As tempestades que afetaram o Rio nos primeiros meses de 2019 geraram um déficit de árvores em toda a cidade. De acordo com dados informados pela Comlurb, 1.348 mil caíram entre janeiro e abril, número este que não engloba os exemplares removidos por riscos variados. Em paralelo, a falta de poda em outros ameaça a população e a integridade de alguns edifícios, o que, somada com as poucas ações de replantio, podem diminuir ainda mais a quantidade de espécimes plantadas.

     A equipe do Jornal Posto Seis foi às ruas analisar esse problema, que afeta diversos bairros. No Leme, entretanto, os possíveis riscos assustam quase todos, já que eles são encontrados na maioria dos logradouros. Na Rua Roberto Dias Lopes, a principal reclamação refere-se à seletividade deste trabalho, realizado apenas em alguns exemplares. Outros, que ofereceriam maior perigo, não foram contemplados. Enquanto uma árvore grandiosa situada em frente ao número 83 foi podada recentemente, outra quase tão comprida e igualmente frondosa em frente ao 225 foi deixada de lado, mesmo visivelmente tombada em direção ao prédio 220. “O síndico tem protocolo de todas os pedidos de poda. Já tem tempo que ela está assim, até já consertamos a calçada (quebrada pelo levantamento da raiz). Na última vez que a Prefeitura veio, só fez para os lados de lá (princípio da rua)”, aponta um funcionário, afirmando que todos ali têm medo que ela caia em alguma ventania.

 

     Na Rua Antônio Vieira, um porteiro reclama que a Prefeitura foi até o local e atuou apenas nas que ficam perto da Rua Gustavo Sampaio, ignorando uma enorme e bastante pesada na esquina da Av. N. Sª de Copacabana. “Mandaram tirar os carros da rua inteira e podaram apenas três. A raiz desta está levantando a calçada. Os galhos grandes estão entrando pelos apartamentos. Há muito tempo que ela não recebe nenhum serviço”, critica. O referido exemplar já alcança o oitavo andar do edifício de número 17 e o conserto do passeio já fora realizado há alguns anos, mas quem passa pelo local sequer percebe devido à repetição do problema.

     Na Rua Gustavo Sampaio, o levantamento das raízes é a principal reclamação. O logradouro foi contemplado com um mutirão de poda promovido pelo programa Rio + Seguro no fim de 2018, mas o serviço não foi suficiente para salvar o exemplar próximo ao 528. Em abril, após a tempestade que assolou a cidade, o exemplar passou a oferecer perigo e foi cortado pela Comlurb. “Ia até o décimo andar”, lembra um porteiro, mencionando que a ângulo formado entre ele e o chão transmitia medo em ocasiões de ventos fortes. “Estava bem inclinada e com a copa grande”, continua. Um frequentador da região palpita que assim como ela, há aproximadamente 15 em risco na mesma via. “Se tiver mais um vendaval, vão todas”.

      Na Rua General Ribeiro da Costa, a falta de poda faz um funcionário do edifício 230 ficar receoso: “Há bastante tempo ninguém faz nada aqui.  Estou aqui há 21 anos e ela era uma árvore bem pequena, como a ao lado dela. Agora ela está grande (atingindo o sétimo andar de outro prédio) e mais ‘descida’ para lá”, pontua, mostrando preocupação com o futuro dela ou mesmo com acidentes, como ocorreu na Rua Aurelino Leal, perto dali. Na semana da visita da equipe do Jornal Posto Seis, um enorme galho quebrou e por pouco não atingiu uma mulher que passava pelo local. Anteriormente, outro já havia despencado e destruído o toldo do prédio 11. Por segundos, o porteiro não foi alcançado, segundo conta um trabalhador do condomínio vizinho.

  “Há bastante tempo não acontece poda. A rua está muito escura porque as copas das árvores cobrem o poste. Elas já estão inclinadas, logo vão cair”, palpita, enquanto um morador complementa: “Falta conservação. A gente tá abandonado, ninguém está fazendo nada”. Ao mesmo tempo, um funcionário da Superintendência Regional da Zona Sul caminhava pelo local, acompanhado de um Guarda Municipal, e nenhum dos dois sequer olhou para cima para verificar essa questão durante a passagem. Ambos passaram por baixo de um enorme conjunto de galhos secos que pode despencar a qualquer momento.

