A destruição do calçadão da Praia da Macumba devido às ações do mar viraram notícia recentemente. Apesar de o episódio ter acontecido distante da orla da Zona Sul, isso era bastante comum em Copacabana antes do aterro e, mesmo com o afastamento do mar do passeio e dos edifícios, o mar mostrou não ter perdido sua fúria em algumas ressacas recentes. As mudanças na faixa de areia no bairro principalmente nos últimos 15 anos, somadas com as alterações no próprio mar ocasionadas pelo aquecimento global, podem trazer graves consequências aos postos 5 e 6 de Copacabana, onde o passeio corre riscos. Uma solução para reduzir os transtornos – e até trazer benefícios – seria a construção de um recife artificial, solução que foi discutida também para a Macumba em uma audiência recente na Câmara Municipal.

O oceanógrafo David Zee reforça o alerta ao explicar como as mudanças climáticas afetaram o comportamento das marés. Segundo ele, no outono e no inverno, as frentes frias vindas da Região Sul, ao margearem o litoral do país rumo ao Rio de Janeiro, altera a entrada das ondas, que passam a vir do sudoeste. Nesse ano, as frente frias subiram em alto mar, provocando o fenômeno da ressurgência. Por este motivo, as ondas entraram nas praias da cidade vindas do sul e do sudeste, comportamento esperado na primavera e no verão e que tem se repetido por mais de 12 meses – o que também justifica as baixas temperaturas da água durante o ano inteiro.

De acordo com o oceanógrafo, esse padrão resulta na entrada de ondas do sul e do sudeste, o que varre o lado esquerdo das praias e assoreia o direito. Por este motivo, ele aponta que caso o fenômeno continue a tendência é encurtar ainda mais o Posto 6 de Copacabana, podendo atingir o calçadão como houve na Macumba, onde os 300 metros de calçada destruídos estavam localizados no canto apontado como ameaçado. “Há risco de Copacabana se desestabilizar naquele pedaço”, comenta. Apesar da maior força delas nesse período, Copacabana fica protegida por causa das pedras no Forte de Copacabana, diferente do que ocorre com a entrada do sul ou do sudeste. “Elas incidem perpendicularmente na praia”, explica, mostrando a ausência de proteções naturais garantindo a integridade da parte urbanizada.

No final de maio de 2016, o vereador Carlo Caiado (DEM) apresentou uma indicação legislativa solicitando a instalação da medida em Copacabana e na Macumba. O parlamentar destacou, na ocasião, que a Prefeitura de Maricá já havia realizado um projeto para ser implantado no município no qual uma placa metálica semelhante ao casco de uma tartaruga provocaria a quebra das ondas longe da praia, aliviando os estragos causados na orla em dias de ressaca e trazendo menos riscos aos banhistas. A justificativa de sua proposta antecipava os transtornos que podem vir a ser causados pelo mar, além de mencionar os benefícios da proteção da faixa de areia nos lugares onde a estrutura seria implantada.

Menos de duas semanas após a ação do vereador, uma forte ressaca atingiu Copacabana: ondas com mais de 4m alcançaram até a pista de rolamento dos carros. Até o estúdio montado para jornalistas estrangeiros trabalharem durante a Olimpíada foi afetado. Quatro meses depois, outra ressaca causou transtornos no Leblon, também no lado esquerdo da praia. Ondas alcançaram os edifícios, inundando até mesmo algumas garagens. Um trecho do calçadão chegou a desabar – a queda foi atribuída ao peso dos tratores usados para retirar areia do local.

Estimulado pelo tema em pauta nos noticiários, o parlamentar retomou a discussão em outubro deste ano ao promover uma audiência pública sobre o assunto. Nela, profissionais diversos – inclusive Zee – discutiram o tema, com foco na Macumba. Apesar de Copacabana não ter sido o alvo do encontro, as mudanças nesta praia também foram mencionadas. Um dos aspectos abordados foi o fim dos dissipadores naturais da força do mar. Esse tema foi levantado pelo professor Paulo Cesar Colonna Rosman, que explicou ser natural a faixa dinâmica costeira ser erodida em determinadas épocas; porém, ela deveria ser recuperada em outras, o que a natureza não está fazendo.

“Onde a vegetação chega, o mar alcança a cada dois anos. Mais para trás, nas plantas mais robusta, chega há cada cinco. Onde são mais encorpadas, há cada dez. A tendência foi construir onde elas começam, mas em briga com o mar, não há hipótese de ganhar”, explicou. Essa flora citada existia em Copacabana antes do urbanismo dominar a região. A restinga se estendia até a altura da atual Av. N. Sª de Copacabana e foi desmatada na medida em que as construções surgiram. Nesse contexto, a Avenida Atlântica foi aberta em meio à areia, sem que a força do mar em ocasiões excepcionais fosse levada em consideração. Por este motivo, fortes ressacas eventualmente destruíam o calçadão e inundavam as garagens subterrâneas dos edifícios. Há relatos
até de marolas alcançando a Praça Serzedelo Correia, em 1963.

