A nova marchinha de João Roberto Kelly promete ser um sucesso na Copa do Mundo. Lançada no final de março, a composição traz palavras de incentivo à Seleção e foi planejada para conquistar a torcida em todo o Brasil. “Marchinha da Copa” já está disponível no Youtube e conta com a participação do próprio compositor, que falou com o Jornal Posto Seis sobre este gênero musical e a nova fase do carnaval.

“Sou compositor popular e acho que a música popular caminha junto com o futebol”, observa, defendendo que evitou escrever uma letra ufanista por acreditar que esse aspecto prejudica a própria Seleção, acostumada a escutar mensagens como “já ganhou!”. O novo trabalho foi escrito rapidamente, segundo ele, e impulsionada pela repercussão de “Alô, Alô, Gilmar”, que foi sucesso no carnaval. “Com a experiência desta, gostei das redes sociais. Ela foi campeã de visualizações”, observa. Somando todos os canais onde o vídeo foi publicado, ele ultrapassou 100 mil acessos.

O clipe de “Marchinha da Copa” conta com o mesmo grupo do anterior: Manu Santos, Gilson Bongil, Fernando Reski, Cida Moraes, Chico Balanço e Lúcio Mariano, cujo estúdio foi usado como locação, se juntam a Kelly na gravação. “A marchinha está dentro do meu estilo. Não é carnavalesca, mas é para ser cantada em grupos, nos blocos e pela torcida. Minhas músicas de carnaval já são cantadas por algumas, mas com as letras trocadas”, comenta, citando “Mulata Iê Iê Iê” como a mais popular entre os fãs do esporte, que inserem palavras de baixo calão no refrão. “Uma vez, fui a um jogo do Fluminense e me assustei com o que ouvi. Depois, procurei me interessar. Achei interessante, isso prova a popularidade da música. Outras torcidas também já cantaram, mas nesse dia, estavam aos berros. Um tricolor atrás de mim cantava com os braços levantados, gesticulando. Sem dúvida, é algo muito carinhoso”, opina, às gargalhadas.

O novo trabalho faz referências diretas ao jogador Neymar e ao técnico Tite e indiretas ao 7 x 1 que desclassificou a Seleção na última Copa (através do verso “Dessa vez, não vale chorar”). Além disso, remete a uma tradição antiga, quando o gênero não era restrito a canções carnavalescas: até a chegada da primavera era comemorada através de canções. Para o artista, é necessário mais espaço para estas composições: “As de São João fazem falta… Tinha marchinha até de Natal”, ressalta, citando “Anoiteceu”, de Assis Valente”.

Kelly sugere que as marchinhas carnavalescas resistiram ao tempo por não serem datadas. “Alô, Alô, Gilmar”, seu trabalho mais recente envolvendo essa data, não trazia nenhuma referência à festa e, apesar da crítica, não foge da ironia considerada por ele necessária neste gênero. “Tem que ter uma pimentinha”, sugere. Por este motivo, critica o politicamente correto, o que, em sua visão, caminha para o exagero. Ainda assim, destaca que nem os blocos temáticos ignoram esses trabalhos: “Acho que carnaval é para todo mundo. No meio das músicas, sempre tocam marchinhas. Dou a maior força!”, elogia, dizendo ser fã desse tipo de desfile.

“É uma verdadeira loucura! Foram os jovens que trouxeram o carnaval de rua de volta. Cheguei ao ponto de fazer um show na segunda-feira de carnaval, no começo dos anos 1980, e na volta, quando virei na Avenida Atlântica, quase chorei. Estava toca escura, sem nenhum trompete ou tamborim, nada que lembrasse carnaval, Até os bares estavam vazios”, compara, afirmando ser frequentador dos desfiles: “Quando dá vontade, vou como anônimo, mas sempre me reconhecem”.

Apesar de deixar claro não ser compositor apenas desse gênero, Kelly reconhece que esses retorno por parte do público em meio a eventos populares. “A maior alegria de um compositor é ver o povo, em uma manifestação popular, cantando. No meu caso, gosto ainda mais quando estou no meio. Quando ouvi ‘Cabeleira do Zezé’ pela primeira vez no Municipal, eu nem sabia que era sucesso. Quase desmaiei quando ouvi o maestro tocando”, lembra.

Mesmo com tantas lembranças do passado, Kelly mostra ter muitos planos. Além de estar animado com a possível repercussão da “Marchinha da Copa”, ele afirma que há muitas novidades surgindo, apesar de ainda não ter nada específico em mente. “Para quem gosta de marcha política, há muitas críticas no Brasil. A coisa do Lula pareceu um filme. O país está vivendo um momento bonito, isso é coisa da democracia. Melhor que se estivéssemos no regime da ditadura. Quem fala que vivemos uma agora não conheceu esse lado politicamente. Foi bom pela ordem, mas eu não poderia lançar a música do Gilmar. Se eu fizesse ‘Alô, Alô, Delfim’ (em referência ao ex-ministro Delfim Netto, que se mostrou favorável ao AI-5)… Nossa senhora! Se eu desse para a Emilinha (Borba, cantora de maior prestígio da era de ouro do rádio) cantar, iríamos os dois presos. Nem o disco sairia”, diz, comparando os momentos da época e o atual. Entretanto, ele garante nunca ter tido problema com a censura: como já sabia o que seria proibido, fazia seus trabalhos de uma maneira considerada inofensiva, apesar do humor irônico.

Em junho, Kelly completa 80 anos e deve comemorar com um show na Sala Baden Powell, onde cantará seus sucessos e a “Marchinha da Copa”, que estará acontecendo (a apresentação ainda não tem data definida, mas como seu aniversário é no dia 24, ela deve acontecer em algum dia próximo). Sobre a nova idade, faz questão de compartilhar o segredo de tanta saúde: “É uma receita que os médicos gostam: acordar cedo, caminhar no calçadão, dieta balanceada, evitar álcool e dormir cedo. É tudo o que não faço”, diz, rindo, antes de continuar: “Hoje, levo uma vida normal. Se me chamam para uma noitada, estou dentro”. Ainda assim, ele acredita que é a religiosidade é o que mantém na ativa: “Um homem sem fé é um barquinho a deriva. Sou um homem prudente que já foi boêmio, mas nunca deixei de ter fé. Deus não priva de nada. Cada um sabe o que pode fazer”, finaliza.