Fantasiar a realidade traz vida de verdade. É o que prova Abhay Zokoski, um menino cadeirante de 12 anos que vive em Copacabana e encanta crianças e adultos por sua inteligência e sensibilidade. Com suas histórias criativas e profundas poesias, ele narra suas produções nas praças do bairro. Os três livros publicados, além dos outros em andamento e sua atuação em saraus e shows de teatro não traduzem o espírito agudo do jovem artista. Depois de 16 cirurgias e 60 internações, o significado de seu nome explica a razão do sucesso e felicidade de viver “sem medo”, inspirado no líder da filosofia indiana Hare Khrisna.

Nascido em fevereiro de 2006, o “menino corajoso” nasceu com extrofia na bexiga, um tipo de má formação do órgão que comprometeu sua locomoção. Os oito anos, as idas ao hospital eram regadas por livros e histórias contadas pela mãe ou criadas por ele mesmo. Sem TV no quarto, o menino era ouvinte assíduo da Rádio Maluca, um programa infantil da Rádio MEC AM que apresentava músicas e histórias divertidas. A relação ficou intensa quando seu ídolo número 1, o apresentador e radialista José Carlos de Souza, conhecido como Zé Zuca, tornou-se seu amigo e o incentivou a contar suas próprias histórias e publicar um livro com elas.

Foi aí que aos nove anos, com a ajuda de sua tia, que anotava todas as suas

criações, o menino publicou o primeiro livro, “Meu amigo, que saudade!”, em homenagem ao maior incentivador da obra, que faleceu em 2015. Na sequência, o entusiasmo levou Zokosky e sua mãe, Adriana, a produzirem pequenos espetáculos no Parque da Chacrinha. O cenário, colorido, enfeitava as histórias contadas, que atraíam a atenção não só de muitas crianças mas também adultos. Com isso, Abhay começou a se envolver com teatro e até fez curso de interpretação para TV.

Depois, publicou sua segunda obra, “Histórias das Crianças da Chacrinha”, em 2010, com contos que contemplam as experiências de jovens que brincavam e idosos que frequentavam o próprio parque, a Praça do Lido, o Bairro Peixoto e as redondezas. Outros personagens da cidade também serviram de inspiração como garis, porteiros e alguns trabalhadores que circulam pelos arredores.

Nesse contexto, os integrantes do Movimento Artístico Musical para a Infância (MAMI) conheceram o trabalho do menino e o convidaram para participar primeiro da montagem de uma peça. Depois, protagonizou do próprio show com o grupo. Com a ajuda dos atores Sílvia Castro, quem costuma indicar os shows ao menino, Jujuba Cantador e Josué Soares, em 2017 o espetáculo “Histórias para Caramba” foi montado com base na dramatização do seu livro homônimo, que também foi lançado em julho do ano passado. A ilustração ficou por conta de Marta Bonimond, professora da Escola de Educação Física da UFRJ e integrante do “Paratod@s”, projeto de extensão que congrega alunos e pacientes em aulas de dança, música e teatralização.

Vinculada a este projeto, a Trupe Diversos, ao conhecer o trabalho do menino, o convidou para participar de uma peça que, por coincidência, era uma narrativa lida há pouco tempo antes: Dom Quixote. O jovem foi o narrador do espetáculo “Diversos São Quixote” por 12 vezes. “Adoro ele porque fala de liberdade”, opina o menino. Com o cachê do espetáculo, Abhay conseguiu trocar sua cadeira de rodas por uma nova.

Nesse mês, o escritor-mirim compôs e gravou uma faixa dedicada ao seu irmão chamada “Nuvens”, graças ao projeto 6º Estúdio Carioca, da Prefeitura, e está prestes a publicar seu quarto livro chamado “Gentilezas”. Na edição, Abhay dedica agradecimentos a todas as pessoas que o ajudaram durante sua vida.

De Shakespeare a obras mais recentes, suas inspirações e referências são ecléticas e variam de diversos países de origem. “Não é que os clássicos não são importantes, mas tem muitas histórias que ninguém conhece que também são”, diz, antes de complementar: “O mundo está cheio de histórias diferentes e maravilhosas, da África, da Índia, etc”. Dentre seus contos favoritos, estão “A história de Nrsimhadeva”, de Ana Luísa Lacombe; A Árvore Generosa”, de Shel Silverstein; “Danny, the Champion of the World”, de Roald Dahl e “O Menino Maluquinho”, de Ziraldo.

Esses e muitos outros livros compõem a grande biblioteca conquistada através de muitas idas a sebos e livrarias que costuma frequentar, além de doações de amigos, parentes e conhecidos. “Eu falo que adoro ir à livraria, mas odeio porque quero levar tudo”, brinca o menino, seguindo: “Eu gosto muito de livros que falam sobre lições, natureza e amor. Viajo neles porque cada um me leva para uma aventura nova. Eles são meus melhores amigos e companheiros”.

Seus próximos passos são previsíveis: fazer cada vez mais arte. O astuto e sorridente menino garante que o primeiro deles é contar histórias e, logo em seguida, publicar um livro a cada ano. Também pretende andar de triciclo, ir mais ao teatro e tocar teclado, novo instrumento que está aprendendo há três meses.

No entanto, para que seus planos ainda maiores se concretizem, a cidade e a indústria artística ainda tem muito o que aprender, em sua visão. “Deveriam aparecer mais cadeirantes na TV e no teatro”, aponta Abhay, que tem a fala complementada por sua mãe: É preciso acabar com esse esteriótipo de que os filmes e novelas fazem quando estes personagens só aparecem tristes e doentes. Eles estão vivos”, acredita Adriana Zokosky.

Ainda que a falta de acessibilidade atrapalhe a circulação da família pelo bairro, nada consegue abalar a plenitude de viver de Abhay. “Temos que ter gratidão. Tem tanta coisa pior acontecendo… É importante contar coisas bonitas que dão inspiração pras pessoas”, enfatiza a mãe. Com opinião semelhante, o artista é esperançoso e promete alcançar muitos corações para provocar mudanças. Espero que as minhas histórias ajudem as pessoas refletirem para a melhoria de vida deles e do mundo. Também que cuidem do meio ambiente e virem vegetarianas”, sugere o artista, antes de finalizar:Quero que as pessoas lutem para o mundo melhorar. Não posso perder a esperança”

Mesmo com os novos projetos, Abhay continua a se apresentar nas praças do bairro. “Copacabana é o meu mundo”, resume o menino. O contador de histórias e sua mãe comparecem ao Parque da Chacrinha toda última quarta-feira do mês, na parte da tarde, para recitar poesias e contando narrativas com muita alegria e fantasia.