O calçadão do Arpoador é considerado inofensivo para a maior parte da população, mas para deficientes visuais, caminhar por ele pode colocar suas vidas em risco. O perigo é causado pelo desnível entre o passeio e a areia, que alcança uma altura de cerca de 3m, e que não é sinalizada para este público. Sem enxergarem a profundidade, nada os impede de cair sobre as pedras situadas na parte baixa, o que poderia ser fatal.

O trecho com risco a este grupo é situado aproximadamente entre os postos 7 e 8 e, para quem vive nesta condição, o problema é de fácil resolução. “Uma pessoa que tem baixa visão está andando. De repente, vem o desnível e ela acaba caindo lá na areia. A solução (para evitar acidentes) seria colocar uma proteção para o deficiente perceber algo para ele não cair. Já a pessoa totalmente cega vai esbarrar nessa barreira”, sugere Antônio Carlos Garcia, que aponta que sem a ameaça, estes teriam independência para caminhar pelo calçadão.

No fim de 2017, o trecho da Orla Conde, no Centro, que compreende o território I Distrito Naval, recebeu guarda-corpos em substituição às grades de ferro instaladas na ocasião da Olimpíada, em virtude da segurança dos pedestres. A paisagem do caminho, datado do século XVIII, foi preservada devido ao modelo adotado, com cores neutras e estrutura fina, o que poderia ser repetido no Arpoador, onde o cenário também exige algo menos impactante.

A divisória também é defendida por Waldir Lopes: “Eu, como já enxerguei e perdi a visão no melhor da vida, conheço o barulho e sei onde tem água e essas coisas todas, mas mesmo a descida que tem para a areia precisa de proteção. Temos que ter cuidado”. Ele pede algo ainda mais inclusivo para a orla: “Existe o projeto de praia acessível (Praia Para Todos), você conhece? Lá tem a esteira para passar cadeirantes. É por lá que a gente anda na areia”, citou, propondo uma estrutura semelhante em outros pontos da praia, inclusive ali. O programa alvo de seu comentário não funciona durante o ano todo – a temporada mais recente aconteceu entre dezembro de 2017 e abril de 2018 – e, por isso, as opções de acessibilidade a esse ambiente são escassas nos demais meses.

O presidente do grupo Urece – Esporte e Cultura para Cegos, Anderson Dias, vai além em suas observações, mencionando, inclusive, a ausência de pisos podotáteis em diversos espaços da cidade. Esse tipo de sinalização é instalada no chão e através de marcas em relevo, ajudam a informar as particularidades do terreno. Existem dois modelos deles: os direcionais e os de alerta. Os primeiros trazem indicações em forma de traços, que mostram o caminho seguro a ser seguido, sem nenhum obstáculo atrapalhando a passagem. Já os de alerta são caracterizados por bolinhas e servem para chamar a atenção por motivos diversos como mudança no trajeto ou perigos à frente. “A gente não teve nenhum legado de acessibilidade plena depois dos jogos olímpicos e paralímpicos. Você pode se basear onde teve os jogos. Se você for ao Maracanã, não tem nenhum piso tátil. Um cego que quer fazer uma caminhada sozinho com a independência dele não consegue fazer. Para andar por ali mesmo, não há nada marcando as rampas ou a entrada do estádio… Isso não é só lá. Estou dando exemplo. O calçadão é ponto turístico do Rio de Janeiro e não tem nada. A gente sempre tem que depender de alguém. Não dá!”, desabafou, antes de também palpitar sobre o que poderia ser feito para tornar o espaço inclusivo:

“Uma das soluções seria o Poder Público sentar com as pessoas que têm deficiência e deixar elas falarem. Normalmente, outros falam por nós. Parece que a gente não pensa. Confundem a deficiência visual não só com outras deficiências; é como se fôssemos vegetais. Determinam que ‘isso aqui é o melhor para você e pronto’. O piso tátil (avisando sobre o desnível) vai resolver? Não sei, a gente tem que testar. De repente, a altura dele seria tão insuficiente que vou andar por cima e não vou perceber. Tem que fazer alguns testes com um pessoal cego de diferentes gerações. Por exemplo, o Waldyr é de uma diferente da minha. Ele é um cara que ficou cego com 50 anos. Eu sou desde novo e faço esporte. A minha percepção é uma e a dele é outra. Se o Waldyr, com mais idade e uma geração que ficou cega mais tarde percebe, eu, obrigatoriamente, vou perceber. Tem que conversar, tem que chamar o pessoal que não tem visão realmente para dizer o que é bom e o que é ruim”, finaliza.

O local em questão já foi endereço de acidentes. Antiga presidente da Associação de Moradores do Posto Seis e do Arpoador, Regina Guerra lembra que, na década de 2000, ocorreu uma ação civil pública onde foi discutida a colocação de um guarda-corpo naquele trecho. “Um cara levou um tombo, acionou a Prefeitura pedindo indenização e gerou a ação no Ministério Público. O juiz me convocou para ser testemunha. Fui favorável (à instalação) desde que harmonizasse com a paisagem e tivesse manutenção. Sem isso, poderia causar um dano ainda maior. Uma pessoa podia se sentar para uma foto ali em cima. Nem sei se o processo findou”, conclui. Atualmente, ele encontra-se em processamento no cartório da 1ª Vara de Fazenda Pública para expedição de ofício, após mais de dez anos de seu início.