Há 24 anos, o Cine Ricamar exibia sua última sessão. Diferente de tantas outras salas na cidade, esta manteve seu viés cultural com a inauguração da Sala Baden Powell, voltada para espetáculos teatrais e musicais. A casa, mantida pela Secretaria Municipal de Cultura, exibe vasta programação, mas desde abril o público saudoso da telona pode reviver aquele período através do Cineclube Ricamar, que funciona na casa às segundas-feiras a preços populares.

O espaço está sob residência artística do músico João Donato desde fevereiro de 2017 e apesar de o foco ser a música, um dos curadores do cineclube, Roberval Duarte, aponta que partiu da esposa de Donato, a gestora da casa Ivone Belem, levantar a importância desse diálogo entre os filmes e as demais artes apresentadas no local, relembrando do passado do espaço, erguido com o objetivo de exibir películas e encerrou seus 36 anos de atividade sem grande alarde: em 9 de setembro de 1994, os jornais anunciavam, pela última vez, a programação da casa, que naquela data exibia o desenho “Rei Leão” e o faroeste “Wyatt Earp”, sem nenhuma menção ao fechamento do local.

Antes mesmo da inauguração da Sala Baden Powell, o então prefeito Luiz Paulo Conde planejava separar a enorme sala em quatro menores, dedicadas ao cinema e a teatros infantis – essa redução era planejada desde que o Cine Ricamar ainda funcionava e era apontada como uma alternativa para tentar salvar a casa em 1990, mas os planos foram inviabilizados pelo Plano Collor. Atualmente, a capacidade do espaço é de 469 lugares, o que faria o Cineclube Ricamar a segunda maior sala da cidade, atrás apenas do Odeon, para 550 poltronas – para fins comparativos, a maior sala de um cinema situado em um shopping na Praia de Botafogo recebe até 290. Ainda assim, o curador, que trabalha em parceria com Frederico Cardoso e Rodrigo Bouillet e em associação com as ONGs Mundo Brasil, Cidadela e Terra Brasilis, reconhece que o espaço não é mais uma sala destinada ao trabalho cinematográfico, além de já não atrair mais o público como em seus tempos áureos – nas sessões com convidados, a ocupação é de, em média, 60 pessoas.

A cabine de projeção de 1958 ainda está lá, mas sem o projetor – o equipamento atual, assim como a tela, foram obtidos como uma parceria pelo uso das salas alternativas da casa, com capacidade inferior à principal. Nelas, acontecem oficinas teatrais, ensaios e até apresentações, já que uma foi transformada em uma sala multiuso apta para receber o público. Os artistas, muitas vezes iniciantes, eventualmente se apresentam em troca de artigos para uso na casa, o que possibilitou a montagem do cineclube.

As sessões ocorrem em dias e horários alternativos (às 14, à 16h e às 18h) devido à disponibilidade da ocupação e os valores variam conforme os horários: as exibições diurnas custam R$4 e as noturnas, R$8. Não há meia entrada, já que essa verba é necessária para custear o projeto, que funciona sem patrocínio. “O cineclube funciona quase que de forma artesanal”, aponta Duarte, comentando que as produções norte-americanas atrapalham a exibição de filmes nacionais no circuito comercial, mas que estes trabalhos são encaixados em propostas como a que dirige. “O mundo mudou. Hoje, todos veem filmes. O (cineasta) Jorge Furtado falava que o projeto neoliberal do século XXI seria o homem e a tela. Ir ao cinema virou algo social. É estar com outras pessoas e depois, debater sobre o filme”, comenta o curador, antes de falar sobre a programação exibida: “Não são filmes que podem ser vistos no Netflix. Aqui, promovemos interface com outros diálogos da arte”.

O público também tem participação na seleção do conteúdo. Através de um caderno, pode-se sugerir o conteúdo das futuras sessões – “Persona”, de Ingmar Bergman, foi um dos pedidos acatados. O centenário do cineasta foi lembrado em julho, quando a programação passou a explorar a relação entre o cinema e o teatro. Em outra semana, os filmes, brasileiros, ressignificaram ou reinterpretaram textos ou montagens teatrais. “Aqui é um espaço que já foi cinema e que hoje é muito caracterizado pela música. A proposta é abarcar o maior número de expressões artísticas”, observa o gestor de artes cênicas da sala, Sérgio Medeiros, chamando a atenção para todas as possibilidades oferecidas pela Sala Baden Powell.

Para Duarte, a sala, atuando com tantas vertentes, é um antídoto ao empobrecimento cultural sofrido pelo Rio de Janeiro: “Ela leva o nome do Baden Powell, tem residência do João Donato, está há uma quadra da praia e perto do metrô, em frente ao Copacabana Palace…”, diz, enumerando alguns dos motivos pelos quais ele acredita que o espaço atrai o público. Ele também aponta a existência de poucos espaços como esse na cidade, citando como exemplos o Centro Cultural Banco do Brasil e a Caixa Cultural – esta última, em meio a rumores sobre o suposto fim das atividades, recebe destaque em sua fala: “Enquanto um espaço como aquele, gratuito e mantido por uma grande empresa fecha, esse aqui, mantido pela Prefeitura, resiste”. Medeiros complementa citando que a casa não apenas abre suas portas para espetáculos artísticos, mas também os produz: até os cenários e os figurinos de algumas montagens são fabricados ali.

A programação do Cineclube Ricamar pode ser conferido em folhetos distribuídos no próprio endereço, no Facebook do espaço (www.facebook.com/CineclubeRicamar) e nos monitores dispostos no hall do local. Os ingressos podem ser adquiridos na própria bilheteria.