Inauguração do Roxy (Foto: Jornal Beira Mar)

Após relembrar o antigo Cinema Ritz, a coluna homenageia um dos únicos que ainda existem no bairro: o Roxy. Inaugurado em 3 de setembro de 1938, desde o princípio era um espaço ambicioso: seu nome fazia referencia à sala homônima, em Nova Iorque, que contava com aproximadamente 6 mil lugares, o que fazia dele um dos maiores do mundo. Não a toa, o Roxy brasileiro era o maior do Brasil em seus anos iniciais e seguiu como o maior de Copacabana até a reforma que o dividiu em três, em 1991. Sua cúpula, com 36,2m de diâmetro, também era um recorde mundial. A enorme tela, com 15m de largura por 6,5m de altura, impressionava. Tudo ali era grandioso, inclusive as dimensões do próprio espaço, que, em sua parte mais larga, somava 40m de distância entre uma parede e a outra da sala de projeção.

A decoração, luxuosa e assinada pelo arquiteto Raphael Galvão, atraía elogios. Os balcões eram adornados com mármore e espelhos coloridos, mas era o enorme teto que chamava a atenção, enfeitado com sete aneis que, iluminados, reproduziam as cores do arco-íris. A curiosidade em conhecer o local era tão grande que, na época, a mídia noticiou que aproximadamente 3 mil pessoas assistiram a sessão inaugural – a capacidade era de cerca de 1,7 mil lugares, mas foi inflada pelas inúmeras crianças que estavam presentes no colo de seus responsáveis e nas 800 que ficaram de pé na área atrás da última fileira de poltronas. Em outros momentos, a lotação foi novamente ultrapassadas, como no II Festival Internaciolnal do Filme, em 1969, quando estima-se que havia o dobro de pessoas em relação ao número de poltronas.

Para garantir a segurança da multidão, foram projetadas portas laterais com 6m de largura, além de saídas de emergência, que permitiriam o rápido escoamento da sala. Esse planejamento salvou vidas. No último dia de 1945, um grave incidente ficou marcado na história do cinema. Antes de cada filme, era comum a exibição de um suplemento com propagandas nacionais e naquele dia 31 de dezembro, ele foi dedicado à eleição presidencial daquele ano, que elegeu Eurico Gaspar Dutra. Após imagens do novo presidente serem mostradas, o material também exibiu cenas do candidato Eduardo Gomes, que ficara em segundo, chegando ao seu local de votação. Após demonstrações de apoio a Gomes, estrondos geraram pânico no interior da sala. Os espectadores, inicialmente, pensaram se tratar de bombas em decorrência da comemoração do réveillon, mas posteriormente, foi constatado que o som era de tiros. Um espectador foi atingido no pescoço, sem gravidade, e uma senhora, espancada pelos radicais.

Em outro momento, já em 1961, um incêndio, acompanhado de pequenas explosões, atingiu a caixa de força da sala, lotada por aproximadamente 1,8 mil espectadores. Dessa vez, visando prevenir caos e correria, o que poderia causar mortes, a gerência optou por, inicialmente, omitir o incidente do público presente. O filme foi interrompido por alegados motivos de força maior e, sem maiores detalhes, a multidão foi convidada a deixar o espaço, sob a garantia de que, mais tarde, poderia retornar. Dessa forma, quase metade do público foi embora de forma voluntária e rápida, visto que as saídas de emergência estavam abertas. Esse esvaziamento garantiu a saída segura dos demais, já informados sobre a ocorrência, instantes depois, o que resultou na segurança de todos. Não houve danos à parte interna do cinema.

Desde sua inauguração, o Roxy era a sala favorita para as principais estreias do cinema mundial. Se houvesse outro filme em cartaz ali, ele era transferido para outro endereço, de forma a garantir que a sessão inaugural dos mais famosos sempre acontecessem ali. Alguns eram tão concorridos que o tráfego daquele trecho da Av. N. Sª de Copacabana chegava a ser alterado, com desvio dos ônibus para a Avenida Atlãntica. Na de “Satchmo The Great”, autobiografia do cantor e instrumentista Louis Armstrong lançada em 1957, o próprio protagonista esteve presente, imediatamente após sua apresentação no Maracanãzinho. Já na de “O Exorcista” (1974), o público estava tão afoito que a fila para comprar ingressos teve início três horas antes da abertura da bilheteria e, na entrada, a correria pelos melhores lugares foi tanta que a confusão resultou na quebra de três vidraças – o número, provavelmente, só não foi maior por causa da ação das quatro guarnições de radiopatrulha chamadas para controlar o público.

O sucesso também era refletido nos espetáculos de variedade que ocorriam entre as escadas laterais, como o grande show que ocorreu em 1949, levando ao local Orlando Silva, Grande Otelo e outros artistas muito populares. Na década de 1960, a programação se popularizou com o chamado “The Midnight Show”, apresentado após a última sessão, aos sábados. Nomes diversos se apresentaram naquele cinema, favorito dos casais, o que fazia as maiores bilheterias serem dos filmes românticos. Ainda assim, coube ao Roxy servir de experimento para o primeiro filme tridimensional da Fox, em 1953. A empreitada era tão aguardada que o alto escalão da 20th Century Fox veio ao Brasil especialmente para a ocasião.

Aos poucos, a modernização chegou ao cinema, que, em um primeiro momento, sequer contava com sistema de climatização – os primeiros ventiladores foram instalados poucos anos após a inauguração e, posteriormente, substituídos por aparelhos de ar condicionado. Uma grande obra ocorreu no interior da sala de projeção em 1980, interditando o primeiro pavimento inteiro. Pouco depois, já no contexto do fechamento das outrass grandes salas do bairro, começou a ser debatida a divisão do Roxy. Originalmente, eram previstas duas salas. A divisão foi concretizada em 1991, quando o antigo salão foi transformado em três espaços. Passados 14 anos, uma nova intervenção fez o cinema, então com 66 anos de funcionamento, tornar-se acessível a deficientes físicos e pessoas com dificuldades de locomoção.

Até os dias atuais, o Roxy segue sendo uma dos principais espaços de lazer de Copacabana. Junto com o Joia, que será abordado em edições futuras, foi a único que resistiu ao tempo. Tem lembranças dele? Divida com a gente! Mande suas recordações para postoseis@postoseis.com.br ou do Whatsapp (21) 98415-3414.