A solução encontrada para afastar o mar foi o aterro feito na década de 1970. Segundo o estudo “História geomorfológica da Praia de Copacabana ao longo do século XX e análise preliminar da subida do nível do mar”, publicado pelo Laboratório de Geografia Marinha da UFRJ também em outubro, antes da intervenção, a praia tinha média de 55m de largura. Após o recebimento de 90m de areia, passou a ter 145m. O mesmo estudo aponta que, atualmente, a média é de 73m – cerca de metade do que fora projetado. Além da diferença ao longo dos anos, é notório que a faixa de areia no Posto 6 é muito menor que no Leme, apesar de nem sempre ter sido assim: na ocasião do acréscimo, a distribuição das dragas garantiu que toda a orla recebesse aproximadamente a mesma quantidade de material.

A indicação de Caiado também defendia os benefícios que a instalação de um recife artificial traria ao esporte e, consequentemente à economia. Esse aspecto também foi lembrado na audiência, onde o engenheiro costeiro Luiz Guilherme Morales de Aguiar mencionou a instalação de fundos artificiais destacando a melhora da economia ligada ao esporte, destacando que esse tipo de estrutura, além de ser uma solução para os problemas naturais, também traz benefícios à cidade. “A onda atenuada pelos recifes não transporte areia. No Taiti, os recifes proporcionam arrebentação perfeita para o surf, com estouro antes e consequente dissipação”, mencionou, citando que essa dispersão proporciona melhor balneabilidade aos banhistas, que ficariam livres da força das ondas quebrando perto da areia. Morales ressaltou que o projeto-piloto de Maricá foi orçado em R$14,5 milhões, mesmo valor estimado para a nova reconstrução da Macumba – o calçadão já fora destruído em outras ocasiões, o que gerou mais despesas aos cofres públicos.

Esse desdobramento dos recifes artificiais já era apontado como benéfico para Copacabana há 20 anos, quando o fundador da ONG Organização Nacional de Desenvolvimento de Arrecifes Artificiais (Onda), Helmo Carvalho, apostava que o bairro poderia receber campeonatos mundiais de surf, como ocorre no Havaí, graças a essa estrutura. Na época, ele apontava que as ondas já existiam, mas por estourarem em fundo arenoso, não eram propícias à prática – além disso, conforme Morales assinalou, a areia grossa usada no aterro, oriunda da Enseada de Botafogo e do entorno da Ilha de Cotunduba, no Leme, e bastante diferente da original de Copacabana, é ainda pior para os surfistas.

Os reflexos do desenvolvimento do surf já trouxeram melhoras econômicas para diversas cidades como San Diego, nos Estados Unidos; Sidney, na Austrália; Bali, na Indonésia e Jeffrey’s Bay, na África do Sul. Em Copacabana, o novo perfil de turistas poderia também movimentar a vida noturna no bairro, atualmente sem força. Em 2004, essa ideia chegou a ser discutida para ser implantada na Praia da Macumba, visando conter a erosão que agora destrói o calçadão e melhorar as ondas para os surfistas. Na data, foi assinado um termo de compromisso entre a Coppe/UFRJ e a Fundação Rio Águas, mas, em 2011, a assessoria da Rio-Águas declarou ser necessária elaboração de programa básico, com modelagem hidrodinâmica e monitoramento de ondas e correntes para a validação dos estudos.

Outra modalidade beneficiada seria o mergulho. Atualmente, a cidade possui poucos pontos de mergulho, sendo que quase todos exigem saídas de barco, o que encarece a atividade. O fundo artificial serviria de criadouro de peixes, como na cidade de Kovalan, na Índia, o que também beneficiaria a Colônia de Pescadores Z13, no Posto 6, bastante prejudicada pelas mudanças climáticas, pela poluição e pela pesca de arrastão. Reportagens mostram que o emissário submarino de Ipanema funcionou como um recife artificial nesse aspecto, atraindo uma enorme quantidade de peixes e invertebrados. Até raias-mantas foram identificadas no local, mesma espécie protegida na Indonésia desde 2014 devido estudos que mostraram o quanto o turismo gerado pela observação desses animais gera de lucro ao país. Entretanto, a mudança do perfil do esgoto despejado (antes, composto majoritariamente de material orgânico e atualmente, constituído também de produtos agressivos ao meio ambiente, poluentes e de baixa decomposição) prejudicou a atividade, pois a água, antes límpida (com exceção da boca por onde os dejetos são despejados) e cristalinas, tornou-se turva e suja, fazendo restar apenas a Praia Vermelha como opção de mergulho com saída da areia.

Para o jornalista Mauro Franco, que acompanha há anos o desenrolar de uma possível implantação do recife artificial em Copacabana, é fundamental que os estudos avancem. “A construção seria fantástica para a defesa do meio ambiente, além de alavancar a economia da cidade com os benefícios que traria. Antes, quando falávamos dessas estruturas no fundo do mar, pensávamos apenas em benefícios para o surf, o que já seria fantástico. Porém, depois de vários estudos, verificou-se que a impulsão no turismo marítimo seria formidável, além da questão da proteção costeira e melhoria da balneabilidade. Considero que implantar recifes artificiais em pontos necessários da região costeira é engendrar novas formas de reequilibrar a economia do Estado.

A instalação de fundos artificiais é normatizada pelo Ibama através da Instrução Normativa número 22, dentro de uma faixa de cerca de 370 quilômetros a partir da linha costeira. No Brasil, as cidades de Búzios (no Rio de Janeiro) e São Sebastião (em São Paulo) já possuem fundos artificiais, construídos com o intuito de preservar a fauna e a flora marítima das regiões.