A morte da pedagoga Iolanda Maltaroli pegou muita gente de surpresa. A fundadora do Lar Paulo de Tarso e do Solar Meninos de Luz faleceu repentinamente no dia 11 de outubro, deixando seus trabalhos sob responsabilidade de seus sucessores, que planejam dar continuidade ao seu legado e manter as instituições funcionando da mesma maneira conduzida pela criadora.

Seu trabalho social teve início na véspera de Natal de 1983, quando uma caixa d’água desmoronou do alto do morro do Pavãozinho, soterrando diversos barracos e matando 12 pessoas de oito famílias. A tragédia levou Iolanda ao local, onde prestou auxílio e levou provisões e roupas às vítimas abrigadas na Associação dos Moradores do Pavão-Pavãozinho. Posteriormente, a população se mobilizou e arrecadou donativos, mas Iolanda continuou indo ao local para consolar e levar orientações e preces às pessoas desesperadas – em alguns dias, passou a ser acompanhada por seus filhos e amigos que participavam, junto a ela, de um encontro para leitura do Evangelho. O interesse foi tão grande que, logo, foi desenvolvido um trabalho assistencial de emergência, primeiro sobre uma grande pedra e, depois, na sala da Associação de Moradores, onde os voluntários se desdobravam para dar educação moral e religiosa, recreação, atendimento médico e doações de enxovais, leite, roupas e alimento.

No final do ano seguinte, o grupo já atendia cerca de 100 crianças e suas respectivas famílias, o que fez Iolanda oficializar a ação através da criação de um centro espírita. No começo de 1985, foi fundado o Lar Paulo de Tarso, que funcionava na casa de sua mãe, em Ipanema, até se mudar para um barraco na própria comunidade. Após três anos e meio, finalmente foi erguida uma sede no Morro do Pavãozinho, com quatro salas grandes, duas saletas, seis banheiros e cozinha. Nessas instalações, eram atendidas diretamente 250 pessoas e seus familiares com verba arrecadada em bazares, almoços, eventos, promoção de shows, recitais de música clássica e pequenas doações.

Logo o trabalho se desenvolveu e foi fundada a creche do então chamado Projeto Meninos de Luz, em 1991, que, ao longo da década, transformou-se em uma escola que atendia até o fim do primeiro ciclo do Ensino Fundamental. Posteriormente, foram abertas turmas até a conclusão do Ensino Médio. A instituição funciona até os dias atuais, ocupando diversos imóveis na Rua Saint Roman, onde oferece aos alunos, além da educação formal, espaços como centro cultural (em um teatro com 400 lugares), quadras poliesportivas, salão de dança, biblioteca (com 40 mil títulos obtidos através de doações), galeria de artes (para mostras de artistas convidados e dos estudantes, que produzem seus trabalhos no centro de artes plásticas e artesanato mantido pela instituição), centro musical (com atividades como coral e orquestra), laboratórios de informática e ciências.

Apesar de a notícia do falecimento de Iolanda ter gerado dúvidas acerca da continuidade da instituição, a analista de comunicação da casa, Raquel Maia, garante que a equipe está preparada para manter seu funcionamento: “Ela sempre foi muito aberta e transparente. Ela nos deu todas as oportunidades de aprendizado e sempre trabalhava próxima dos funcionários. De maneira suave, ia nos direcionando e nos fazendo entender o que ela queria. É muito fácil chegar numa situação de tomar decisão e pensar em como ela agiria. Virou simbiótico”, afirma. Raquel destaca ainda que o trabalho desempenhado no Solar Meninos de Luz não é restrito aos benefícios acadêmicos: “A filosofia é de trabalhar o aluno, a escola e os pais. Dona Iolanda modificava as relações entre as pessoas de forma permanente. Na terceira terça-feira de cada mês, ela promovia a Escola de Pais. Às vezes, eles não têm tempo para seus filhos. Na última vez, todos fizeram atividades juntos”, lembra.

Segundo Raquel, a ideia da fundadora da instituição era transformar a comunidade através das novas gerações. Enquanto a maioria dos jovens quer ser jogador de futebol, a casa oferece aulas de inglês, sapateado, balé e muitas outras oportunidades. “Há crianças com famílias grandes e relações complicadas. A arte é terapêutica, principalmente as cênicas, permitem que elas se expressem. Dona Iolanda lutava muito por elas; o trabalho de mostrar que elas são agentes transformadoras da sociedade foi muito intenso. A preocupação é que levem os valores para fora daqui”.

