Cartaz da inauguração do Cine Rian

A década de 1940 foi marcada pela transformação das salas de cinema. Na medida em que a concorrência aumentava, tornou-se necessário investir em melhorias tecnologias para atrair o público, que cada vez mais ansiava pela modernidade. O Metro Copacabana trouxe muitas inovações, mas, no contexto do crescimento da Empresa Luiz Severiano Ribeiro, responsável pelos cinemas Vitória, São Luiz e Carioca, esta estabeleceu como meta a inauguração de um espaço nesses moldes em cada bairro, o que fez Copacabana ser contemplado com o Cine Rian. Inaugurado em 1942 com a promessa de exibir os principais sucessos de cada temporada, exibiu, em sua sessão inaugural, “Aconteceu Em Havana”, com Carmen Miranda e o Bando da Lua, Alice Faye, John Payne e Cesar Romero.

O cinema funcionou no edifício homônimo erguido pela caricaturista Nair de Teffé, viúva do ex-presidente Hermes da Fonseca, com a herança deixada por seu pai, o Barão de Teffé, morto em 1931. Nomeado com seu pseudônimo enquanto profissional – Rian, simbolizando seu nome de trás para frente -, o prédio foi vendido por 300 contos de réis em 1940 e a nomenclatura não apenas foi mantida como também foi atribuída ao espaço de entretenimento, que seguiu homenageando a antiga dona do espaço.

Imediatamente, o espaço tornou-se uma referência na região, sendo usado para identificar a localização dos lançamentos imobiliários e dos novos estabelecimentos, como as galerias de arte e, posteriormente, as casas noturnas, como a Moulin Rougue, de entretenimento adulto. Entretanto, a estreia de “No Balanço das Horas”, em 1956, fez o Rian ficar marcado como uma das porta de entrada do rock no Brasil, gênero musical associado, naquele momento, à rebeldia extrema. Nas exibiçõs em São Paulo, tornou-se ocasional o mau comportamento do público, composto majoritariamente de menores de idade. Eles aproveitavam aquele grito de liberdade para mostrar um comportamento fora do padrão, como aquele ritmo novo representado ali pelo sucesso “Rock Around The Clock”. Ao invés do silêncio comum a todos os cinemas, os jovens que iam assistir a este filme dançavam pelas salas, gritavam, tocavam instrumentos musicais. Todos queriam ser livres para fazerem o que quiserem, pensamento supostamente difundido pelos produtores do filme para reforçar o marketing em torno deste conceito.

Quando as exibições começaram no Rio, não foi diferente, tanto que, na sessão de estreia, havia policiais tanto na bilheteria quanto no interior da sala, onde fotógrafos aguardavam o início da confusão sentados no balcão. Quando a música começou a tocar, o esperado aconteceu: o público foi à loucura. Enquanto as danças ocorriam nos corredores e nos palcos, a Polícia agia para tentar controlar o público e garantir a tranquilidade na sessão, em vão: alguns dos adolescentes explodiram bombas no interior da sala, levando ao cancelamento das sessões seguintes. A suspensão resultou em uma baderna generalizada, com milhares de pessoas dançando no meio da rua e socando os carros que passavam, o que levou ao fechamento do tráfego da Avenida Atlântica e à repressão também do lado de fora. Apesar do caos, o filme voltou a ser exibido à noite, sem transtornos, e continuou em cartaz.

Com o tempo, o Cine Rian se firmou como uma das salas mais importantes da cidade. No 400º aniversário da cidade do Rio de Janeiro, foi o foi selecionado para sediar o Festival Internacional do Filme, que comemorava a data. Ao todo, 22 películas inéditas no Brasil foram exibidas, representando 18 países. As celebrações incluiriam até um show dos Beatles, que não aconteceu. Em 1966, outro evento firmou o Rian como palco de acontecimentos: dessa vez, foi a I Conferência do Cinema Brasileiro, que reuniu as principais personalidades das produções nacionais.

Em meio ao sucesso, um grande incêndio quase encerrou as atividades do cinema. Após a exibição de “007 Contra a Pistola de Ouro”, em 1975 um curto circuito no sistema de refrigeração fez o local pegar fogo. A tela, o teto e as poltronas foram queimados e os danos foram tão grandes que foram necessários dois anos e nove meses para a sala voltar a exibir filmes. A reabertura, com “O Outro Lado da Meia Noite”, surpreendeu: desde antes do ocorrido, comentários variados davam conta que o prédio, cujos moradores estavam sendo convidados a se mudar, seria demolido para dar lugar a outro empreendimento, mas o retorno do Rian confirmou o interesse da empresa Luiz Severiano Ribeiro em manter a sala, apontada como a mais lucrativa da rede.

Apesar dos êxitos, o cinema resistiu por apenas mais seis anos. O encerramento era previsto, ao menos, desde o começo de 1983, quando notícias já davam conta de que, talvez, em breve o Edifício Rian seria demolido devido à especulação imobiliária. A ideia de erguer ali um hotel de luxo era anterior ao incêndio, mas a empresa insistiu no espaço de entretenimento, que foi todo reformado, ainda que todos os apartamentos do prédio já estivessem desocupados desde anets do ocorrido. Por este motivo, o funcionamento da sala não era suficiente para manter a rentabilidade do edifício. Com a demolição, foi anunciado um lançamento residencial no mesmo terreno, o que não se concretizou: por fim, foi erguido um apart-hotel, posteriormente transformado em um hotel.

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