Os 50 anos da morte do escritor Guimarães Rosa foram lembrados pela Academia Nacional de Letras e Artes (ANLA), que recebeu a filha do artista, a também autora Vilma Guimarães Rosa para falar sobre seu pai, que escolheu o Posto 6 de Copacabana para viver os últimos anos de sua vida. Vilma, que na mesma ocasião celebrava os 50 anos da publicação do seu primeiro título, apresentou o humano por trás de “Grandes Sertões: Veredas” e emocionou-se ao lembrar de sua relação com aquele que a inspirou a escrever.

Nascido em 1908 na cidade mineira de Cordiburgo, João Guimarães Rosa logo saiu de sua cidade-natal para estudar. Ainda na infância, passou a viver com seus avós em Belo Horizonte, onde concluiu seus estudos primários. Inspirado em seu avô, cursou faculdade de Medicina e começou a escrever. Após se formar, foi viver em Itaguara, cidade escolhida por ele por não haver outros médicos atuando. Foi nesse período que João, antes de se tornar um célebre escritor, realizou o parto de sua primeira filha, Vilma – a segunda, Agnes, veio ao mundo alguns anos depois. A vida simplória na qual os serviços profissionais eram trocados por bolos e galinhas entregues pelos pacientes foi deixada para trás quando Guimarães Rosa tornou-se capitão médico da Força Médica de Minas, junto com o futuro presidente Juscelino Kubitschek, que foi seu “amigo de arma” na Revolução Constitucionalista de 1932. Apesar da importância do novo cargo, Vilma lembra que o pai manteve a modéstia: “Ao tomar posse, o traje era smoking. Ele pediu para mudar porque muitos dos seus amigos não tinham dinheiro para comprar um”, observou. João ainda atuou como diretor em um hospital em Barbacena antes de largar a carreira na área de saúde, angustiado com tantos falecimentos.

Foi nesse período de sua vida que o futuro imortal da Academia Brasileira de Letras ingressou na vida diplomática, o que o trouxe, junto com sua esposa, Lygia, e as duas filhas, ao Rio de Janeiro. O primeiro endereço dos Guimarães Rosa foi a Tijuca, mas logo ele foi designado a ir trabalhar na Alemanha quando ainda não se falava de guerra. Vilma lembra que, aos sete anos, sentia que ficaria muito tempo sem rever o pai, apesar das promessas de que em breve a família também iria à Europa. Seu temor concretizou-se quando estava tudo pronto para a ida. Na iminência do conflito bélico, o Itamaraty proibiu a presença das mulheres e crianças dos diplomatas no território germânico.

Nos anos seguintes, o escritor quase perdeu a vida em diversos momentos devido à Segunda Guerra Mundial. Após desenhar um retrato de Hitler, foi denunciado por um espião e investigado pela Gestapo. Mesmo liberado, arriscou-se para salvar um amigo cujo nome, assim como dos familiares, constava na lista de pessoas que seriam encaminhadas a Auschwitz – João carimbou os passaportes do clã, emprestou dinheiro e levou todos até a fronteira para ajudá-los a fugir. Em outra ocasião, saiu de seu apartamento de madrugada para comprar cigarro quando ouviu alarme de bombardeio soando. Como já estava na rua, teve tempo de se abrigar em um bunker, o que fez dele o único sobrevivente dentre os moradores de seu prédio, inteiramente destruído. Posteriormente, a sede do consultado também foi atingida e, apesar do risco de queda,

Guimarães Rosa burlou ordens e entrou para salvar documentos importantes. Imediatamente após sair do interior, a construção ruiu.
Seu retorno ao Brasil também não aconteceu de maneira pacífica. Os governos brasileiro e alemão oficializaram um acordo de devolução dos diplomatas que atuavam nos territórios. João, assim como os demais que atuavam no país dominado pelo nazismo, foram mantidos como “reféns de luxo” por quatro meses pela Gestapo. A viagem de volta era secreta devido aos receios de traição: caso isso ocorresse, o navio, escoltado por submarinos alemães, seria atacado e todos em seu interior, mortos. Posteriormente, esse episódio foi definido por ele como uma das grandes emoções de sua vida.

