Luiza Lunardi

      Há dois anos, a cantora, compositora, agitadora cultural e moradora de Copacabana Rosângela Soares abriu um bar na Lapa. Há quatro meses, ela, que atende pelo nome artístico de Rosângela Si, decidiu disponibilizar o espaço para shows, peças de teatro, desfiles de moda, exposições, saraus de poesia e outras atividades que agreguem a cena cultural da cidade. Desde então, o Palco Lapa 145, nome da casa que ocupa um sobrado antigo na Rua da Lapa, recebe artistas que não tenham incentivos e locais para apresentarem seus trabalhos.

     Hoje, Rosângela tenta transformar seu estabelecimento em um Espaço Cultural de acordo com as normas vigentes. “Se conseguirmos, vamos poder ter um café, como outros lugares da cidade. Ter um patrocínio é tudo que a cultura precisa, eu sonho com isso”, conta, animada. A ideia de abrir um local para receber os mais diversos tipos de artes surgiu por conta das opções variadas que o bairro já apresentava. “A verdade é que existe uma realidade, dos Arcos da Lapa para lá, que é diferente da vivenciada dos Arcos para cá. Enquanto lá temos diversas casas de shows, bares caros e baratos, e rodas de samba em cada esquina, essa parte de cá é mais tranquila, não tem muito movimento. Só que temos muito potencial também, mas as pessoas não conhecem. Minha intenção é fazer o público vir até aqui e revitalizar a área”, afirma, decidida.

     Apesar de o ambicioso projeto estar funcionando, a proprietária do Palco Lapa 145 confessa que seu sonho era ter aberto o espaço em Copacabana, bairro que faz seu coração palpitar. “Meu sonho seria um ponto lá, pertinho de casa”, declara, reforçando seu amor pela princesinha do mar. “Eu nasci em Campo Grande, mas sempre disse que queria morar em Copacabana. Quando tive a oportunidade, me mudei. É o bairro que eu escolhi para viver e que me acolheu. Já me falaram que a Barra da Tijuca é melhor, mas não tem jeito, eu não saio de Copacabana por nada. É perfeito para quem é artista”, garante.

Créditos: Divulgação

      O coração de Rosângela pertence ao bairro da Zona Sul, mas o corpo tem estado grande parte do tempo na Rua da Lapa. A programação do bar é cada vez mais intensa, e exige a presença obrigatória dela, que se desdobra para dar conta de tudo. “As terças-feiras, temos microfone aberto, então vem gente que canta, toca e recita poesia. As quartas são do jazz, as quintas do rock e do blues. As sextas variam: temos baile charme, rap e MPB, depende do dia. Em dois dos quatro sábados do mês ainda não estamos com programação fechada. Mas nos sábados em que a programação é fixa, temos brega e forró”, descreve a proprietária, adicionando que quase sempre os shows são gratuitos. “No máximo, eu adiciono um ou dois reais no preço da cerveja, pra ajudar na passagem dos músicos”, conta.

     Além dos dias com música, outras atividades também são realizadas no local, tais como desfiles de moda (já foram dois, segundo Rosângela), brechós, peças de teatro, um projeto de visibilidade para transsexuais e exposições de arte (a atualmente exposta no salão é do artista plástico Edson Zédiin, que mistura colagens, peças de arame e pinturas). Durante os espetáculos teatrais, a dona do bar costuma cobrar entrada para o público. “Nada muito caro, normalmente R$10 ou R$15. Metade fica para os artistas”, aponta.

     Recentemente, surgiu também a ideia de ofertar cursos a preços populares. Com o apoio de seu produtor, Osvaldo Thomé, Rosângela Si anunciou que o Palco Lapa 145 terá aulas de violão e cinema. Enquanto os princípios básicos que regem a sétima arte serão lecionados pelo cineasta cubano Antonio Molina, as lições de violão serão de responsabilidade do próprio Osvaldo. “Criamos o curso de violão para que seja acessível. A arte está no mundo para curar a alma, e não é justo que seja restrita somente a quem pode pagar caro por isso”, comenta o músico e produtor.

Créditos: Divulgação

     Pensando na valorização da música brasileira, um dos pilares que regem o espaço, no dia 6 de junho é a vez de uma cantora lírica subir ao palco, interpretando grandes nomes da música clássica nacional, como Chiquinha Gonzaga e Heitor Villa-Lobos. “A música, principalmente a clássica, tem que ser desmistificada, precisa ir para o povo”, completa Osvaldo Thomé.

     Quando não está tomando conta do império cultural que aos poucos se forma, Rosângela gosta de aproveitar as maravilhas que sua vizinhança oferece. “Gosto bastante de ir à praia, mas por causa do trabalho, só consigo ir de manhãzinha”, relata. “Eu adoro a pracinha do Bairro Peixoto também, a festa junina de lá é ótima! Adoro a vista do alto do Morro do Tabajara. Tenho um terreno lá, adoro ir para observar a cidade. Além disso, não posso me esquecer do Parque da Chacrinha, da Praça Serzedelo Corrêa e do Forte, que tem uma programação de eventos muito legal”, lembra.

     Mesmo quase sem tempo para aproveitar a programação de Copacabana, bairro que tanto ama, a proprietária do Palco Lapa 145 segue feliz com a escolha que fez. Entre brechós, obras para a adaptação do espaço, peças de teatro e muita música, Rosângela Si se diverte. “Meu amor pela arte me fez montar isso daqui, é ele que me move”, finaliza.