O novo livro do jornalista Mauro Franco atraiu o interesse da mídia lusófona. Lançado em junho, “Marimbás do Posto 6” tem a Colônia de Pescadores de Copacabana como pano de fundo para a trama, o que levou o jornalista Igor Lopes a produzir uma entrevista com o escritor, divulgando o título na Europa. Confira, abaixo, a entrevista publicada pela agência Agência Incomparáveis.

Como surgiu a ideia do livro?
“Marimbás do Posto 6” é um projeto literário que teve como base o princípio do ano 2000, uma época em que o desaparecimento de crianças e adolescentes assustava em demasia a sociedade. Um pouco antes, na década de 1990, a novela de Glória Perez, “Explode Coração”, trouxe à tona o tema e, mostrando diariamente fotos de crianças desaparecidas, ajudou no encontro de mais de 70 jovens, no Brasil. Lançado esse ano, 2020, o livro traz uma nova reflexão sobre esse tipo de crime associado a um dos mais graves problemas mundiais que é o tráfico de pessoas por diversos motivos.

Qual é o estilo?
Trata-se de um romance policial no qual a originalidade da não eleição de um detetive estereotipado para permanecer como figura invencível de futuros enredos é posta em prática. Para isso, é inserida na trama a figura de uma estudante de jornalismo, moça de origem humilde que se esforça para mudar seu destino através dos estudos, que não teme riscos e consequências. Utilizando metodologia dos grandes detetives da literatura ,ela passa a ajudar na resolução do enredo.

Qual é a história?
O assassinato de uma adolescente nas areias do Posto 6 de Copacabana, no Rio de Janeiro, quebra a tranquilidade daquele bucólico local. O crime, que tinha de tudo para ser perfeito, é testemunhado por um casal de moradores, peças-chave para solucionar aquele mistério. Ao longo da busca por respostas, tramas variadas se desenrolam, como a da jornalista Rosa, sagaz nas deduções intricadas; Antônia, vítima de violência doméstica que precisou prostituir a primogênita para conseguir botar comida na mesa de casa; Pascoal, detetive que jamais esqueceu seu grande amor do passado; e muitos outros.

Questões como exploração de menores e tráfico de órgãos desenrolam-se ao longo da narrativa, pincelada com influências de religiões de origem africana, homenageadas em breves citações; e que também destaca a rotina dos marimbás, os profissionais que vivem da pesca, e o dia a dia da colônia dos pescadores, com recortes de momentos como a chegada dos barcos após as saídas para o mar e até algumas histórias de pescador, que não podiam ficar de fora.

O que pretende passar com o livro?
O engajamento do público com escritores de sua própria região. Com a globalização do mercado literário, promovendo mais nomes tarimbados internacionais, e a maximídia impulsionando apenas os que a interessam, os leitores são induzidos a consumir o que a máquina manda. O Brasil passa pelo momento da moda literária. Nunca foi assim. Temos escritores atuais e de outrora surpreendentes. Portanto, devemos valorizar nossa cultura fomentando o público com títulos variados e de qualidade.

Além disso, o “Marimbás do Posto 6” chama a atenção da sociedade e do poder público para o desaparecimento/sequestro de pessoas, incluindo menores. São diversos os motivos. A maioria está relacionada com violência doméstica e maus tratos, que os levam a fugir de suas próprias residências. A fuga consensual, comum entre adolescentes que estão namorando, e o sequestro por um dos responsáveis também fazem parte das causas. Os casos mais difíceis, porém, referem-se aos desaparecimentos vinculados com exploração sexual e até mesmo tráfico de órgãos humanos.

Segundo a agência Observatório do Terceiro Setor, a cada hora, em média, o Brasil registra oito desaparecimentos de pessoas. De 2007 a 2016, foram 693.076 boletins de ocorrência por desaparecimento e, de acordo com a ONG Mães da Sé, 40 mil crianças e adolescentes somem anualmente em todo o Brasil. Os estados do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais detêm os maiores índices de notificação.
Cerca de 15% dos desaparecidos, conforme o Portal dos Direitos da Criança e do Adolescente, geralmente com menos de sete anos, jamais reencontram suas famílias. Os dados são mais alarmantes quando se juntam à pesquisa da Youth for Human Rights – juventude para os direitos humanos.pt – cujas estimativas chegam a ter 1,2 milhão de crianças traficadas por ano (Fundação das Nações Unidas para a Infância, 2007).

