Cada vez mais as “lives” ganham espaço no entretenimento da população, confinada devido ao isolamento social. Essa forma de lazer, apontada como acessível a todos, têm chamado a atenção devido a um detalhe no canto da tela: a legenda em Libras presente em muitas delas. Tal recurso, previsto por lei, é ignorado em outras produções e até nos shows online de muitos artistas, o que impossibilita surdos de se divertirem da mesma forma que os demais espectadores.

Nomes como Luan Santana, Marília Mendonça, Simone & Simaria, Maiara & Maraísa, Anitta, Zeca Pagodinho, Péricles, Fábio Jr., Xande de Pilares, Alexandre Pires, Daniel, Maria Rita, Thiaguinho Manu Gavassi, Bell Marques, Alexandre Pires, Raça Negra, os intérpretes de algumas das escolas de samba do Grupo Especial do Rio de Janeiro e até o canal infantil Mundo Bita foram alguns dos que promoveram inclusão em seus trabalhos, evidenciando que tal possibilidade pode ser concretizada, ainda que muitos insiram as janelas com o intérprete em tamanho menor que o previsto pela ABNT, impossibilitando o acompanhamento por parte do público-alvo. Essa opção, entretanto, foi ignorada por um número de artistas igualmente grande, o que impossibilitou o acompanhamento por parte dessa parcela do público.

Luana Gomes Lima (Foto: Acervo pessoal)

A repositora de supermercado Luana Gomes Lima, que é surda, não pôde acompanhar algumas exibições:  “Foram as únicas que não consegui porque a maior parte dos artistas que gosto tem tido intérpretes”, aponta, traduzida por seu irmão, já que ela não é fluente em português, o que reforça a necessidade da versão em Libras nos vídeos. “Na escola, até temos contato com este idioma, mas no dia a dia da comunidade surda, ele acaba sendo esquecido”, justifica, explicando, entretanto, conseguir acompanhar vídeos com legendas, apesar de sentir dificuldades com algumas palavras.

Apesar de ter assistido diversas apresentações, ela critica a qualidade da tradução em algumas: “Acho que faltou preparo ou ensaio para transmitir a emoção que a música passa”, opina. Em sua visão, a ausência da interpretação em Libras se deve por falta de conhecimento do quão importante esse recurso é: “Os artistas desconhecem que têm fãs surdos e que curtem as músicas deles”, analisa, questionando, ainda, a falta dos intérpretes nas apresentações ao vivo: “Se alguns artistas estão colocando nas “lives”, por que nos shows não pode ter?”.

A professora de Libras Pamela Carvalho, que também é surda e foi entrevistada com seu marido como ouvinte, critica o tamanho das legendas. “Muitos artistas ainda têm utilizado janelas menores (que o determinado pela ABNT)”, aponta, mencionando não conseguir acompanhar as exibições por este motivo. Ela não menciona nenhuma artista, apesar de destacar que todos os que gosta inseriram tal recurso, mas diz acreditar que a ausência desse cuidado se deve à falta de conhecimento, de consciência e de informação em relação a esta parcela da população, prejudicada também em outras produções – fluente em português, ela aponta assistir muitos filmes, principalmente na Netflix por causa das legendas em tempo real, mas pouco assiste televisão devido ao atraso nos textos produzidos pela tecnologia “close caption” (sistema que indica, de forma escrita, todas os sons reproduzidos em uma produção em vídeo).

Roberto Lima (Foto: Acervo pessoal)

A relação dos surdos com a música é explicada pelo tradutor intérprete Roberto Lima:  “É um fator que precisa ser pensado, já que eles não estão ouvindo. É preciso transpor os elementos melódicos para o corpo. A letra é traduzida para propiciar a emoção que nós, ouvintes, sentimos ao receber a combinação ‘melodia e letra’ em nossos ouvidos. Os surdos recebem as mesmas informações mediante os olhos e a emoção”, explica, mencionando a questão legal por trás da inclusão: “A Libras é uma língua reconhecida em território nacional através da lei  10.436, de 24 de abril de 2002. Ou seja, através dela e da regulamentação, realizada através do decreto 5.626, de 22 de dezembro de 2005, os surdos possuem o direito de receber a instrução em sua primeira língua”.

Lima continua:  “O surdo possui o direito de estar em todos os ambientes e ser atendido em sua própria língua. A dificuldade comunicacional está relacionada às regras gramaticais que existem em cada idioma. Por exemplo, no português, a estrutura que vemos na frase ‘O gato comeu o rato’ é sujeito, verbo e objeto, que sofre a ação. Na língua de sinais, ficaria ‘Gato rato comer”, seguindo o padrão sujeito, objeto e verbo. Isso significa que, por se tratar de uma língua espaço-visual, a Libras não possui  os mesmos marcadores gramaticais da língua portuguesa, não apresentando artigos, conjugações verbais, entre outros”.

Em relação ao tempo necessário para interpretar uma “live” em Libras, o profissional explica que o processo é simultâneo, diferente de quando é necessário fazer tradução, que exige maior tempo de dedicação, pesquisa e elaboração. Devido à facilidade em realizar a interpretação, ele critica a ausência de tal recurso nas “lives”: “Me sinto muito incomodado. É sabido que a grande maioria deles não adiciona a legenda de Libras por uma questão de estética. Há o preceito de que ela ‘mancha’ ou destoa da apresentação, ou até mesmo que o intérprete irá dividir a apresentação do público, fazendo com que o artista ‘perca’ seu plano primário de apresentação. É necessário que os produtores entendem que a legenda não é um favor, uma modinha, uma caridade, nem mesmo assistencialismo. É um direito garantido que está sendo desrespeitado”, protesta, complementando: “Existe uma norma da ABNT a ser seguida. Ela regulamenta como as legendas devem ser executadas, porém, muitos não se preocupam em respeitar”.