Inspirado em questões sociais sobre a velhice, o recém-lançado filme “Antes Que Eu Me Esqueça” conta a história de um juiz aposentado que, ao perceber os sinais de Alzheimer, decide tomar a decisão inesperada de investir seu dinheiro em uma casa de strip-tease. Filmado todo em Copacabana, o longa traz diversas imagens aéreas do bairro que perpassam as histórias dos personagens. Com temas sobre afeto e tabus, a ideia é causar reflexão nas famílias a fim de melhorarem a experiência de parentes próximos no processo de envelhecimento. A comédia dramática é estrelada pelo ator José de Abreu, que vive o personagem Polidoro. Aos 80 anos, ele decide realizar o sonho de adolescência ao deixar sua pacata vida para tornar-se sócio de uma boate. Diante desta decisão, sua filha Bia, interpretada por Leticia Isnard, decide interditá-lo judicialmente. Já o filho Paulo, vivido por Danton Mello, não interfere na escolha porque mantém distância do pai há muitos anos. Nesse contexto, o juiz determina encontros regulares entre os dois, visando resolver o empasse que vivem, forçando a reaproximação que transforma suas vidas.
A principal crítica do filme está relacionada ao descaso que a população idosa sofre pela falta de ambientes adequados direcionados a eles. “Os lugares na cidade são escassos e limitados. Muitas vezes, as famílias a direciona para uma casa de repouso que deixa as pessoas enclausuradas. Em outros lugares no mundo já existem ambientes mais livres como vilas, mas aqui no Brasil criou-se um modelo cruel, sem relação entre as pessoas”, sugere o diretor da produção, Tiago Arakilian. Ele diz que a ideia é fazer com que as pessoas aceitem que, estando bem e tendo vontade, o idoso deve realizar seus desejos. “Não podemos achar que eles não têm espaço para a realização e o prazer. Ele pode levantar da sua poltrona de casa e fazer o que quiser”, completa.
Foi por isso que o personagem Polidoro resolveu voltar à atividade para, além de recriar vínculos de amizade, sentir-se vivo e ativo através da casa de strip-tease. “O símbolo da boate tem muito mais sentido para os senhores. Foi onde começaram sua vida sexual. As pessoas confundem a libido com a sensação de estar vivo e ativo”, conta Arakilian. A pesquisa para a trama foi grande. A ideia surgiu durante uma caminhada do diretor pela Praia da Barra, quando observou um idoso com mais de 80 anos admirando moças que passeavam.
Motivado a entender a questão da sexualidade na terceira idade, o diretor entrevistou homens e mulheres com essa faixa etária na Praça Serzedelo Correa e descobriu que 100% das pessoas disseram que iriam a uma casa noturna desse estilo, caso fossem convidados.

Mais que cenário, Copacabana foi escolhida como protagonista do longa por ser um bairro plural, diversificado e natural. “Não tem nenhum outro lugar onde o juiz aposentado mora do lado de uma boate dessas”, comenta Arakilian. O longa é recheado de imagens aéreas que permitem que o expectador tenha uma visão privilegiada e não-convencional da área. As câmeras passeiam por ruas, prédios, praças e orla. Segundo o diretor, o bairro é tratado como um personagem, além de ser onde acontece a passagem entre as histórias na casa de Polidoro, na boate e na praia do Posto 6. Por isso, Copacabana é reconhecido até por quem nunca veio ao Brasil. “Exibimos o filme em vários festivais pelo mundo e todos sabem onde estamos”, reforçou o diretor sobre a originalidade do bairro.

“Antes Que Eu Me Esqueça” está em cartaz nos principais cinemas.