A trilha que conecta o Parque Lage ao Corcovado voltou a ser destaque recentemente pela falta de segurança. Conforme reportagem publicada no Jornal O Globo, os visitantes estariam sendo alertados no princípio da subida para o perigo de assaltos. A notícia veio à tona dias depois de um grupo de turistas ser assaltado na Estrada das Paineiras, o que ano após ano também se repete. A repercussão desses episódios, ainda que em menos escala que outros problemas da cidade, contribui para o declínio do setor turístico, afetando diretamente a renda da região e as ofertas de vagas de trabalho.

De acordo com um estudo da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), a violência impôs uma perda de R$657 milhões ao turismo do estado do Rio de Janeiro em 2017 – para fins comparativos, o PIB da Região Norte foi de R$337,213 milhões no ano anterior (a página do IBGE não disponibiliza os dados posteriores a esta data). O material da CNC destaca ainda que outros fatores relacionados à conjuntura econômica também explicam a queda da atividade do turismo fluminense, e que a criminalidade tem contribuído de forma negativa para a recuperação do setor, responsável por 9,9% dos postos de trabalho formais do estado e por cerca de 7% da economia dele.

A pesquisa estima ainda que para cada aumento de 10% na criminalidade, a receita bruta das empresas que compõe o setor turístico recua, em média, 1,8%, impactando principalmente bares e restaurantes (que deixaram de lucrar R$332,1 milhões), transportes, agências de viagens e locadoras (R$215,5 milhões), hotéis, pousadas e outros tipos de hospedagens (R$97,7milhões) e atividades culturais (R$14,7 milhões). A análise dos dados do Instituto de Segurança Pública são pessimistas: entre janeiro e novembro de 2018 (os índices de dezembro não foram divulgados até o fechamento dessa edição), houve um aumento de 3% em relação ao total de registros de ocorrências no mesmo período do ano anterior, o que resultaria ainda mais na diminuição do impacto positivo do turismo no estado – no município do Rio de Janeiro, os dados permaneceram quase idênticos e representam 49% dos casos.

“Turismo e segurança estão interligados e não há dúvidas de que o impacto dessa falta de segurança é extremamente negativo. A sensação de proteção do turista na cidade é fundamental para o desenvolvimento do setor”, analisa a turismóloga Natalie Kneit, que associa o medo à diminuição da procura do Rio como destino: “Alguns poderiam dizer que, se deixaram de ver alguma coisa, vão voltar para vê-la, mas se foi por falta de segurança, a questão se torna mais complexa, pois ninguém arrisca sua própria vida a toa. Acredito que a maior consequência disso, além da frustração pessoal, seja o boca a boca. O turista retorna ao seu país de origem e conta aos seus amigos que foi impedido de fazer tal passeio por problemas de segurança. Daqui a pouco esses amigos, que poderiam querer vir ao Rio, já não vão querer vir mais, fora o alcance disso nas redes sociais, que hoje em dia é tremendo”.

Da mesma forma que as postagens repercutem mensagens negativas, também atraem pessoas interessadas em obter curtidas através de fotos em lugares agora famosos e antes pouco explorados, como muitas trilhas. Algumas, como a do Morro do Telégrafo, em Guaratiba, tornaram-se tão conhecidas que já são ofertadas por agências até para quem caminha pelo calçadão de Copacabana, evidenciando que o local virou um ponto turístico. Apesar da procura por esses passeios, há profissionais que preferem não oferecê-los aos seus clientes e, consequentemente, deixam de lucrar com eles. O guia de turismo Leandro Lázaro, da agência Pelaí – Viagens, Passeios e Trilhas no Rio de Janeiro, cita ter visitado o Telégrafo e o Costão de Itacoatiara, em Niterói, recentemente, mas deixou de levar grupos a esses passeios na capital fluminense devido à ausência de condições adequadas: “Não temos segurança, no geral, em todas as trilhas no Rio de Janeiro. Já houve casos de a pessoa ser assaltada até antes de chegar nela”, comenta. A subida ao Morro Dois Irmãos, por meio do Vidigal, é uma que ele gostaria de proporcionar ao público, mas não faz por medo. “Eu mesmo já fui assaltado nela”.

O engenheiro Hebert Houri também passou por maus momentos nesse mesmo local. Um escorregão fez com que ele se machucasse no princípio da trilha, percorrida com dificuldade após o incidente. Por este motivo, já era noite quando, em determinado ponto, percebeu um homem escondido atrás de uma árvore com atitude suspeita. O grupo que o acompanhava conseguiu correr e em poucos minutos alcançou o campo de futebol do Vidigal, por onde a trilha começa, mas a sensação traumatizou o turista, que mora em Goiânia e apesar do susto, ainda visita o Rio com determinada periodicidade, mas sem a pretensão de explorar todos os atrativos da cidade: “Eu não tenho pretensão de fazer trilhas nunca mais”, ressalta. Anteriormente, Houri já havia subido o Morro da Urca, mas nem essa ele demonstra vontade de refazer por receio de encontrar bandidos.

O turismólogo Marcelo Sá aponta que esse sentimento pode resultar na diminuição da permanência na cidade. “Futuros turistas poderiam ficar mais tempo e gastar mais. Com a frustração, aconteceria o contrário. Isso sem falar nos possíveis impactos pela não-geração de empregos, temporários ou não”. Muitas trilhas são citadas pelo site Visit.Rio, desenvolvido pela Riotur para divulgar os atrativos turísticos do município. No material, os interessados em desbravá-las são redirecionados à página da Transcarioca, que interliga nove unidades de conservação em toda a cidade e tem patrocínio da Prefeitura por meio de diversas secretarias. O percurso, dividido em 25 trechos, conecta Guaratiba à Urca passando por bairros como Realengo, onde há uma sub-sede do Parque Estadual da Pedra Branca e Tijuca, destacando atrativos da floresta homônima.

O trajeto Parque Lage – Corcovado aparece como a 19ª parte do passeio e é apontado como “imperdível” sem que exista qualquer aviso informando sobre o risco de assalto, o que é comunicado aos visitantes apenas no momento da chegada ao local – ainda assim, segundo os vigilantes que atuam no acesso dela mais perto do Jardim Botânico, nem isso diminui o volume de exploradores daquele espaço. As únicas trilhas não recomendadas pela página são as que conectam a Estrada dos Teixeiras ao Aqueduto do Catonho, na Zona Oeste, e a Ladeira do Leme à Praia Vermelha pelo Morro da Babilônia, na Zona Sul. Até o pedaço entre a Ladeira dos Tabajaras e o alto da Ladeira do Leme aparece na página sem restrições, apesar de ter registrado diversos tiroteios em 2018. O passeio até o alto do Morro Dois Irmãos, onde Lázaro e Houri enfrentaram problemas, não faz parte da Transcarioca.

Sá considera esse tipo de divulgação, que muitas vezes ignora os riscos aos visitantes, inviável. “A Riotur não solucionaria nada, apenas ‘jogaria contra’ nosso desenvolvimento turístico. Precisamos de ações definitivas, não paliativas.”. Natalie também defende a necessidade de mais atenção ao equipamento turístico: “Não só como turismóloga mas como cidadã do Rio, acredito que algumas áreas consideradas turísticas tinham que estar bem mais cuidadas e policiadas, dentre elas as trilhas. A Riotur faz o trabalho dela de catalogar e divulgar os atrativos através das suas redes. Cabe a outros órgãos garantir a segurança. Talvez o que falte seja uma interlocução entre todos esses órgãos para traçar uma estratégia que possa trazer tranquilidade a quem apenas deseja curtir suas férias no Rio”, finaliza.