Apesar dos esforços, a analista garante que a dirigente tinha consciência das dificuldades. “A influência da violência é muito grande. Vamos supor que sejam 100 mil moradores aqui. Atendemos só 420 crianças por ano letivo”, observa. Apesar de o Solar abranger uma porcentagem tão pequena, Raquel cita a existência de outros projetos com o mesmo objetivo no entorno, apesar de assinalar que apenas a instituição atua em diversas vertentes: “Uns oferecem só esporte. Lá para os lados do Cantagalo há um só de música, o Harmonicanto. Tinha também o Afroreggae, que agora acabou. Quando há jiu-jitsu, as crianças gostam muito. É bom porque oferece a elas disciplina e uma figura masculina dando ordens. O mesmo acontece com o judô que temos aqui”.

Visando abrir ainda mais portas, Iolanda instituiu aulas de empreendedorismo aos seus alunos. O curso passou a ser oferecido por outra ONG e, há pouco tempo, os estudantes foram desafiados a desenvolverem algum projeto que resolvesse problemas da comunidade. Recentemente, as propostas foram apresentadas em inglês a empresários com descrição de custos, maneira de fazer, impacto e outras características. O grupo com mais destaque será patrocinado por algum dos visitantes. “A maioria tinha como base a sociedade. Estava implícito que o legado de D. Iolanda já faz parte deles. Eles entram aqui bebês, com três meses ou um ano, e dificilmente algum sai daqui”, analisa Raquel.

Um dos desejos de Iolanda era que os alunos da casa fossem oriundos de famílias que realmente precisam daquele trabalho social, ideia que será preservada. “Não é só chegar e fazer a matrícula. As famílias passam por entrevistas e mantemos uma relação muito próxima delas. (cont. na pág. 21)
Cada uma é tratada individualmente. Em muitas instituições, os alunos são só números. Aqui, se eles quiserem, formamos cidadãos, mas a escolha é deles. Tem gente daqui que vive em casa que o vento balança”, destaca a funcionária.

O filho de Iolanda, Guilherme Maltaroli, coordenador executivo do Solar, reforça essa proximidade lembrando que a mãe gostava de subir o morro para conhecer as realidades de cada um: “Ela ia até lá no Caranguejo (setor da comunidade situado no ponto mais alto no morro, quase em seu cume – algumas das construções dessa seção podem ser vistas da Rua Barata Ribeiro). Chamam esse trabalho de empreendedorismo social, mas não gosto disso. Ela transcende. O que a movia era a necessidade das pessoas. Não tinha mídia, vaidade ou orgulho que a movimentasse. No empreendedorismo, há moeda de troca. Ela simplesmente fazia. Era uma pessoa que acreditava profundamente nas outras e com capacidade de extrair o que qualquer um tivesse de melhor num passe de mágica”.

Guilherme lembra que, no começo, Iolanda comprou um Corcel 2 com porta-malas grande que era usado para transportar artigos de arte (obtidos em doações) para vender em feiras de antiguidade na Praça XV e no Casa Shopping. Toda a verba era revertida para o Solar, mesmo com quatro filhos para criar. Com o seguro da morte de seu ex-marido, pôde investir na então creche, novamente sem deixar dinheiro para os herdeiros. “Depois do falecimento de minha irmã, todo o dinheiro dela foi colocado no Projeto Manjedoura (vinculado ao Lar Paulo de Tarso e voltado para doação de cestas básicas). Foi assim que minha mãe comprou a casa onde ele funciona”, cita, garantindo que tudo o que ele e seus irmãos receberam também foi doado ao Solar. “Sentiremos falta dela principalmente na formatura. Será o primeiro ano sem ela na mesa. Ela nunca quis ser conhecida como Iolanda, mas sim como Solar Meninos de Luz. Eu e Isabella (Maltarolli, outra das filhas de Iolanda e também coordenadora executiva da instituição) também queremos assim. O que ela deixou não foi o nome. Hoje estou aqui falando dela apenas porque é uma homenagem.”, finaliza.

Iolanda faleceu antes que a instituição que fundou fosse reconhecida como uma das 100 melhores ONGs do Brasil. O prêmio foi entregue pela Consultoria Mundo Que Queremos, pelo Instituto Doar e pela Rede Filantropia na noite do dia 1º de novembro, três semanas após sua morte. Também não chegou a ver a ajuda obtida através do programa Criança Esperança ser aplicada – a contribuição terá vigor a partir de 2019, somando-se aos apoios institucionais que totalizam 70% da verba da casa. Há ainda apoio da Prefeitura, que colabora com a manutenção da Educação Infantil. Os demais gastos são pagos por meio do programa “Padrinho do Coração”, no qual pessoas físicas podem doar a partir de R$30.

Mais informações sobre o trabalho de Iolanda podem ser obtidos em www.meninosdeluz.org.br e www.larpaulodetarso.org.br.