Prestes a completar seu primeiro centenário, a Colônia de Pescadores Z-13, no Posto 6, recebeu a cessão pelo direito legal da área. O documento foi oficialmente entregue na manhã do dia 28 de julho após um longo empasse e através dele, os profissionais, que ocupam o mesmo espaço desde antes da incorporação de Copacabana ao município do Rio de Janeiro, tornam-se aptos a buscar melhorias para seus trabalhos, um dos últimos redutos de pesca artesanal na cidade.

    O documento foi entregue pelo superintendente Gilberto Alencar Belo, da Superintendência Federal de Agricultura, Pecuária e Abastecimento do Rio de Janeiro, à presidente Kátia Janine, em uma cerimônia simbólica no próprio local. “Quando assumi, ela me procurou e falou da ansiedade. A colônia está, há muitos anos, atendendo a região. Nada mais justo. Avisamos a ela (que conseguimos) na semana passada. Não estou fazendo nada além do previsto em lei. Espero que, com esse termo, a colônia possa ter uma gestão mais certa, já que ele proporciona futuros investimentos”, analisa Belo.

    Até então, a colônia possuía apenas autorizações temporárias para atuar no local, o que fora concedido pela primeira vez em 1982. A renovação era necessária há cada dois anos, o que aconteceu pela última vez em 2014. Em 2016, quando seria solicitada novamente, a então presidente Pedro Marins morreu, o que atrasou os trâmites e, posteriormente, levou Kátia a buscar a cessão definitiva. “Os projetos não estavam andando por falta do documento”, analisa a gestora, que aponta que, atualmente, a única fonte de renda fixa da instituição é o entreposto que administra a peixaria e paga aluguel. Uma das ideias é construir uma cozinha para os pescadores comercializarem seus produtos prontos para o consumo: “Quando tínhamos uma churrasqueira, os estrangeiros pediam isso. Em qualquer lugar de beira de praia tem peixe frito. Os quiosques não fazem. O Clube Marimbás irá nos ajudar com telhado. Parece que o hotel (Fairmont) vai ajudar também. Vamos aguardar”, comenta. Outra ideia é modernizar o escritório, tornando-o apto a receber, de forma adequada, os visitantes que o procuram interessados em conhecer a história do grupo, mostrada em painéis no local.

     A apresentação desse passado também é do interesse do tesoureiro Manoel Rebouças, que idealiza um portal de notícias com estas e outras informações, como o dia a dia da colônia e informações sobre as pesquisas de fauna e flora da região desenvolvidas em parceria com a Z-13. A falta do documento contribuía muito para a colônia desaparecer. Essa garantia desencalha empasses burocráticos exigidos pelo estado e pelo município e nos dá melhores condições para obras. É um milagre os pescadores estarem aqui até hoje. O termo abre muitas portas para investimentos”.

     A presença dos pescadores, sempre ocupando o mesmo canto da praia, confundem-se com a história de Copacabana. Foram eles que, ainda em 1858, repassaram a informação de que havia duas baleias encalhadas no então distante areal, o que atraiu as atenções da população e até do imperador D. Pedro II, que esteve no local acompanhado de suas filhas, as princesas Isabel e Leopoldina, para avistar os animais. A partir de então, os cariocas “descobriram” a região fora dos limites do município, passando a frequentar cada vez mais a igrejinha que existia no local do Forte de Copacabana. Ao longo do tempo, os pescadores daquele ponto tornaram-se notícia por suas pescarias beneficentes, como em 1895, quando doaram metade da arrecadação às viúvas da explosão de uma das barcas que fazia o percurso Rio-Niterói, acidente este que deixou 120 vítimas, e também pelas festivas, como as dedicadas a Nossa Senhora de Copacabana ou a São Pedro, o padroeiro dos pescadores e até os dias atuais lembrado em celebrações no mês de junho. O trabalho dos pescadores também salvou muitas vidas, visto que cabia a eles fazerem os salvamentos em Copacabana – o serviço de salvamento só seria criado em 1917 e exatamente devido ao grande índice de ocorrências nesta localidade.

   A colônia foi fundada pouco tempo depois disso e há algumas incertezas em relação à sua origem. Um livro indica a presença de associados ainda em 1921, apesar de ela ter sido inaugurada, oficialmente, em 29 de junho de 1923, como Colônia dos Pescadores Z-6 – segundo Kátia, naquela época, a sede, então na Muzema, pegou fogo em pouco tempo, o que destruiu os documentos desse momento inicial. Em 1932, a parte administrativa da Z-6 foi transferida para Olaria, mas, passados três anos, já tinha seu nome associado a Copacabana, onde, desde abril de 1923, funcionava a Z-14 no mesmo lugar e cuja construção da estrutura foi autorizada pelo decreto 4.793 do ano seguinte. Esta foi transformada em Z-9 em 1931, quando a Z-14 foi transferida para Saquarema. O contexto da integração entre a Z-9 e a Z-6 é desconhecido, mas a Z-6 persistiu até as obras de alargamento da Avenida Atlântica, que afastaram a beira-mar para alguns metros para frente e, pela primeira vez, tiraram os pescadores de sua localização original, mas os manteve no mesmo canto da praia. Com o fim do aterro, a Z-13 (que, até então, ficava em Botafogo) finalmente foi inaugurada, com esta nomenclatura, em 4 de julho de 1975, mantendo a tradição que, naquela época, já completava meio século de registros.