não sabe ao certo, mas acredita enxergar 2 ou 3% com um dos olhos e nada com o outro), o estilista em potencial lembra que já foi considerado cego, mas recuperou parte de sua capacidade de enxergar através de reabilitação. O pouco que vê já é suficiente para que ele produza peças únicas, confeccionadas, segundo ele, sem objetivos financeiros. “Crio conforme minha vontade. O desfile é para enfeitar as pessoas. Meu interesse é viver feliz, ter o que fazer e criar. Sabe que tem hora que nem me lembro que sou cego? Já estou acostumado. Onde soubermos que há uma pessoa cega com dificuldades, acolhemos aqui no grupo. Alguém como a Edna (outra das alunas), que é cega há só cinco anos, ficaria fazendo o que em casa?”, questiona.

A moça em questão é Edna Maria da Silva, que reconhece o Girassol como um lugar de inclusão. “Aqui, me reintegro totalmente. É um dos melhores programas do tipo. Também encontro socialização e valorização de todos nós”, aponta. Além de frequentar as aulas de Talluma, ela também aprende dança de salão, mas, fora de lá, é adepta de diversas atividades como pilates, sapateado e dança do ventre, além de trabalhar em uma ONG em Campo Grande. “Nunca imaginei que um cego pudesse fazer tudo isso”, reconhece.

Um dos professores de dança de salão da associação é Itamir Ribeiro, que se juntou ao grupo após ver um desfile no Clube dos Advogados e, por ser ensinar essa modalidade há quase 30 anos, decidiu encarar o desafio de ensinar os cegos: “Quando a pessoa enxerga bem, já é difícil, ainda mais se for homem, que costuma ser mais duro. Nos primeiros passos, pego nas mãos para mostrar como é”, descreve, afirmando que o aproveitamento só não é melhor porque como a maioria dos alunos moram longe, eles costumam faltar muito. É de sua autoria a coreografia da quadrilha que será apresentada e que começou a ser ensaiada um mês antes. “No ano passado, nosso presidente (Fernando Gutman) escutou que não eram cegos porque dançavam bem”, lembra, apontando a existência do preconceito de que deficientes visuais não podem dançar.

Uma prova de que esse pensamento é um equívoco é o aluno Cláudio Moreno, que é ator de teatro há 11 anos. Além de aprender dança de salão na associação, também é monitor de dança contemporânea em outro grupo. “Nasci com baixa visão e não acreditava que ficaria cego. Parando para analisar, muitas das possibilidades que tive foram porque sou assim. Esse preconceito tem que ser quebrado”, afirma, garantindo repetir todos os passos em ensaios até ficar perfeito. Para ele, todas as atividades oferecidas pela associação ajudam os alunos de diversas maneiras: “Por não enxergar, isso afeta nossa postura. Nem todos os lugares ensinam como devemos nos posicionar. Os deficientes ficam enclausurados e se fecham por terem tantas barreiras. No teatro, aprendemos a falar bem. As aulas de percussão ensinam equilíbrio e compostura”, enumera.

A aula de percussão é lecionada por Ismael Marques Ferreira, que, por ser cego, é também aluno em outras oficinas. Músico há oito anos na Praça São Salvador, ele recebeu o cargo de ensinar apenas recentemente e apesar da pouca experiência como instrutor, elogia o desempenho dos discípulos. “São pessoas com dificuldades, mas com capacidade de aprender. Ensino pegando na mão delas. Elas aprendem como meu professor me ensinou”, comenta, mostrando conhecer todos

contratempos enfrentadas para quem ele leciona, mas exemplificando ser possível aprender sem enxergar.

“Nenhuma dificuldade é intransponível”, reforça o presidente da associação, Fernando Gutman, que também é professor de teatro no grupo – alguns espetáculos são montados em teatros como Gláucio Gill, em Copacabana, mas outros são levados apenas a escolas e empresas. Formado em psicodrama, ele reconhece que quando o ator tem baixa visão, é mais fácil, mas, ainda assim, seu objetivo é fazer todos aprenderam como olhar para os outros em cena e como interagir. “Alguns objetos em cena são posicionados para eles saberem onde está a plateia”, explica.

Atualmente, afirma administrar o grupo como se fosse uma empresa, apesar de contar com poucos recursos e poucas doações, apesar de ter que manter manutenção constante, principalmente da sala de informática. Os dados bancários para quem deseja ajudar a continuidade da proposta podem ser conferidos na página www.girassolplenainclusao.org.br, mas, segundo Gutman, a principal ajuda necessária no momento é a de mão de obra voluntária: “Procuramos instalar novas oficinas, mas também estamos precisando de mais professores. A de canto disse que não ia continuar na semana passada… no inglês, já há uma turma, mas há demanda para outra”, explica. Os interessados em ocuparem esses cargos podem contactá-lo pelo telefone 99322-1151.