O comércio de vinis segue vivo em Copacabana. Há cerca de um ano, a loja Garimpo Discos oferece vasto acervo na Rua Barata Ribeiro, atraindo o público saudoso do som das vitrolas e conquistando novos ouvintes. Além do comércio dessas mídias, o espaço, mantido pelo DJ Sérgio Martins, permite ainda que os clientes conheçam cada exemplar, proporcionando a todos a experiência de escutar cada um dos mais de 12 mil títulos.

“Há um pouquinho de tudo”, aponta o proprietário, destacando, entretanto, a ausência de certos nichos que não são alvo de muita procura como orquestras e infantil. Outros, como rock e MPB, ganham bastante destaque, mas não são exclusividades: nas prateleiras, pode-se encontrar desde o registro da passagem de Frank Sinatra pelo Brasil até mídias para DJs com uma faixa só, em versão estendida, permitindo novas versões nas pistas de dança. Até uma unidade de “Pietro Bô”, de Cildo Meirelles, está na loja: a capa é considerada uma obra de arte, avaliada em galerias de arte.

O público da loja também é diverso: Sérgio aponta que o endereço é visitado por todas as faixas etárias acima dos 20 anos. “Um novo público está se formando. Essas pessoas estão conhecendo esse mercado e voltando a investir. O pessoal que já cresceu com os discos vem certo do que quer achar. O jovem pede informações. É uma troca constante. Aprendo mais com os clientes que eles comigo. Como fui DJ, meu foco eram as pistas de dança”, comenta, palpitando sobre o sucesso da mídia: “A qualidade da gravação é melhor. O som dos CDs tem muitos médios e agudos e poucos graves”. Ele aponta também que a parte visual é outro atrativo: “Os discos têm encarte com a ficha técnica. Às vezes, citam as músicas incidentais. Atualmente, no mercado digital, não se sabe mais quem é o vocalista, o baixista… Essa curiosidade está sendo trazida a tona”. Segundo o DJ, as unidades que vêm acompanhadas deste material são mais valiosas.

A visão é reforçada pelo interesse dos clientes: “O trabalho gráfico das capas é uma arte”, analisa Gustavo Costa, que visitava a loja pela primeira vez. “Comprou um toca-discos porque fiquei com pena dos discos do meu pai. Ninguém iria ouvi-los mais”. Sobre a experiência, reitera a opinião de Sérgio: “Eles têm um som mais cheio, mais encorpado”. Em meio à busca, surpreendeu-se com um achado que lhe remeteu ao seu próprio passado: “Esse foi o primeiro disco que comprei na vida. Pode botar para eu ouvir?”, pediu ao proprietário, segurando a unidade que segue lhe encantando.

Este tipo de solicitação é bastante comum entre os frequentadores do local, que, em breve, deve ganhar um espaço de convivência com direito a venda de bebidas. O sofá e as poltronas já estão lá, acompanhados do equipamento que pode ser usado para conhecer cada vinil e atestar a condição de conservação de cada um. Recentemente, Sérgio investiu em um maquinário ultrassônico para limpar cada disco, ajudando a conservar ainda mais cada unidade. Os cuidados vão além da manutenção: alguns fabricantes atuais estão fora do catálogo da loja devido à baixa qualidade do som, se comparada à das prensagens originais.

Em meio ao estoque, há raridades, como uma edição numerada do “The White Album”, dos Beatles, lançada no Japão, além de outros títulos distribuídos naquele país e adquiridos há pouco tempo. Eles faziam parte do acervo da Satisfaction Discos, que funcionava no Centro. Com o fechamento, cerca de 7 mil unidades foram arrematadas pela Garimpo Discos, que também adquire artigos levados até o local. Pouco tempo atrás, todos os discos que o cantor Jerry Adriani mantinha em sua residência até seu falecimento, em 2017, foram arrecadados. “Era o que ele gostava de ouvir”. Outra coleção chegou no dia da entrevista, esta mesclando trabalhos de Cauby Peixoto, Jacob do Bandolim, Roni Von, Dóris Monteiro, entre outros. “Aqui na loja temos muita coia boa. Tem rock’n roll, MPB conceitual, tropicalismo, bossa-nova…”, enumera o proprietário.

Apesar do foco nos discos, o espaço também oferece aos clientes livros com temáticas relacionadas à música. Dentre os títulos, há materiais sobre Ary Barroso, Raul Seixas e Dorival Caymmi, que se misturam a outros com temáticas voltadas ao heavy metal e ao rock progressivo, entre outros gêneros. Os CDs, apontados no passado como sucessores dos vinis, ocupam algumas das prateleiras, mas a previsão de validade que dominou o mercado fonográfico entre as décadas de 1990 e 2000 é descartada por Sérgio: “O vinil é mais duradouro. Se comparado a CDs, resiste mais tempo. Tenho aqui discos de 1969 que estão perfeitos”, ressalta. Essa característica parece ter sido descoberta pelos ouvintes: de acordo com números da Associação Americana da Indústria de Gravação (RIAA, em inglês), houve aumento de 12,9% na receita dos vinis nos Estados Unidos entre os primeiros semestres de 2018 e 2019, enquanto a venda de CDs permaneceu estável. Com base nesses dados, se a tendência continuar, o comércio das bolachas devem ultrapassar o dos CDs em 2019, o que não ocorre desde 1986.

A Garimpo Discos fica na Rua Barata Ribeiro, 370, loja 223.