A edição 2020 da conferência anual do Clean Up The World foi online. Desta vez, os palestrantes foram convidados para falar sobre as necessidades urgentes do meio ambiente e em suas falas, foi destacada a necessidade do ordenamento urbano responsável como primordial para frear os danos. Questões como a pandemia de COVID-19, apontada como uma decorrência da degradação ambiental e a destinação correta dos resíduos também foram debatidas. O vídeo com as participações está disponível em www.youtube.com/watch?v=PopPvMv7RwA.

Os plásticos nos oceanos foram o primeiro tema levantado. Para o diretor geral da seção América Latina da Fundação Plastic Oceans, Mark Minneboo, o advento da tecnologia contribui para a piora dessa situação, visto que os produtos são criados sem que suas destinações após o fim do uso sejam idealizadas – em sua visão, a falta de encaminhamento correto dos materiais é o que causa o problema, não o plástico em si, apontado por ele como um material fantástico por ser quase indestrutível, mesmo razão que faria dele terrível.

“Temos que repensar nosso relacionamento com ele”, frisou, chamando a atenção para não haver a desintegração e sim a quebra em incontáveis pedaços microscópicos, chamados microplásticos, impossíveis de limpar e que terminam na cadeia alimentar. Em paralelo, chamou a atenção para o fato de, mesmo com ações de conscientização, estimativas mostram que, entre 2014 e 2050, a produção deve triplicar, consumindo 20% de todo o petróleo do mundo, matéria-prima que não é renovável. Ainda assim, destacou não ser tão simples eliminar esse composto de algumas indústrias, como a de saúde, evidenciando a necessidade de a sociedade discutir melhor o tema ao invés de apenas lutar pela substituição total.

O segundo palestrante foi o professor associado do departamento de engenharia sanitária e do meio ambiente da UERJ, Adacto Ottoni, que explicou os impactos do aquecimento global. “O grande problema são as mudanças climáticas. Os ventos influenciados pelos gradientes térmicos podem influenciar as nuvens e as correntes marítimas”. Ele associou esse fenômeno ao crescimento populacional pós-Revolução Industrial, quando o homem começou a explorar mais os recursos naturais para produzir bens de consumo que eram descartados em paralelo à redução das florestas, permitindo a expansão das cidades. “A causa de todas as pandemias é o desmatamento. Elas acontecem a partir dos animais silvestres ‘empurrados’ para as áreas urbanas. O COVID está nos mostrando que toda a sociedade é prejudicada com isso”, observou, continuando: “Outra lição é: como o homem ficou ‘escondido’ em casa, a natureza apareceu nas ruas. Ela está viva. Se deixarmos de degradar por alguns meses, ela já responde”. O especialista destacou que o incremento do home office foi benéfico neste aspecto, já que reduziu o trânsito e, consequentemente, os lançamentos de carbono e hidrocarboneto na atmosfera.

Ottoni ainda apontou as favelas como um problema ambiental: “A pandemia mostrou que os políticos têm que parar de fechar os olhos para ocupações irregulares com valões de esgoto, lixo disperso e habitações sem condições mínimas. O abastecimento de água foi deficitário, o que aumentou a ampliação da doença e das mortes. Toda a sociedade é prejudicada. O homem, por imposição, gerou grande benefício ambiental. Se houver conscientização, teremos uma revolução”, palpitou, lembrando da crise de abastecimento provocada pela presença de geosmina na água: “Ali, 80% das indústrias fiscalizadas no Polo Industrial de Queimados porque a poluição corria solta”, lembrou, defendendo o licenciamento ambiental responsável acompanhado de fiscalização: “Muitas empresas preferem continuar poluindo e pagando multas”.

Outra questão apontada foi a gestão responsável dos resíduos, já que não há mais espaço para aterros. “O de Seropédica só tem mais 10 anos com capacidade. O de Gramacho (desativado em 2012), abandonado, e o entorno, sem valor econômico. Poderiam implementar ali um grande parque de reaproveitamento de resíduos, com uma usina para os da construção civil, outra de triagem, mais uma de compostagem… Poderiam botar digestores para pegar o lodo do esgoto, reaproveitar eletro-eletrônicos… Geraria mercado secundário, basta a Prefeitura fazer coleta seletiva. Poderiam fazer habitação para os próprios catadores. Daria moradoa e emprego a eles, que se transformariam em agentes ambientais. O lixo anda 90km até Seropédica e poderia ser usado aqui ao lado”.

O tema também foi levantado pelo presidente do Campo Olímpico de Golf, Carlos Favoretto, que citou o marco regulatório do saneamento, aprovado pelo Senado em junho “A compensação dos danos irreversíveis tem que ser bastante ampla. O prazo para acabar com lixões ou aterros controlados é até 2025. Não é possível que, em pleno século XXI, ainda existam cidades sem gestão adequadas dos seus resíduos. Segundo o IBGE, metade não faz. É um grave problema do Brasil inteiro”. Ele fez referência à ideia de Ottoni, mencionando que os custos do transporte rodoviário dos dejetos até Seropédica são maiores que os necessários para implantar a unidade, o que ainda geraria matéria-prima”.

