O Dia da Mulher foi lembrado pelo Instituto dos Advogados Brasileiros (IAB), que promoveu o seminário “Sororidade” em seu plenário. Diversas personagens com perfis variados palestraram sobre questões que envolvem o gênero feminino, abordando temas como igualdade e inclusão. Garantindo que este aspecto fosse respeitado na própria ocasião, todas as falas foram interpretadas em Libras simultaneamente.

“Esse evento acontecendo nessa semana é muito importante. Dia 8 é o Dia Internacional da Mulher, mas é importante falar do tema sempre. Por que fazer nessa semana de forma tão intensa? Porque no Brasil, é necessário”, opinou a juíza Adriana Ramos de Mello, a primeira a expôr sua vivência. Atuando no 1º Juizado de Violência Doméstica e Familiar Contra a Mulher, ela lembra que, no passado, as vítimas iam ao Juizado Especial Criminal registrar ocorrência e como antes da Lei Maria da Penha os autores podiam pagar pelo crime através de cestas básicas, muitas apontavam que os alimentos sairiam de suas próprias residências. Ainda assim, apontou que nem a nova norma, assinada em 2006, diminuiu os índices. “Só o Direito Penal não resolveu o problema”, concluiu.

Em seguida, a representante do Movimento Mulher Advogada do Brasil, Neide Marinho, retomou o tema da violência, mencionado por Adriana, mostrando indignação a essa estagnação: “Na Paraíba, em 1 mês, 20 mulheres foram vítimas. Não é possível! A gente luta tanto”, exaltou, mostrando interesse em montar um seminário sobre o tema após mapear as questões que envolvem as preocupações femininas.

A comandante do Grupamento Aeromóvel da Polícia Militar, Ten. Cel. Clarisse Barros, também participou do seminário dividindo com o público sua experiência na corporação, bastante elogiada por ela por ter lhe concedido todas as oportunidades. Ao citar o baixo número de mulheres atuando na instituição, mencionou que isso acontece pela falta de procura delas em ingressar na profissão e não por portas fechadas. “Por trás de cada policial, há uma pessoa, um pai de família. Eu, como Ten. Cel. Clarisse, piloto helicóptero, me coloco em situação de risco pela sociedade e nem por isso preciso ser truculenta”, destacou. Ao término de sua fala, agradeceu sua mãe por ter aceitado a decisão de seguir carreira policial mesmo sem concordar com essa escolha.

Ao término de sua fala, foi a vez da advogada Itamárcia Marçal, criadora da agenda AMU Brasil, que traz histórias de mulheres em suas páginas. “A AMU Brasil procura acolher sem preconceito”, observou, antes de continuar: “Sororidade é ser irmã. ‘Soror’ significa isso, em latim”, lembrou. Depois, foi a vez da coordenadora do GT Mulheres Negras da OAB Mulher RJ , Marina Marçal, falar sobre o tema: “Sororidade é o que a Deborah (Prates, presidente da Comissão da Mulher do IAB) faz: dar espaço para a negra e a soropositiva. Você não pode dizer ‘eu sei o que você passa’ sem estar na minha pele”, sugeriu.

O depoimento da advogada Giowana Cambrone chamou a atenção do público. Mulher trans, afirmou que a sociedade enxerga transexuais como ela de forma bizarra e chamou a atenção para as dificuldades enfrentadas por este grupo. “Por ser advogada e professora, sou um ponto fora da cuva. A maioria das pessoas trans relatam que desde muito cedo se percebiam diferentes. As famílias também notam. Por isso, a maioria tem histórico de violência doméstica e é expulsa de casa na adolescência, ao assumir suas novas identidades de gênero. Estima-se que 90% das mulheres trans vivam de prostituição. Isso não é um problema para quem quer, mas para elas, é compulsório”, apontou.

Finalizando a reunião, Deborah, que não enxerga, falou sobre as violências contra esse grupo. “Sou deficiente há 11 anos. Tenho autoridade para falar como é ser mulher com e sem deficiência. Até um dia antes da cegueira, eu era a Dra. Deborah Prattes. Agora, sou a ‘advogada cega’. Quando saio com minha bengala, sou ‘a ceguinha’. Quando peguei um cão-guia, virei ‘a mulher do cachorro’. A primeira coisa que me aconteceu foi perder meu nome”, ressaltou, apontando também as dificuldades enfrentadas no mercado de trabalho: “Os empresários exigem boa aparência, mas a sociedade vê antes a cor de pele, a bengala, a muleta ou a cadeira de rodas. Quem não cabe nessa forma, tá fora”, destacou. Como advogada, apontou ter sido excluída da profissão pela página do Processo Judiciário Eletrônico, cujo conteúdo não seria codificado para seus leitores de tela.

Para Deborah, os próprios movimentos feministas a excluem por sua condição: “Frequento coletivos feministas, mas quando defendo acessibilidade, deixo de ser bem-vinda porque passo a dar trabalho”. Além disso, apontou que as portadoras de deficiências são mais vulneráveis a violência sexual, já que são ainda mais limitadas para se defenderem: “As cadeirantes são jogadas na cama e obrigadas a fazer sexo. Se a cega correr, bate a cara na parede. Elas não conseguem nem ir na rua denunciar por causa das raízes das árvores levantando as calçadas e dos ônibus sem plataformas elevatórias…”, enumerou, antes de citar outros problemas como a falta de rampas ou sinalização podotátil nas entradas das delegacias e da ausência de agentes capacitados para se comunicarem em Libras, o que impede o atendimento de surdas. “A gente precisa desse diálogo. Ouvir a outra é importante para esse crescimento”, finalizou.