A surpresa da vinda fez com que a chegada fosse informada à família no próprio dia, o que gerou grande emoção em todos. Entretanto, o tempo longe de casa fez com que João se aproximasse de sua secretária, Aracy de Carvalho, que se tornou sua segunda cônjuge – paralelamente, ela ficou conhecida por salvar a vida de um imenso número de judeus, autorizando a entrada deles no Brasil, o que lhe rendeu homenagens nos museus do Holocausto de Jerusalém, em Israel, e em Washington, nos Estados Unidos. Apesar do novo relacionamento, João manteve com Lygia uma forte amizade até o fim da vida dele e, quando voltou à Europa (dessa vez, para trabalhar em Paris), pediu à ex-esposa autorização para levar Vilma consigo, uma vez que a jovem era muito apegada ao pai.

A filha conta que foi nessa época que ele começou a esboçar “Grandes Sertões: Veredas” a partir de cartas recebidas de seu pai, grande conhecedor do sertão mineiro e que respondia questionários propostos por João sobre a realidade do local que ele ainda não conhecia. “Ele passava as noites escrevendo e lia as páginas para mim”, recorda-se Vilma, que logo voltou ao Brasil a pedidos de Lygia. O pai voltou pouco tempo depois e logo se tornou mais um “copacabanense” do Posto 6 – o prédio que ele vivia, mo número 33 da Rua Francisco Otaviano, foi demolido há cerca de três anos. Foi nele que o mineiro concluiu seu trabalho mais conhecido. A primeira viagem ao sertão ocorreu antes do lançamento, a convite do presidente Getúlio Vargas e do jornalista Assis Chateubriand, então senador. Seu desconhecimento sobre a realidade local era tamanha que João sequer sabia o que vestir. Foi Vilma quem o orientou a optar por uma jaqueta de couro e calça jeans, o que ele também não conhecia. Chateubriand lhe enviou um traje a caráter, o que fez o escritor se sentir o próprio John Wayne, segundo a filha, que atuava como “secretária social” representando o pai em diversas ocasiões (ele sempre optava por ficar em casa escrevendo) e, aos poucos, seguia seu caminho no meio literário.

O primeiro livro de Vilma, “Acontecências” foi enviado à editora de maneira anônima, pois ela não queria que ele fosse publicado devido ao peso do nome de seu pai, nessa época já eleito imortal da Academia Brasileira de Letras – a posse, no entanto, foi atrasada quatro anos sob alegação de que ele estaria adiando sua morte, já que encarava o fato como a coroação de sua vida. Sua identidade foi exposta apenas quando o título já havia sido selecionado pela Editora José Olympio. O lançamento ocorreu em 13 de novembro de 1967, data que abriu a “Semana Guimarães Rosa”, na visão de Vilma – naqueles dias, os dois escritores da família vivenciaram importantes realizações. Seu pai lhe avisara que não iria ao lançamento para evitar roubar o momento da filha. Para suprir a ausência, o imortal prometeu-lhe uma surpresa naquela noite e, em meio à festa, foi lida a ela uma carta assinada por ele, chamando-a de “jovem colega”.

Este viria a ser seu último trabalho escrito, fato esse desconhecido naquele momento, mas que mesmo assim gerou grande curiosidade dos jornalistas presentes, que copiaram o texto e o transcreveram nos veículos da época. O que Vilma não imaginava é que João estava presente assistindo tudo de longe o tempo inteiro: no fim da festa, quanto os convidados foram embora do Iate Clube do Rio de Janeiro, ele se aproximou sorrindo e de braços abertos para abraçar sua pupila. Três dias depois, finalmente aconteceu sua posse na ABL, o que ele, de maneira certeira, acreditava que marcaria o fim de sua vida.

Ao longo da semana, a carta enviada à filha continuava repercutindo e, devido à insistência de um jornalista, Vilma redigiu uma resposta que seria publicada no domingo, dia 19. O telefonema de agradecimento viria a ser o último contato entre os dois: João morreu poucas horas depois, antes até de receber seu exemplar de “Acontecências”, que foi colocado sob seus braços já sem vida. “Ver um homem que morreu há 50 anos ser homenageado como morto é a glória. É uma tristeza, mas representa a imortalidade”, destacou Vilma, que, posteriormente, lançou mais nove títulos.

A cerimônia na ANLA foi encerrada com a leitura de um trecho de “Sagarana”, o primeiro título publicado por João, e pela declamação da poesia “Navio de Barcos”, assinada por Vilma.