Onde será lançado?
Devido a pandemia do COVID-19 ainda não foi marcada a noite de autógrafos. Meu desejo era que acontecesse na própria colônia dos pescadores, no Dia de São Pedro (29 de junho), padroeiro dos homens do mar. Infelizmente teremos que aguardar.

Onde pode ser comprado? On-line? Vende para Portugal?
O livro pode ser comprado através de duas plataformas:
Versão impressa: www.clubedeautores.com.br
Versão digital na Amazon. Também está disponível para o Kindle Unlimited
Pela Amazon o livro está disponível em Portugal e outros países.

Qual é o preço?
A versão impressa custa R$47,21 (em torno de 8 Euros). A versão digital sai por R$16,50 (em torno de 2,90 Euros).

Tem outros livros publicados?
Sim. Possuo mais três livros: O primeiro é o “Conversa de Botequim – crônicas do Barão do Posto 6”, lançado em 2003 que reúne “causos” e piadas contadas nos bares de Copacabana, que dei forma literária. São histórias divertidas, com personagens simbólicos da boemia carioca. O botequim, antes de ser um espaço físico, é um estado de espírito. Pura filosofia popular.

O segundo é o “Tempo Incerto”, lançado em 2017. Um romance ficção que mostra que nada é tão poderoso quanto o destino. Nessa trama, o protagonista nunca imaginaria que numa noite de festa no Parque Lage (um lindo espaço público no bairro do Jardim Botânico) sua vida iria mudar radicalmente. Mistura de ficção e realidade, a história, com muita ação, aventura e paixão, transporta o leitor a momentos de descontração e também reflexão sobre o destino, através do Rio de Janeiro atual e do passado.

O livro “Tempo Incerto” deu desdobramento para a continuação: “Tempo Incerto 2 – Não Faça Isso!”. Nesse, apresento uma história fantástica sobre a paixão arrebatadora de dois jovens que vivem em tempos diferentes: Sandra, uma moça do século XI e Cauê, um índio do século XVII. É uma trama encantadora que prende o leitor do princípio ao fim.

Que significado tem para você a literatura?
A literatura possui a peculiaridade de transformar a realidade a partir da perspectiva do autor que utiliza a palavra como seu instrumento de interpretação. Atualmente, com o advento do audiovisual presente em todas as plataformas digitais garantindo o entretenimento efêmero, a busca na simplicidade da escrita, envolvendo todos os gêneros e meios de comunicação, precisa ser cada vez mais explorada pelos escritores na busca de envolver todo tipo de leitor. Longe de conceitos, a formação jornalística transforma minha escrita em um estilo despojado e sem pretensão a estruturas pré concebidas.

Fale sobre a colônia dos pescadores, no Posto 6…
Esse é mais um lugar mágico que podemos encontrar em Copacabana. O que dizer de um espaço que inspirou tantas músicas de Dorival Caymmi e poesias de Carlos Drummond de Andrade? Considero a colônia dos Pescadores a “joia da coroa” de Copacabana. É um local no cantinho do bairro, contornado pelo mar e pelas pedras, que reúne os marimbás, moradores, turistas, em um clima bucólico e sempre aprazível. As canoas, que adormecem sob o luar, as redes de pesca penduradas e os utensílios utilizados na pesca, são os elementos que compõe aquele cenário cinematográfico.

Quando a manhã acorda sonolenta na colônia, as primeiras cores do dia, que despontam antes mesmo do sol nascer, criam um fenômeno lindo, como uma aurora, somente vista em Copacabana pelos amantes vespertinos, esportistas e pescadores.

Qual é a sua ligação com o bairro de Copacabana?
Copacabana é minha casa, literalmente. Nasci e me criei na região, que sempre foi um manancial de entretenimento e cultura. Apesar de ser um bairro muito populoso e com diversos problemas sociais, é considerado pela maioria dos moradores como um local à parte onde todos se conhecem, se socializam e se divertem. Fiz daqui meu reduto não só familiar, onde criei meus filhos, mas também meu espaço profissional. Em 1996 idealizei o jornal de bairro chamado Posto Seis, que engloba todo o bairro de Copacabana. Deixei todas as minhas atividades e me dediquei, junto à minha esposa, a produzir um periódico que fosse o porta-voz dos moradores. Através do jornal criamos associações comunitárias, estimulamos os clubes de serviço, exigimos do poder público melhores condições de educação, saúde e transporte na região e, principalmente, conseguimos contribuir com o desenvolvimento do comércio local, gerando mais emprego e renda. Durante esses anos criamos campanhas comunitárias para ajudar creches e escolas nas comunidades carentes com material escolar e cestas básicas, além de motivar a abertura e manutenção de biblioteca popular.
Minha vida é totalmente dedicada a essas ações no bairro.

