A realidade da população em situação de rua é alvo de discussão frequente em reuniões de associações de moradores, do Conselho Comunitário de Segurança Pública e em grupos nas redes sociais. Há quem alegue que estas pessoas vivem ao relento por omissão do Poder Público; este, por sua vez, defende que o acolhimento compulsório é proibido e que, portanto, ninguém pode ser obrigado a aceitar ajuda. Nesse contexto, há ainda grupos que alegam que essa rejeição ocorre devido às más condições dos lugares para onde eles são levados. Para conhecer essa realidade, a equipe do Jornal Posto Seis visitou o Abrigo Plínio Marcos, em São Cristóvão, onde teve a oportunidade de conferir a situação do local.

O Plínio Marcos tem capacidade para 50 pessoas e atende majoritariamente homens – dentre seus residentes temporários, há também mulheres transexuais e travestis. Localizado há cerca de 200m das estações de trem e metrô, o local é de fácil acesso: basta seguir os ônibus parados no ponto final (embaixo do viaduto) e atravessar a rua. Apesar da visita ter sido previamente autorizada pela assessoria da Secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos (SMASDH), a data e o horário não foram repassados à direção da casa, o que permitiu conhecer o local conforme ele opera em seu dia a dia. Apenas os banheiros não foram conferidos, já que devido à grande quantidade de moradores, não houve momento algum com todos desocupados.

O refeitório é em frente à cozinha, que estava bastante limpa na ocasião e com forte cheiro de comida bem temperada. Naquele dia, estava sendo oferecido um churrasco aos acolhidos, que se reuniram na porta do abrigo, situado em um canteiro arborizado e com vista para a Quinta da Boa Vista, mas o cardápio das refeições servidas diariamente é planejado por uma equipe de nutricionistas e os alimentos, armazenados em uma dispensa no próprio endereço. Ali, são guardados todos tipos de mantimento, inclusive sucos e biscoitos de marcas conceituadas (servidos no lanche).

Os horários dedicados à alimentação são fixos e devem ser cumpridos; entretanto, tornam-se flexíveis para casos individuais e em situações excepcionais, como quando a pessoa já está no mercado de trabalho e precisará chegar depois. A rigidez das regras é uma das razões que justificam os abandonos. Ninguém é obrigado a permanecer em nenhuma das unidades: as portas ficam abertas e o entra-e-sai de moradores é constante. Eles não precisam ao menos informar onde vão ou a hora que voltam, mas devem informar quando houver necessidade de passar a noite fora (muitas vezes isso acontece por motivos profissionais), já que, se não fazem isso, entende-se que eles abandonaram o programa.

Os dormitórios assemelham-se a hostels. Refrigerados com aparelhos de de ar condicionado (ligados somente à noite, segundo a direção da unidade), eles são mobiliados com beliches e armários numerados, a fim de garantir que cada pessoa fique com espaços pré-determinados. A seleção de onde cada um vai dormir é realizada através de um critério bastante simples: quem possui algum problema que dificulte ou impossibilite a subida para a de cima fica na de baixo. Os colchões e travesseiros são forrados com lona, o que facilita a higienização, e, quando estão em uso, também com a roupa de cama lavada periodicamente no próprio local, em um dos espaços dedicados a isso (o outro é destinado ao uso dos próprios abrigados, que têm autonomia para usar as máquinas em suas próprias roupas). Quando o acolhido, por motivos de saúde, não consegue realizar esse trabalho, a função é destinada à mesma funcionária que lava as toalhas, os lençóis, as fronhas e outros itens que pertencem ao abrigo.

Nesta lavanderia, há também escaninhos com mudas de roupas para as pessoas que estão de passagem pelo abrigo. Em um lado, ficam as que compõe o “kit básico” entregue no ato da chegada: nas ruas, muitos vestem as únicas peças que possuem e ali recebem camisetas, calças, roupas íntimas, sapatos e o que mais for necessário. Há itens para todos os tamanhos e doações são bem-vindas, já que muitas pessoas vão embora levando os itens e nem sempre a reposição acontece na mesma velocidade. Elas podem ser entregues no próprio local e o que não for aproveitado naquela unidade é encaminhado para outras. No outro lado, ficam os trajes sociais, emprestados em ocasiões de entrevistas de emprego.