     Na Avenida Atlântica, o cenário é calamitoso, principalmente no quarteirão entre as ruas Martim Afonso e Aurelino Leal. Em frente ao 360, galhos nus indicam uma árvore morta. “Ela foi secando…”, comenta um trabalhador da área, sem saber o que levou a este cenário. Antes dela, outras duas tiveram o mesmo fim naquele endereço e mais para frente, perto do 732, mais uma encontra-se desse jeito. “Jogaram veneno nela há uns dois meses”, denuncia um porteiro. Entre os números 416 e 434, mais seis golas ou vazias ou com vegetação baixa indicam que as árvores dali já não existem mais – apenas em um desses canteiros há uma muda recém-plantada. Antes da esquina, há ainda mais um desfalque: o exemplar plantado perto da portaria 458 foi cortado em dezembro, já que estava tombado em direção ao restaurante La Fiorentina, oferecendo riscos à parte externa dele e seus frequentadores.

     Apesar dos problemas, há quem tente reverter a situação. O hotel Windsor Leme plantou quatro mudas na Avenida Atlântica. Dessas, apenas uma não resistiu, mas as outras três logo crescerão. “Uma árvore estava caindo e a Prefeitura tirou e outra estava tombada (pelo menos desde o princípio da década de 1990)”, cita um profissional do estabelecimento. O replantio contrasta com a situação encontrada logo após a Rua Anchieta, onde, até fevereiro, havia quatro que se interligaram na medida em que cresceram. Após a raiz de uma se soltar após o temporal de fevereiro, outra começou a se inclinar e foi necessário retirar todas, cujo vazio somou-se à outra gola que já estava desocupada no mesmo local. Passados três meses, a Prefeitura ainda não realizou o conserto da calçada quebrada durante o corte.

   Tal cenário também é encontrado fora do Leme. No Lido, a tempestade de fevereiro derrubou algumas árvores onde, anteriormente, já haviam tombado outras que foram removidas. Na esquina da Rua Belfort Roxo, um enorme tronco despencou com a ventania, fazendo com que ele fosse cortado. A parte da calçada levantada pela raiz foi arrancada e o reparo, passado três meses, segue sem ser realizado – até pedaços da raiz foram deixados. Os demais canteiros que estavam vazios entre os números 1.250 e 1.260 da Avenida Atlântica continuam sem novas mudas, com exceção da única plantada por um porteiro. “É um pé de manga”, aponta outro funcionário de um dos condomínios.

      Um passeio pela área torna evidente que a falta de preservação não é recente. As duas árvores que existiam na Av. N. Sª de Copacabana, entre a Avenida Princesa Isabel e a Rua Prado Junior, sumiram há, pelo menos, cinco anos e nesse tempo, a calçada continua sem sombra. Perto dali, na lateral da Praça do Lido, um detalhe chama a atenção de quem caminha: uma gola ao lado da estação de aluguel de bicicletas encontra-se cimentada. Imagens do Google Street View indicam que, pelo menos desde 2010, nenhuma vegetação ocupa aquele espaço, tampado em 2014.

     Apesar do enorme número de perdas, no princípio de maio a empresa Biovert plantou nove coqueiros no Leme, a pedidos da Fundação Parques e Jardins (a Superintendência Regional informa, em um post no Facebook, que foram 39 mudas de espécies diversas tanto naquele bairro quanto em Copacabana). Estava prevista também a chegada de 26 abricós e 26 amendoeiras, número este distribuído em toda a orla. O engenheiro florestal Carlos Magno Rodrigues, responsável pelo replantio, é morador de Copacabana e afirma não perceber tantos problemas dessa natureza no bairro: “Não vejo nada destoando”. Segundo ele, nem mesmo as podas salvariam as milhares de árvores derrubadas no princípio de 2019: “Os ventos eram de 100km/h… As quedas foram independente disso”, comenta, reconhecendo que uma árvore melhor podada tem seus riscos minimizados.

     Em relação à inclinação apontada com problemas em diversos endereços, explica que o certo é o crescimento reto, mas que na orla, há espécies como algodoeiros e aroeiras que já nascem tortos. “Para uma pessoa mais leiga, é complicado avaliar isso”, explica, mencionando que perigo se dá quando a árvore sai de seu centro de gravidade. Por fim, o profissional explica que em caso de dúvidas, a população deve acionar a central telefônica 1746 e solicitar a visita de um técnico.