(Foto: Divulgação)

A morte de uma menina em um incêndio, em 2011, mudou a vida do bombeiro Rafael Luz. Marcado pela tragédia, ele decidiu desenvolver um trabalho voltado ao público infantil, ensinando as crianças a prevenirem acidentes que podem ser fatais e a se comportarem em ocorrências como aquela. Surgiu, então, o canal do Youtube “Bombeiro Rafa”, voltado a essa faixa etária. O sucesso foi tão grande que o trabalho foi multiplicado e levado a teatros, mas com a pandemia de COVID-19, essa vertente teve que ser interrompida, gerando incertezas aos profissionais envolvidos, que, no momento, dependem da visualização dos vídeos para arrecadarem dinheiro para seus sustentos diários.

Os vídeos abordam temas como o que fazer caso entre fumaça na casa, primeiros socorros em queimaduras, cuidados em piscinas, choques elétricos, a importância de não passar trotes e muito mais. “Sei que os bombeiros, no Brasil, fazem trabalho de prevenção, mas por alguma razão, isso não está chegando à crianças. Daí, então, nasceu a ideia de fazer de uma maneira que elas entendam, trazendo elas para o mundo da prevenção de maneira lúdica e divertido”, analisa Luz, que é relações públicas do 17º GBM, em Copacabana. A metodologia foi desenvolvida com apoio da pedagoga Janine Hofmeister e através da própria experiência. “Foi muito de erro e acerto, de ‘hoje, isso funcionou, mas isso não’”, aponta o criador da iniciativa, que conta com milhares de seguidores.

Em sua visão, o objetivo só foi alcançado quando surgiu o primeiro personagem interagindo com ele, o cachorro Torrada. “Ele é o alter-ego da criança, que precisava olhar e se enxergar. Ela não pode se enxergar no bombeiro porque este é o heroi, é quem dá a dica de segurança, quem resolve… A criança tem que ter ele como exemplo.  Aí surgiu o Torrada. Ele se coloca na situação de perigo, como a criança se coloca muitas vezes; faz bagunça; é levado…”, analisa.

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Atualmente, outros herois complementam a turma como o Doutor Hidro, o hidrante gênio e Vel, a mangueira. “Ela é o elemento mais corajoso do pelotão. Ela fala de empoderamento feminino; conversa com as meninas; mostra que elas podem ser bombeiras, se quiserem”, conta Luz, que continua: “A gente também tem o Stênio, um extintor de incêndio que dialoga com crianças com necessidades específicas. Ele não tem braços e pernas e diz que todo mundo pode ser herói, independente de como se apresente para mundo. Costumo dizer que lá a gente não enxerga nada que, aos olhos da sociedade, possa ser limitante”, avalia. Há ainda os antagonistas Fumaça, o gato que articula planos maléficos para tomar conta do quartel general; e Bizonho, um cachorro bobo e bonzinho que ajuda Fumaça.

O bombeiro, pai de uma menina e um bebê pequeno, afirma ser cuidadoso com o conteúdo ensinado, tornando seu trabalho seguro para as crianças. “Eu sou pai. Tenho muito receio do que minha filha vê na internet. Não sei o que há em alguns canais, se os vídeos são todos seguros…  Uma preocupação muito grande que tenho com o Bombeiro Rafa é que os pais possam ficar tranquilos porque tudo ali é útil, educativo e divertido”. Essa sua preocupação tem resultado em boas respostas por parte dos responsáveis: “Recebo esse feedback de que há muita besteira na internet, mas que eles gostam muito do que estou produzindo”, comemora, apontando exemplos: “Há muitas mensagens nas redes sociais (Instagram e Facebook) de pais dizendo que seus filhos estão assistindo; de mãe que estavam na cozinha e o filho disse ‘cuidado com a faca!’ ou ‘O Bombeiro Rafa falou que não pode brincar com fogo, eu vi que o Torrada se queimou’…  As crianças conseguem levar isso para as realidades delas. Essa confiança que a população já tem no trabalho dos bombeiros, como um todo, é bastante refletida no Bombeiro Rafa”, ressalta.

(Foto: Divulgação)

No fim de semana anterior ao decreto que determinou o isolamento social no Rio de Janeiro, o grupo encerrou uma temporada de sucesso no Teatro Vanucci. Estavam agendadas apresentações nos teatros Bangu, em abril; e Miguel Falabella, em maio. O grupo seguiria para São Paulo em junho; Niterói, em junho e era prevista uma turnê pelo Nordeste, em outubro, mas a pandemia de COVID-19 interrompeu as apresentações, que seguem sem data para acontecer. “Todo mundo ficou parado. Eu sou funcionário do Estado, não vivo do Bombeiro Rafa, mas as outras pessoas vivem do teatro: as produtoras, o contrarregra, a camareira, o técnico de som, o técnico de luz, o microfonista, os atores…  Elas não têm perspectiva de voltar a ganhar nada. Eles haviam negado outros trabalhos para dar continuidade a este”, lamenta, explicando sua alternativa para ajudar seus parceiros:

“No Youtube, você pode monetizar seu canal. Quando voce vai ver um vídeo e tel um anúncio, é porque o dono daquele canal autorizou a veiculação ali. Isso gera retorno financeiro para o youtuber, só que existem regras. Tem que ter uma quantidade mínima de inscritos no canal e juntar, pelo menos, U$100. Quanto mais visualizações e mais inscritos, mais dinheiro entra. Não vendo nem peço dinheiro: só peço que elas vejam os vídeos e se inscevam no canal. Quando eu conseguir resgatar a quantia, isso vai ser convertido para as pessoas da equipe. Óbvio que U$100 devem dar uns U$500 e isso não muda a vida de ninguém, mas compra cinco cestas básicas, um biscoito para elas darem aos filhos, paga uma conta de luz que está atrasada…  Foi a maneira que encontrei de as crianças assistirem o conteúdo, ficarem mais seguras e ajudar o pessoal que confiou no meu trabalho. É como a gente diz no Corpo de Bombeiros: ninguém fica para trás”, finaliza.