Em abril, o Leme completa 126 anos. Para celebrar a data, o Jornal Posto Seis destaca alguns espaços que ainda existem e ajudam a relembrar o passado – e em muitos casos, o presente – do bairro. Confira:

Telégrafo óptico

Atualmente em ruínas, encontra-se no alto do Morro da Babilônia e é acessado através de uma trilha considerada leve. Apesar de desconhecido da maior parte dos moradores, teve papel importante no sistema de defesa da cidade, no passado, já era parte integrande da rede formada pelos fortes do Leme (cujo acesso se dava pela Ladeira do Leme), do Vigia (anterior ao Duque de Caxias, na mesma localização) e São Clemente (no entorno da Lagoa). Este último era responsável por fiscalizar a aproximação de embarcações naquela área e os outros dois repassavam ao Morro do Castelo, no Centro, as informações obtidas através de sinalizações variadas, como bandeiras, o que essa essencial em caso de possíveis invasões.

Forte Duque de Caxias

Um dos principais cartões-postais do Leme, o espaço tem suas origens interligadas ao do extinto Forte do Vigia e que tinha uma função semelhante ao do telégrafo, mas alertando a bateria que ficava no local do atual Forte de Copacabana e as fortaleza de São João, na Urca, de Santa Cruz, em Niterói. Desativado em 1791, foi novamente guarnecido, temporariamente, no contexto da Independência do Brasil. A reinauguração se deu apenas no século XX, sob o nome de Forte do Leme (mesma alcunha atribuída a outra fortificação antiga, mencionada no tópico acima). O espaço recebeu estrutura nova, composta por obuseiros Krupp, os mais modernos da éoca. Apesar de bastante potentes, não foram usados pelos contrarevolucionários da Revolta dos 18 do Forte – havia o receio de atingir as casas da região, além de alguns participantes serem favoráveis ao levante. Foi novamente desativado em 1965 e logo cedeu parte de suas dependências para o Centro de Estudos de Pessoal (Cep), um estabelecimento de ensino do Exército. Atualmente, é aberto para visitação.

Reservatório do Leme

Quem vê uma casinha amarela na encosta do Morro do Leme não imagina estar vendo um dos maiores erros de engenharia do governo do então estado da Guanabara. Construído em 1962 como uma solução para a falta d’água que era constante na região, era prometido que o reservatório abastecesse o Leme e a região do Lido durante três dias, o que nunca aconteceu por erros no projeto: ele era alto demais, o que inviabilizava a chegada da água, mesmo com bombas, visto que o Leme é final de ramal e já nao recebia vasão suficiente. O pouco que alcançava o local não era suficiente para gerar a pressão necessária para levar do líquido as casas. Foi incorporado ao Forte Duque de Caxias e, no imaginário popular, à paisagem, visto que diversas gerações nasceram com aquela construção sobre a pedra, sem sequer imaginar o motivo dela (ainda que os canos, ainda instalados, deem uma dica sobre a função original).

Paróquia Nossa Senhora do Rosário

Construída entre 1929 e 1939, é o local certo para encontrar os católicos do bairro, que costumam frequentar as missas principalmente aos domingos. Foi construída após grande união popular, já que o dinheiro veio de recitais, quermesses e coqueteis, além de doações de senhoras da alta sociedade. Foi parcialmente inaugurada em 1931, quando já passou a funcionar, apesar de ainda não estar pronta. Com o passar dos anos, foi escolhida como endereço para as missas de sétimo dia da atriz Cacilda Becker, quando mais de 200 artistas, como Bibi Ferreira, Eva Todor, Glauce Rocha, Tônia Carreiro e Clóvis Bornay lotaram a nave para prestar homenagens póstumas à colega; do cartunista Henfil e do seu irmão, o compositor Chico Mário (que não foi o imortalizado na música de Elis Regina). Até os dias atuais, conserva, nos fundos, um convento dominicano. Apesar de tombada, foi reformada e teve sua fachada descaracterizada em 2017 com a instalação de esquadrias de vidro em sua fachada e a demolição de parte de seu muro.

Casa da Mrs. Coney

Não é a construção mais antiga nem foi habitada pela moradora mais ilustre, mas a antiga residência de Marguerite Coney atrai olhares na Rua General Ribeiro da Costa e está diretamente ligada ao desenvolvimento do bairro. A inglesa chegou ao Brasil para em uma escola que não aceitava crianças brasileiras. Tal segregação a levou a fundar, em 1919, sua própria instituição de ensino, que posteriormente foi obrigada a abandonar devido a um decreto do presidente Getúlio Vargas, já que seu marido era da Itália, nação inimiga do Brasil na Segunda Guerra Mundial. Logo, Marguerite passou a dedicar seu tempo tricotando roupas para as crianças das comunidades do Leme e promovendo bazares, em sua própria residência, em benefício delas. Após ficar viúva, fundou ali mais uma escola, proporcionando oportunidade de aprendizado no próprio bairro e tornando-se referência na assistência a pessoas com necessidades específicias em uma época que inclusão ainda não era uma pauta recorrente na sociedade. O parque infantil, aberto para o público aos fins de semana e nas férias, foi a primeira atração para esse público no bairro, que não contava com nenhuma praça com brinquedos. O imóvel funcionou como escola até 2002, quando as atividades foram encerradas. A maior parte do complexo ainda era original, já que se tratava de um local tombado. A proteção, entretanto, nao foi suficiente: o local foi destombado em 2007 e, então, parcialmente demolido para a construção de um edifício-garagem. Apenas a própria casa principal resistiu.