Luiza Lunardi

    Há cerca de um ano e meio, o embaixador brasileiro Jerônimo Moscardo decidiu distribuir livros gratuitamente na Praia do Leme. Em parceria firmada com a barraca 37 da orla, o diplomata colocou à disposição dos banhistas diversos títulos recolhidos com a ajuda de amigos e conhecidos. A iniciativa evoluiu e se transformou no projeto Filosofia na Praia, que realiza encontros quinzenais aos sábados, com palestras sobre filosofia e literatura, no quiosque localizado em frente a Rua Padre Antônio Vieira, de 11 h às 12 h.

     Segundo Moscardo, que é morador do Leme, a ideia da criação de uma rede de leitores na praia surgiu a partir de uma frase do escritor argentino Jorge Luís Borges, que dizia imaginar o paraíso como um tipo de biblioteca. “Nossa orla é paradisíaca ao vivo; juntamos isso com os livros e a possibilidade de tudo ser gratuito, e temos um paraíso mais que perfeito”, brinca o embaixador. De acordo com ele, a proposta foi bem recebida por locais e turistas, que passaram a contribuir com as doações. Tudo ia bem, até que um agente de segurança pública multou a “Barraca do Gaúcho”, que servia de sede para a iniciativa, alegando que algo de estranho ocorria ali. “O guarda não acreditou que distribuíamos livros. Achou que fosse fachada para algum tipo de tráfico de drogas, e multou a barraquinha”, relata Jerônimo.

     A partir da punição, Jerônimo Moscardo e outros organizadores elaboraram melhor a ideia, e fundaram oficialmente o projeto Filosofia na Praia, com distribuição de livros e palestras de filosofia e literatura a cada 15 dias. “Um dono de sebo do Centro do Rio disse que se eu tocasse o projeto, ele cederia títulos do acervo de sua loja para nós. Foi um grande incentivo”, conta. No início, os encontros eram realizados na areia, na beira do mar. “Convidamos o professor Carlos Gurgel para a primeira palestra, um resumo da filosofia desde os pré-socráticos. Com o seu jeito de trabalhar, contando a história a partir de piadas sobre os filósofos, ele conquistou a plateia que estava espalhada pela areia”, explica Jerônimo.

     Com o tempo, outros apoiadores surgiram. Dentre eles, Maria Alice, dona do quiosque em que atualmente são realizados os encontros, que cedeu o espaço de seu estabelecimento para as reuniões quinzenais. Com sede fixa no calçadão, cada vez mais pessoas passaram a frequentar os eventos promovidos. “Atualmente, são quase 600 envolvidos. Em cada palestra, conseguimos um público de 100, 150 ouvintes, inclusive com muitos senhores e senhoras da terceira idade. Para acomodar bem a todos, colocamos guarda-sóis extras para proteger do clima. Em uma das últimas palestras, em maio, o quiosque recebeu até mesmo uma multa por ter extrapolado o limite de guarda-sóis permitidos”, conta o criador do projeto.

     Mais uma vez, uma punição ao local de reuniões (antes a barraca, agora o quiosque) impulsionou uma reviravolta para a iniciativa. Moscardo explica que há algum tempo o professor Gurgel, o primeiro docente de filosofia do projeto, passou a ministrar aulas nas noites de segunda-feira no Centro Dom Vital, situado na Cinelândia. Segundo o embaixador, muitos frequentadores dos encontros na praia passaram a se locomover até o centro da cidade também para as lições filosóficas no início da semana. A partir daí, uma parceria foi firmada com a instituição, e Jerônimo Moscardo fundou a Universidade Livre do Leme (ULL). As sedes da ULL são no quiosque da comerciante Maria Alice, na Barraca do Gaúcho, no Centro Dom Vital e, mais recentemente, no Instituto Cultural Cravo Albim, na Urca. “O Ricardo Cravo Albim é um grande apoiador do projeto, e cedeu sua casa, que funciona como um instituto cultural, para eventos da Universidade”, conclui o embaixador.

     Demais informações sobre os encontros e atividades promovidas pela iniciativa podem ser acessadas através da página do Facebook “Filosofia na Praia”, e do website filosofianapraia.wordpress.com.