Foto créditos: Shirley Ortiz

A copacabanense Julia Klein, apesar da pouca idade, coleciona habilidades que surpreendem quem conhece seu currículo. Com 15 anos recém-completados, a moça destaca-se tocando violino, patinando, atuando e também desenvolvendo causas sociais.

Desde bebê, Julia já demonstrava interesse pelas artes. Ao ser levada pela mãe, Ingrid Klein, a apresentações de balé, manifestava apreço pelo trabalho dos músicos: “Eu era louca pela orquestra, faltava me jogar no fosso”, diz a adolescente, que, aos dois anos, foi presenteada com um violão de brinquedo, que era usado de outra forma: “Ela pegava um lápis e imitava um violinista”, lembra Ingrid, que foi aconselhada pelo instrumentista Léo Ortiz a procurar uma professora para a menina, ainda naquela idade. Como os custos eram altos demais para a mãe arcar, ela propôs trocar os ensinamentos para a filha por trabalhos de designer, o que pagou as aulas durante nove anos, período após o qual Julia integrou a “Orquestra Villa-Lobos e As Crianças”. Após este grupo, ingressou em outras como “Violões do Forte”, “Sinfônica Juvenil Cariocas”, entre outras.

Atualmente, a artista tem se destacado também por se apresentar com seu instrumento favorito (além dele, ela também toca violão, guitarra, teclado, percussão e ainda canta) em cima de patins, outra paixão sua também desde os dois anos. O gosto pelas rodinhas cresceu em Copacabana: há dez anos, ela integra a Gangue dos Patins, que se concentra nos fins de semana e nos feriados no Lido, em um posto de gasolina fechado durante os horários da área de lazer na orla. Por ser tão habilidosa em ambas as práticas, é a única no mundo a conciliar as duas habilidades, o que começou por acaso: ao sair de uma apresentação, foi direto para um campeonato e teve a ideia da combinação assim que chegou, que lhe rendeu um segundo lugar no torneio.

Atualmente, Julia ainda divide seu tempo entre a a vida escolar; as aulas de violino, de balé e da Escola de Atores Wolf Maia; os treinos de patinação; e o espetáculo “Extravasa – O Musical”, em cartaz no Teatro Vanucci e onde mostra mais uma faceta: a de atriz. Na peça, interpreta uma adolescente internada com outros nove jovens em uma clínica terapêutica. Questionada sobre como faz para conciliar tantas atividades, a artista é enfática: “Estou me descabelando, mas é meu futuro. Tenho que conciliar. Parei o ‘Violões do Forte’ para ter mais tempo para estudar e para produzir meus vídeos (Julia também é Youtuber). Fazia balé três vezes por semana; agora, faço duas”, comenta, antes de continuar: “Meus amigos vão para shoppings e eu, para a orquestra. Conversamos no caminho”, explica, mostrando que consegue também arrumar tempo para viver sua adolescência. Nascida e criada em Copacabana, a adolescente dedica seu tempo livre a atividades comuns nessa faixa etária, como sair com os amigos. “A maioria mora aqui, então quase não saio do bairro. No máximo, vou ao Botafogo Praia Shopping”, observa.

Apesar de demonstrar paixão por todas as suas ocupações, a artista confessa que, de vez em quando, se cansa da rotina atribulada: “Sempre gostei disso, mas às vezes quero ir a uma festa ou apenas sentar e dormir. Quando volto a fazer tudo, o amor volta”, acrescenta. Apesar de tantos compromissos, o colégio segue como prioridade: a garota acaba de começar o 1º ano do Ensino Médio e se orgulha de nunca tirar notas abaixo de 8. O fim do Ensino Fundamental e a consequente nova fase a assusta: “Meu Deus, estou ferrada! Amo Química e Física, as disciplinas de Exata são minha vida, mas não me gosto de História e Geografia. Me saio bem porque estudo”, reconhece. Mesmo sem apreço pelas disciplinas de Humanas, o hábito de ler também é outro de seus prazeres. Em sua casa, montou uma pequena biblioteca onde coleciona títulos que vão desde autoajuda até Dom Casmurro, já lido por ela, que também já participou de aulas extracurriculares de Literatura, Capoeira, Natação e Pintura.

O interesse por tantas atividades é justificado por Julia, que defende a necessidade de conhecer diversos tipos de manifestações. “Independente de tudo, cada um tem a sua arte. Vivemos numa época diferente de nossos pais. Não há falta de cultura e sim de conhecimento. O rapper não escuta Tom Jobim. Até o conhece, mas ouve o rapper americano com quem se identifica e traz para sua carreira”, explica, antes de protestar contra a falta de interesse da população em conhecer determinados aspectos artísticos: “As pessoas olham minha bolsa com o violino e acham ser de cavaquinho. Todos deveriam saber o que são os instrumentos. É conhecimento geral. Na aula de português, surgem palavras como ‘ukeleke’ e ninguém pergunta o que é. As pessoas, quando querem tirar dúvidas, não perguntam ou fazem quase que com vergonha. Mesmo não vivendo na época dos nossos pais, temos que conhecer”.

Sua opinião é complementada pela de Ingrid, que defende as escolas da filha: “Quando a gente tem filhos, tem que dar a eles um leque de oportunidades. O teatro não é bom só se ela quiser ser atriz e sim para a vida toda. Ensina ela a se conhecer, a falar, a se posicionar. A música é boa para ela ter mais sensibilidade, a escutar melhor e a lidar com números. Tudo o que a Julia faz a ajuda se, no futuro, ela quiser ser psicóloga, jornalista ou advogada. Jovem não pode ser só alguém com tablet para estudar em escola puxada e curso de inglês. Hoje, muitos ficam na rua sem saber o que fazer ou fechados em livros ou computadores. Tudo que ela fez foi através de projetos sociais ou de bolsas em lugares com pessoas de maior poder aquisitivo, que tiveram que lidar com ela sem tantas condições”, expõe Ingrid, que sustenta a filha, estudante da rede pública, sozinha.

Atualmente, Julia usa seus conhecimentos multidisciplinares também em causas sociais. Os ensinamentos adquiridos no teatro a levaram a participar do projeto “Construindo a Cidadania nas Escolas”, promovido pela Defesa Civil e voltado para temas como meio ambiente, saúde e cidadania. “Me senti feliz porque me falaram que fui a única a prender a atenção do público. Era uma jovem falando com outros jovens”, destaca. Além disso, entre 2013 e 2014, após interpretar Maria Joaquina no musical “Embarque Nesse Carrossel”, inspirado na novela infantil exibida pelo SBT, ela foi presenteada com todos os arcos usados em cena pela atriz Larissa Manuela, intérprete da personagem na trama, e eles foram destinados a crianças com câncer e que perderam seus cabelos em decorrência do tratamento.

Outros enfermos também recebem a atenção da artista, que, eventualmente, toca violino para pacientes do Hospital Municipal Souza Aguiar e em outras instituições. Tamanha dedicação fez com que Julia fosse convidada para conduzir a tocha olímpica e esse reconhecimento por suas ações foi transformado em outra mobilização: o objeto, que ficou para a jovem após ser carregado, foi levado à Praia de Copacabana e os frequentadores puderam bater fotos com ele em troca de 1kg de alimento não perecível. No fim, toda a quantidade arrecadada foi doada a grupos necessitados.