O Parque Estadual da Chacrinha segue ameaçado com a iminência das chuvas de verão. O local, que é um sítio histórico, conserva os últimos indícios dos anos iniciais da ocupação de Copacabana, mas um deslizamento de terra em abril de 2019 destruiu parte do terreno. Desde então, nem o trabalho de contenção da encosta tampouco o de arqueologia foi iniciado, tornando o espaço vulnerável em futuras tempestades.

     “Nada foi feito porque a Geo-Rio diz que os trabalhos serão iniciados depois que os da Avenida Niemeyer forem concluídos. Nem a Comlurb foi tirar os escombros”, alerta a gestora do local, Dalva Braga, que tenta patrocínios para conservar o parque, atualmente sob gestão municipal. Ela chama a atenção para o fato de um exemplar da árvore Couratari pyramidata, em risco de extinção e, atualmente, presente apenas na Mata Atlântica fluminense, estar ameaçado pela falta de escoramento. O vegetal encontra-se bastante perto da parte desabada, podendo cair a qualquer momento caso ocorra outro acontecimento semelhante. “Algumas pedras ainda podem rolar”, alerta.

     Os entulhos também podem esconder vestígios históricos do local, onde, no passado, existia o Reduto do Leme, habitado por chacareiros e índios que abasteciam a cidade quando esta ainda era sediada no Morro Cara de Cão, ainda no século XVI. Com o passar dos anos, o terreno foi preservado devido ao aspecto militar atribuído à área, transformado em porto de aguada (espaço onde aconteciam os abastecimentos das embarcações que se aproximavam da região, então zona internacional).

     Ali perto, na agora Ladeira do Leme, ficava o registro da cidade (serviço semelhante à alfândega, controlando a entrada e a saída de mercadorias), que funcionava no pórtico de acesso ao Forte do Leme (instituição diferente do atual Forte Duque de Caxias, no Morro do Leme). Como era proibido construir qualquer edificação no perímetro de 15 braças a partir de fortes, o local foi mantido quase que intacto. “Os trabalhos arqueológicos estavam sendo feitos por uma pessoa da Uerj, mas não há verbas nem voluntários para continuar o projeto. Podiam continuar em algumas áreas, até nos próprios escombros”, analisa Dalva. A antiga fonte dos soldados, que auxiliava no abastecimento da região, pode estar entre eles, destruída ou apenas soterrada.

     “Era a maior fonte de água que tinha na região. Como não havia nenhuma no Forte, essa era estratégica. Ali havia um rio que foi canalizado e saía só no Posto 5”, aponta o engenheiro agrônomo Ibá dos Santos Siva. Ele foi o primeiro administrador do parque e explica que podem haver outras relíquias históricas embaixo dos escombros. “Há um tempo, os varredores encontraram um ferro de passar roupa do Brasil colonial. Já encontraram também um cantil da Primeira Guerra Mundial. Quantos outros podem estar ali?”.

     Sua maior preocupação, entretanto, é a Couratari pyramidata . “O deslizamento foi bem ao lado da planta em extinção. É uma árvore centenária, de madeira de lei. Ela é um patrimônio genético de Copacabana, aparece em destaque em uma gravura do Rugendas (de 1835, quando o exemplar já era adulto). Foi plantada em posição estratégica, na divisa da área militar e civil. Existe um relatório da ONU que diz que, no mundo, há 1 milhão de espécies em extinção. Eu sei onde tem um exemplar: na Chacrinha. Cada um tem que fazer seu dever para salvar cada uma”.

      Seu empenho foi tão grande que ele considerou gravar vídeos para sensibilizar a população, mas ao esbarrar com os custos da edição do material, promoveu uma rifa, que chegou ao presidente do Crea-RJ, Luiz Cosenza. “Ele reconheceu a importância de preservar. Fiquei feliz”, conta Ibá, mencionando que o geotécnico Francis Bogossian, vice-presidente do Crea-RJ, acompanhou ele e Dalva numa vistoria ao local, já tomado pelo mato nesse curto intervalo de tempo, situação esta que seria apresentada ao Geo-Rio na semana seguinte do contato com o Jornal Posto Seis.

      Consultada, a Geo-Rio afirma que o deslizamento ocorreu na mata e não apresenta riscos à população. Informa ainda que as intervenções para limpeza, contenção e urbanização vão acontecer assim que for definido um projeto junto aos moradores e à administração do parque.