Um grupo composto por quatro amigos, todos moradores do Leme, têm promovido ações sociais no Morro da Babilônia. Motivados pelo isolamento social, que resultou em um enorme número de crianças fora das escolas e ociosas na comunidade, eles montaram o projeto “Além do Morro”. As aulas de surf já foram iniciadas, mas as de música, ainda não, assim como a biblioteca comunitária. Por isso, os administradores pedem doações de livros e instrumentos musicais, além de pranchas e materiais que possam ser usados na revitalização da Praça Mestre Betinho, onde fica a cabine da UPP e onde algumas das atividades devem ser oferecidas.

As ideias surgiram de uma conversa entre Bárbara de Aguiar, Luciana Lacerda, Mila Coelho Santos e Hugo Alaor, após a necessidade ser constatada: “Estamos muito carentes disso, muito mesmo. Não há nenhum outro projeto assim aqui na comunidade”, aponta Mila, que vive na própria Babilônia. Hugo, também residente da comunidade, reforça: “As crianças não estão indo para a escola, estão soltas”.

Como Bárbara e Luciana já mantinham um projeto de surf na Praia do Leme, foi sugerido que, duas vezes por semana, as aulas fossem dedicadas ao público infantil oriundo do morro. O sucesso foi instantâneo: após um treino com dez crianças, o grupo aumentou rapidamente e, em uma semana, já havia 35 inscritos. Após a terceira aula, mais 50 esperando uma oportunidade: “Estamos desesperados porque não temos nem pranchas. Precisamos de doações. Até o lanche fomos nós quem rachamos para dar à criançada”, aponta Mila, que pede também embalagens de protetor solar para ser aplicado na garotada e vestimentas para eles usarem dentro d’água. As aulas são lecionadas por Fábio Nativo, fundador da iniciativa esportiva junto com Yago Lacerda.

A proposta do “Além do Morro”, entretanto, é oferecer não apenas o esporte, mas também outras atividades, como uma biblioteca na praça. “Será comunitária e aberta”, promete Bárbara, que continua: “Se arrecadarmos demais e não couber ali, vamos conversar com a associação de moradores para ver se podemos deixar alguns lá guardados. A ideia é que, na medida em que o pessoal for tirando, a gente vá colocando outros”. As doações começaram a ser recolhidas no fim de agosto, mas Hugo, que trabalhou durante 10 anos em uma livraria, obteve muitos direto das editoras graças aos seus contatos. “Uma amiga da Gutemberg me trouxe seis caixas com livros. Outras, da Globo e da Intrínseca, também querem ajudar. Elas estão enviando só livros zerados, aqueles paradidáticos caríssimos”, observa.

Para garantir o bom uso deles, a fiscalização ficará a cargo dele mesmo, que, após ficar desempregado devido à pandemia, montou uma barraca para vender caldos no local. Por isso, os livros ficarão nas geladeiras desligadas que já estão na praça – no passado, outros equipamentos foram usados em uma iniciativa semelhante na Rua General Ribeiro da Costa, já que possuem porta e prateleiras. “Não quero deixar aonde eu não esteja vendo”, analisa, prometendo, apesar disso, levar alguns exemplares para o Chapéu-Mangueira, em local ainda a ser definido.

No embalo da biblioteca, toda a praça deve ser revitalizada pelo grupo. “Queremos reformar e iluminar para reativar ela”, observa Bárbara, que reforça: “A gente aceita também doações de tintas”. É previsto, ainda, que a grafiteira Rafaela Monteiro, a RafaMon, decore uma parede do local, o que já teria sido autorizado pelo proprietário do imóvel adjascente.

Outras atividades devem ser iniciadas em breve, como saraus, coordenados por Vanessa Pereira, poetisa responsável pelo Sarau da Vá, e de aulas de música, oferecidas por Rodrigo Jesus e Hugo Ujuara, mas, para isso, são necessários instrumentos. “Estamos sem previsão de começo ainda”, destaca Mila, que comemora ainda a parceria obtida, no fim de agosto, com a Associação dos Moradores da Babilônia: “Com o movimento, o pessoal cedeu dois andares enormes para a gente realizar o projeto completo, de culinária à arte, esporte, tudo. Vamos ter que revitalizar todo o prédio, que está abandonado, mas acho que com menos de um mês vamos conseguir bater essa meta”.

Os interessados em contribuir com o “Além do Morro” podem entrar em contato através dos telefones 99661-4280 (Mila), 99029-4832 (Hugo), 99800-7988 (Bárbara) e 98554-9726 (Yago – exclusivamente para assuntos relacionados às aulas de surf).