O jogo de peteca nas areias de Copacabana ainda atraem diversos seguidores. É o caso dos clubes Peteca Carioca da Paula Freitas e Clube de Peteka Livre Duvivier, que se reúnem todos os finais de semana e feriados para disputarem partidas acaloradas. Apesar de a modalidade ter desaparecido em vários pontos da orla da Zona Sul, esses grupos conseguem manter viva essa tradição, que começou no Rio de Janeiro.

Para o presidente do Peteca Carioca da Rua Paula Freitas, Ricardo Aguiar, manter o exercício nas areias cariocas é de extrema importância. “Quando eu soube que os grupos estavam acabando, parei de praticar outros esportes. Comprei a rede e me dediquei à modalidade. Hoje, prefiro esta a qualquer outra aqui na praia”. Nesse contexto de revitalização, serviu de exemplo e exportou as medidas de sua rede especial para a implantação de uma quadra de areia no Clube Pinheiros, em São Paulo. “Não existe outro lugar que se jogue como aqui”, comenta.

Uma dificuldade apontada pelos praticantes é encontrar para venda o item principal do jogo: a peteca. Para preservar a tradição, vários deles consertavam as antigas. Atualmente, com a dedicação de alguns jogadores, elas começaram a ser feitas artesanalmente, conta o presidente da Associação de Peteca Livre de Ipanema, Ony Coutinho. “Cada uma dura em média um mês porque a pena estraga. Agora, estamos atraindo admiradores que estão aprendendo a técnica”, explica. Ony completa ressaltando que joga há 40 anos: “A prática, que chama a atenção de quem assiste a uma partida, motiva o fã. É preciso ter uma renovação porque é algo genuinamente carioca e faz parte da história e da cultura do país, afinal, é herança dos índios”, explica.

Para o integrante do Clube de Peteka de Praia Duvivier, Paulo Coutinho, que é irmão de Ony, o estilo do jogo, a irreverência e os benefícios para o corpo e a mente transformam a atividade em um estilo de vida. “É a mescla de recreação com esporte competitivo. É bom para distração porque ocupa a cabeça e diminui o estresse. Aqui nós competimos, fazemos amizade… É um clima de família”, afirma.

Indicado para todas as idades (o pai de Paulo e Ony segue jogando aos 95 anos), a prática é repassada a cada geração e combina elementos de várias atividades. “Não dá para comparar. O vôlei é cadenciado, o tênis é individual… aqui tem um parceiro que, como diz aquele ditado, ‘não deixa a peteca cair’”, brinca, entusiasmado, Aguiar, que continua os elogios: “é animado, ao ar livre e estimula os dois lados do cérebro porque tem que ter reflexo. O jogo é com força, mas também com jeito porque para fazer o ponto, por exemplo, você pode apenas rebater na quadra do adversário”.

Geralmente, a partida é composta por duas duplas. É permitido somente um toque por qualquer uma das mãos e o ponto é feito quando a peteca cai no chão do adversário. Já na forma livre, como é praticada no Posto 2, não há redes. “Nesse estilo de jogo a peteca é mais leve porque a quadra é menor, tem 13m e jogam de três a quatro pessoas em cada lado. O objetivo é acertar o corpo e ‘fazer a medalha’, marcando no peito do adversário para ‘quebrar a defesa’ ou simplesmente devolver, como no frescobol”, explica Ricardo.

A importância histórica e cultural da atividade inspira os praticantes de Copacabana. A visibilidade começou na Olimpíada de 1920, na Bélgica, quando os nadadores jogavam no aquecimento antes das competições. Passados quase 100 anos, os brasileiros reinventaram o modo de fazê-lo. Ony compara o valor de Copacabana com o esporte. “A peteca nasceu junto com o bairro e nunca falam deste esporte, é uma vergonha”, lamenta, citando a falta de atenção dada ao assunto.

Entre os que integravam as equipes no passado, estavam nomes conhecidos como o proprietário do Cassino da Urca, Joaquim Rolla; o porteiro do Copacabana Palace, Joaquim Caneato; e o membro da “Turma dos Cafajestes”, Mariozinho de Oliveira”. Estes e outros petequeiros compunham os times da Associação da Peteca Livre de Ipanema, no Posto 9; do Peteca Carioca da Rua Paula Freitas; do Clube de Peteka de Praia Duvivier; dos grupos dos postos 5 e 6 de Copacabana, da Rede Maluí e outros muitos grupos que conglomeravam amantes do esporte pela orla carioca.

Nos dias atuais, a Peteca Carioca da Paula Freitas mantém seus treinos e encontros descontraídos aos sábados, domingos e feriados, das 10h30m às 14h, na altura da Rua Paula Freitas. A prática com o Clube de Peteka de Praia Duvivier começa às 10h nos mesmos dias. Já a Associação de Peteca Livre de Ipanema não tem horários fixos e os confrontos são marcados em situações especiais.

 

Texto: Catarina Lencioni.