De onde é natural?
Sou do Rio de Janeiro, como dito anteriormente, nascido em Copacabana.

Na trama, você fala sobre o assassinato de uma adolescente nas areias de Copacabana. O bairro, apesar de famoso internacionalmente, é visto pela população do Rio de Janeiro como um local de delitos e roubos, sobretudo a turistas. Como enxerga essa situação?
Esse é um problema que aflige as principais capitais turísticas do mundo, mas, lamentavelmente, fica mais evidente em países em desenvolvimento. Temos tido uma melhora na questão da segurança pública. No caso do Rio de Janeiro, alguns projetos para melhorar a segurança já foram implantados como o “Policiamento Comunitário” em alguns bairros da cidade, encerrado pouco tempo depois. Atualmente novos programas como o “Segurança Presente”, pelo Governo do Estado e o “Rio + Seguro”, pela Prefeitura, estão em atividade em apoio aos batalhões das áreas. Contando com o apoio e cooperação das comunidades onde atuam, tem se mostrado eficientes na questão da segurança pública em geral. É evidente, contudo, que precisamos melhorar muito mais.

Como está o bairro hoje em dia?
Bem melhor. Esses projetos, mencionados na pergunta anterior, aliados com o incessante trabalho do Batalhão de Policiamento em Áreas Turísticas, realizado pela Polícia Militar, tem trazido mais segurança as regiões de maior potencial turístico. Porém, a falta de uma complementação de atuação em conjunto nas áreas mais carentes que se inserem no corredor turístico como implantação de creches e escolas com ensino integral; apoio de fato no amparo das pessoas que não possuem acesso à cidadania pela assistência social; saneamento básico e uma política real de pacificação são requisitos básicos para que esses programas não se tornem efêmeros.

Quem é Mauro Franco?
Um sujeito carioca (risos). Praia, jogo de vôlei, mar, cervejinha gelada, bate papo com os amigos. no final de semana não podem faltar. Sou jornalista e turismólogo, editor dos jornais Posto Seis, de Copacabana, e VIA, também da Zona Sul do Rio. Incentivador das artes plásticas, tendo realizado exposições de datas comemorativas da cidade, entre outras celebrações. Pela contribuição às artes, recebi reconhecimento de vários órgãos, inclusive em Portugal. Participo ativamente de movimentos sociais cariocas, sendo agraciado pela cidade do Rio de Janeiro com o conjunto de Medalhas de Mérito Pedro Ernesto. Sou membro da Academia Brasileira de Belas Artes e da Académie de Lettres e Arts Luso-Suísse.

Por fim, que mensagem deixa para os leitores?
É necessário aproveitar esse momento, que modificou nossas vidas, para refletir sobre a importância da solidariedade. De uma hora para outra nos isolamos nas nossas próprias casas e percebemos quantas coisas temos que não usamos, tampouco precisamos. É um momento de dividirmos nossos apegos materiais para multiplicarmos a esperança de quem precisa.

Também seria interessante que os organizadores dos grandes eventos literários, que devem acontecer ainda esse ano, como a Feira do Livor de Lisboa, de Frankfurt, de Guadalajara, Bienal de São Paulo, entre outras, organizassem um espaço em memória, a todas as vítimas do COVID-19 e salas de debates. Essa pandemia trouxe consequências sociais, econômicas, científicas e políticas que precisam ser compreendidas por todos.

Por que devem comprar o seu livro?
Acredito que o “Marimbás do Posto 6” vai ocupar seu espaço no gênero policial não só pela escrita envolvente e direta, apreciada pelos amantes dessa área, mas também pelo apelo social que instiga. A capa do livro é outro ponto que precisa ser destacado. A imagem principal é uma pintura (óleo sobre tela) do artista plástico Cassimiro, realizada exclusivamente para compor a obra. A composição ficou por conta do designer André Dorigo, considerado um dos mais completos na área de criação. Sua sensibilidade em relacionar, com sombras e elementos vermelho-sangue, o ambiente bucólico do cantinho do Posto 6 com o clima policial da história, deu uma dramaticidade nas cores vivas da pintura. O detalhe da folha solta, voando, como acento agudo, é uma alusão à despedida da vida.