Sua palestra foi focada, principalmente, no tratamento das águas cinzas (oriundas por mictórios, chuveiros, máquinas de lavar roupa e pias): “Elas não tem o potencial agressivo das geradas por bacias sanitárias e o tratamento é mais simples. Com tratamento adequado, pode-se economizar quase 60% da conta de água. Elas podem ser reaproveitadas em descargas ou para aguar jardins ou lavar pisos. A tecnologia baratetou bastante esse processo, não é mais tão caro. O mais caro é não fazer”, sugeriu, apontando a poluição das bacias hidrográficas dos principais centros urbanos. “Se analisar a Baía de Guanabara ou as lagoas da Barra, estão completamente poluídas, mas 99,9% do esgoto doméstico é água. A gente não consegue tratar 0,1%?”.
Favoretto falou ainda do crescimento urbano descontrolado, tema que já havia sido levantado por Ottoni: “O Código de Preservação Ambiental que fala das áreas de preservação permanente, que, nos centros urbanos, estão ocupados de forma desordenada: as faixas marginais de proteção, os topos dos morros, os declives. Esse tipo de ocupação está em desacordo com os critérios ambientais. Provocam desmatamento, lançamento de resíduos e esgoto a céu aberto, instabilidade geológica e geotécnica. Não é apenas nas comunidades, os ricos também fazem. A partir do momento que não obedecem o índice de permeabilidade do solo e a rede do tratamento do esgoto, causa impactos e quem sente? Nós, seres humanos, através de doenças, pandemias e muito mais”.

A palestra seguida foi realizada pelo professor associado e coordenador do Instituto Virtual de Mudanças Globais da Coppe-UFRJ, Marcos Freitas, que retomou o assunto do aquecimento global. “Já estamos com 1,1ºC a mais que a média em relação ao período da Revolução Industrial”. Ele lembrou que, quando fez seu doutorado, em 1994, abordou o impacto do tema na Amazônia e não foi bem aceito pela banca, que o acusou de produzir um trabalho para “agradar gringo”, mostrando o quanto as discussões evoluíram desde então.
“Os gases do efeito estufa estão aumentando na atmosfera. Isso vem sendo constatado desde 1950. Há uma correlação muito grande entre as temperaturas elevadas e a subida do nível do mar, o que traz muita dificuldade para trabalhar com recursos hídricos. Alguns modelos apontam que um mesmo lugar vai chover mais ao mesmo tempo que vai chover menos”.

Freitas ressaltou ainda que há metas para levar abastecimento e saneamento básico à população até 2030, mas que não foram traçados prazos relacionadas aos resíduos sólidos, apontados por ele como outra prioridade. Após abordar este tema, também apontou benefícios ambientais decorrentes das restrições de deslocamento devido à pandemia, tendência que ele acredita que deve se manter após o retorno da normalidade, com restrições:

“Vimos que dá para fazer reuniões, como esta, sem deslocamentos. Nesse período do COVID, participei de um monte de reuniões sem pegar aviões. Ganhamos horas nisso. A indústria do petróleo está sofrendo um bocado, já que diminuiu o fluxo, mas a gente vai ter que encarar essa situação de possibilidade de redução de alguns consumos que eram exagerados. Não falo os obrigatórios, como alimentos, ensino e saúde. Os que têm fihos em idade escolar estão vendo a dificuldade do ensino caseiro. Para a gente que está numa universidade, estar longe dos alunos é muito ruim. Não dá para fazer ensino de alto nível a distância, ainda mais quem está envolvido em pesquisa de alta complexidade”, defendeu. Em sua visão, os conceitos de cidade também deverão ser revistos: “A população brasileira vive em 1% do território, enquanto 20% está destinado ao gado. A maior parte do desmatamento da Amazônia se dá pelo avanço da pecuária e depois, da soja, que é para alimentar o boi ou o porco. Precisamos morar menos concentrados, o que será possível. Essas tecnologias de informação estão evoluindo com muita rapidez”.

Na contramão de quem apontou os benefícios ambientais do período de isolamento social, o responsável pela empresa de limpeza Joni-King, Paulo Furtado, apontou o crescimento de alguns problemas. “Em Wuhan, onde houve o epicentro do COVID na China, foi registrado aumento de 4x no lixo hospitalar. Nos EUA, 4.677 trabalhadores de coleta de lixo estiveram em risco por causa do descarte errado. Os condomínios comerciais são obrigados a controlar, mas os residências, não. Quantas máscaras estão sendo descartadas de forma correta? Quantos protetores faciais? Na China, são 200 toneladas de lixo hospitalar por dia. Muitas das pessoas moram em casas. A gente tinha que ter uma coleta seletiva também com penalidade de multa para as residências. O mar menos poluído e o céu aparecendo em lugares poluídos tampam o sol com a peneira”, finalizou.