A fundadora do grupo “Vozes de Outono”, Cleia Gonçalves, está sempre presente nas apresentações do conjunto e já é conhecida, mesmo que de vista, de boa parte do público. Quem a vê ali cantando não imagina que, por trás daquela mulher, há uma história de superação. Nascida há quase 80 anos e proveniente de família humilde, não se rendeu aos obstáculos que a vida lhe impôs e foi em busca dos seus objetivos.

Cleia nasceu em Cascadura mas cresceu em Realengo, onde criava porcos e ajudava a limpar os chiqueiros e dar comida aos animais. Educada por sua mãe e seu padrasto italiano, define sua infância como feliz, porém, difícil, o que a levou a procurar seu primeiro emprego ainda nos primeiros anos de sua adolescência.

Aos 14 anos começou a trabalhar como faxineira, e com o dinheiro obtido, iniciou sua vida na área da enfermagem. Na profissão, conta que aprendeu a se sensibilizar com o próximo, visto que acompanhava de perto as dificuldades dos necessitados para obter remédios, tratamentos e atendimento médico. Com o emprego de enfermeira, também juntou fundos para realizar seu sonho: cursar Direito.

Em sua opinião, o segredo de seu êxito foram os estudos. Em sua visão, isso não significa apenas frequentar aulas e fazer anotações, mas sim estar sempre querendo melhorar e adquirir conhecimento. Cleia também reconhece que foi necessário abdicar certos lazeres, desejos e bens materiais para focar naquilo que realmente podia mudar seu futuro, conselhos que divide com quem quer superar as dificuldades que a vida impõe. ”Ensinei desde cedo aos meus filhos que é melhor destinar os gastos com educação que com um tênis da moda, por exemplo, pois com o dinheiro investido na sua instrução, você poderá comprar quantos quiser no futuro” comenta.

Cleia tem dois filhos, cinco netos e um bisneto. Dos filhos, João Batista seguiu a carreira da mãe como advogado, e Alexandre de Azevedo trabalha como mecânico industrial. Segundo ela, o segredo da superação é fazer por merecer, traçar uma meta na vida e correr atrás. ”Eu cheguei onde cheguei na vida porque eu sempre quis ser alguma coisa. A minha cor de pele, meu cabelo duro, minha pobreza e minha gordura não me impediram de caminhar e conquistar o meu espaço” conta.

Atualmente, a aposentada do gabinete do INSS dedica-se ao coral sem fins lucrativos, onde participam até portadores de Alzheimer. Ela trata o seu projeto, que já existe há 12 anos, como a continuação da sua vida profissional, apesar de ser onde se diverte, dá risadas e troca energias com os outros integrantes. O canto é uma de suas paixões, assim como as viagens: ela já saiu do país a lazer em cinco ocasiões, e em março, irá pela sexta. Dessa vez o destino é a Itália e o motivo da viagem é tentar realizar mais um sonho: conhecer o Papa.

Texto: Daniel Henrique