A inserção no mercado de trabalho acontece por diversos meios. Além de serem oferecidos cursos profissionalizantes, desde janeiro o decreto 44.228/18 determina que 5% das vagas de empresas conveniadas com a Prefeitura sejam destinadas a ao público assistido pela Secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos (SMASDH), evitando que eles percam as oportunidades por questões como preconceito (segundo a direção da casa, ao apresentarem comprovante de residência informando que eles vivem em abrigos, muitas portas costumam ser fechadas). Essa reserva de vagas, no entanto, não se aplica aos serviços que exigem certificação profissional específica nem, no caso de apenados em regime semiaberto e aberto, aos serviços de segurança, vigilância e custódia.

Uma vez contratados, a partir do segundo mês os usuários da rede de abrigos tornam-se aptos a participar do programa EmancipaRio, lançado na véspera da visita ao Plínio Marcos. Trata-se de um benefício de R$400 entregue durante seis meses (prazo que pode ser ampliado por mais seis) através de aluguel social para essas pessoas serem impulsionadas a conquistarem sua independência e privacidade, desde que atendam determinados pré-requisitos como ser maior de idade, estar vinculado ao mercado formal ou informal de trabalho, manter-se comprometido com o acompanhamento social nesse prazo e não receber ajuda de outro programa de transferência de renda municipal. Há casos até de aproveitamento na mão de obra da própria unidade.

Antes desse encaminhamento à vida independente fora do abrigo, entretanto, cada acolhido precisa passar pelos trabalhos desempenhados pela SMASDH. Quando eles chegam, é traçado para cada um plano de desenvolvimento individual, uma vez que é necessário avaliar qual a carência daquele cidadão. A permanência média dura entre seis e nove meses, mas há casos que exigem mais tempo, como o de um dos abrigados que precisou de uma prótese em uma das pernas. Ela foi custeada pela Prefeitura, que também viabilizou as sessões de fisioterapia na ABBR, mas apenas após cerca de um ano o beneficiado começou a ganhar autonomia com a peça. Todos, independente de diagnóstico, passam por sessões com uma dupla responsável pelo acompanhamento psicológico – há diversos profissionais que se dividem entre os acolhidos, garantindo que cada um sempre seja atendido pelos mesmos e criando familiaridade entre eles. No caso de necessidade de tratamento de dependência química, os adictos são referenciados na rede de saúde pública, mas essa continua sendo o principal motivo de reingresso nos abrigos.

Apesar do foco na independência para as pessoas recomeçarem suas vidas, também há opções de lazer para distrair os abrigados durante suas permanências na rede da SMASDH. No Plínio Marcos, há uma sala onde são realizadas festas em ocasiões especiais. Há ainda uma sala onde acontecem festas em ocasiões especiais. Nela, há também uma grande TV equipada com aparelho de DVD, onde eventualmente são exibidos filmes para os acolhidos. Entretanto, a diversão não é restrita ao endereço: a programação de passeios é vasta e oferece aos abrigados muitas primeiras vezes em alguns lugares.

Apenas em março, eles visitaram o Centro Cultural da Caixa Econômica, o Museu do Amanhã e a Fundação Eva Klabin, mas outras saídas recentes os levaram a um piquenique na Quinta da Boa Vista, ao Parque Madureira, à Praia da Urca, ao Parque do Penhasco Dois Irmãos, ao Parque da Cidade (em Niterói), à Ilha Fiscal e ao restaurante “Gastromotiva”, no Centro. As fotos costumam ser publicadas em uma página no Facebook, cujo endereço não pode ser tornado público para preservar as identidades dos beneficiados, mas cujas fotos mostram também serviços como a visita de um voluntário que esteve no abrigo arrumando os cabelos e fazendo as barbas de todos e a participação dos abrigados em uma oficina de adereços de carnaval. Tudo fica registrado para, no futuro, as recordações desses bons momentos estejam lá guardadas também através das imagens.