Rogério Nunes (Foto: Divulgação)

O isolamento social levou muitos idosos a precisarem dominar a tecnologia do dia para a noite. Impossibilitados de sair de casa por serem grupo de risco da COVID-19, eles tiveram que aprender, de repente, a se comunicar com parentes e amigos, a comprar artigos básicos, a acessar internet banking e a desenvolver habilidades até então desconhecidas por muitos.

“Só em maio e parte de abril, devo ter feito mais de 30 ‘lives’. O tema está muito em vigor. Esse público está em um apagão. A comunicação está toda centralizada em meios digitais. Estou recebendo muitas dúvidas via ligação porque muitos não sabem lidar  com outros equipamentos. Estou dando aulas por telefone”, comenta o especialista em terapias para a saúde da pessoa na terceira idade, Rogério Nunes, autor do projeto “Velho? Quem?”, que busca a inclusão digital e social deste público. Ele explica que a idade não é um fator limitante no aprendizado: “Muitas vezes a pessoa chega nos 60 anos e classifica erroneamente que ficou velha. Isso depende da questão intelectual dela. A questão física não se contesta porque todos nós, com o passar do tempo, perdemos as capacidades físicas, mas muitas vezes alguém de 60 anos tem mais disposição que um jovem de hoje, que só come porcaria. Na ordem natural das coisas, o idoso, se está disposto a aprender as coisas, se dedicar e manter o conhecimento, consegue. Para você ter uma ideia, tenho uma aluna de 85 anos e ela está fazendo tudo na internet. Ela paga IPTU, vê as notícias, conversa com amigos…”, enumera.

De acordo com o especialista, as dúvidas começam por aspectos básicos: “As pessoas não sabem a diferença entre um smartphone e um celular. Se perdem já nessa questão porque acham que é a mesma coisa e não é, aí começo explicando que o smartphone não tem a tecla, que todos são ‘touchscreen’, que é um telefone que habilita a usar a internet, diferente da capacidade de um celular, que é bem limitado. Começo, principalmente, traduzindo a palavra. Além do idoso ter dificuldade no uso da nova tecnologia, ele também é obrigado a entender a língua inglesa, coisa que muitos deles não sabem. ‘O que é smart?’. É inteligente. É um telefone inteligente, mas por que ele ficou assim? Ele deixou de ser usado apenas para fazer ligações e passou a ser usado de N formas. Isso abre o horizonte, ele começa a entender. O idoso tem plena capacidade de aprender qualquer coisa, contanto que seja passado para ele na linguagem que ele entende. É necessária uma adequação. O que é Whatsapp? É um local que substituiu o envio de uma carta”.

Em paralelo, além de promover essa adaptação, Dr. Net também aponta a necessidade de explicar usando casos do dia a dia de cada idoso: “Por exemplo: costumo explicar o que é sistema operacional associando-o a uma geladeira. Eles sabem o que é. A geladeira é o sistema. Ela guarda todos os alimentos dentro dele: o leite, a verdura, a carne, a água… Cada um tem uma função nutritiva. O leite você usa de uma forma; a carne, de outra… Isso são os aplicativos. Você usa cada um conforme a sua funcionalidade. A comparação continua: “Aí eu falo: o iOS e o Android nada mais são que as marcas das geladeiras. Tem a Cônsul, a Brastemp, a Electrolux…  Essas marcas são os nomes das empresas que desenvolveram.  iOS e Android são como geladeiras para armazenar o sistema, mas cada uma pertence a uma empresa. Ninguém consegue ter mais uma conversa calma, ninguém consegue ouvir tudo o que você quer contar numa conversa. Todos querem saber logo ‘e aí, o que aconteceu? As pessoas querem soluções rápidas. Até a língua está mudando. Ninguém escreve mais ‘você’, é só ‘vc’; ninguém escreve ‘cadê’, é só ‘kd’. Quando o assunto é velocidade, é justamente isso que a pessoa da terceira idade não tem mais”.

De acordo com o especialista, este favor impactou, principalmente, as relações intergeracionais:  “Aquele convívio entre neto e avô morreu. O avô pergunta: ‘como faz isso aqui?’ e o neto pensa ‘vai demorar até ele entender o que vou explicar’. O que ele faz? Ele toma o celular da mão do avô, pergunta o que ele quer, faz e entrega. Isso leva o idoso a se sentir incapaz e ainda pior, já que ele olha o neto fazendo aquilo em 10 segundos e pensa: ‘Eu devo ser muito burro, estou tentando o dia inteiro e ele fez bem rápido’. Ele assume não ser capaz de aprender o equipamento”. Por este motivo, Nunes aponta que muitos desenvolvem aversão ao tema, ainda mais quando pressionado por familiares: “A família compra um smartphone, diz que o idoso tem que aprender, que é importante, manda ele dar uma olhada, mas ninguém ensina”.

A pandemia, entretanto, aflorou a necessidade desse conhecimento, que, segundo Nunes, deixou de ser opção para muitos. “Isso vai além da comunicação. Eles precisam acessar a conta no banco, pedir comida… Por serem grupo de risco, quanto mais eles resolverem tudo de forma remota, melhor para eles”. Devido ao desconhecimento, diversos seguem indo à rua mesmo sob orientação de se manterem isoladas:  “Muita gente acha que o idoso é teimoso, mas, às vezes, não há opção. Em Copacabana, há muitos que estão sozinhos e precisam comer”, analisa, citando, ainda, aspectos psicológicos que podem ser perigosos para os que estão sem companhia e sem conseguir falar com amigos e parentes devido ao desconhecimento tecnológico: “Ficar sozinho já leva à cilada da depressão, por mais que a casa esteja abastecida. Ao chegar na terceira idade, já subentende-se que o tempo de vida é reduzido. Isso cria uma ansiedade:  ‘Poxa, já tenho pouco tempo de vida, estou sozinho, isolado, ninguém liga para mim, não tenho comunicação com ninguém’. 

Para os que seguem temerosos em aprender, o especialista manda um recado: “Você pode continuar se alimentando, viajando, passeando, comprando coisinhas que agradem, mas a pergunta é: você quer viver à margem da sociedade ou participar dela? Se só quer acordar, se arrumar, bater papo com amigo na praça, fazer sua refeição, assistir televisão e dormir, é possível. Você têm sua aposentadoria, paga suas contas, dá para viver assim, mas se quiser participar da vida dos netos e dos filhos, comprar coisas mais baratas pela internet, tem que tomar uma decisão. É normal ter medo de aprender a usar o smartphone, mas é necessário dar o primeiro passo”. Ele finaliza: “só não pode querer fazer igual ao jovem. É uma utopia. Já tive aluno que queria digitar igual ao neto. Você pode fazer o mesmo que ele, mas na sua velocidade. Não adianta bater os dois dedões na tela para ser bom em alguma coisa. O neto já nasceu fazendo isso. Foi o primeiro instrumento apresentado a ele. Ele nunca viu uma máquina de escrever, não viu nem teclado de computador”, conclui.