Av. N. Sª de Copacabana em foto publicada pelo @rioantigo

Em julho, o Instagram bateu a marca de 1 bilhão de usuários. A rede social se popularizou pelo compartilhamento de imagens e pela velocidade das informações, geralmente restritas a legendas curtas, mas, em meio a selfies e influenciadores digitais, alguns perfis dedicados à história da cidade destacam-se por transformar aquele canal em uma fonte de informações históricas, com textos extensos e repletos de conteúdo.

Uma é a Rio Antigo, fundada há oito anos pelo advogado Daniel Sampaio. “Desde criança eu gostava de história e de andar pela cidade, mas quando comecei a trabalhar no Centro, passei a andar muito. Foi na época que surgiram os telefones com câmera. Eu saía e ficava fotografando as fachadas. Um pouco depois veio o Instagram, por volta de 2011. Desde o começo tive o meu próprio, onde eu só postava fotos do Rio antigo. Um dia, em junho de 2012, parei para almoçar no Paço Imperial e tive a ideia. Comecei a alternar fotos antigas e novas”.

Há cerca de um ano, o criador decidiu dedicar-se melhor ao perfil, que, atualmente, reune 139 mil seguidores. Para garantir mais postagens, ele convidou nove voluntários a se juntarem ao time, agora composto por ele, outros dois advogados, uma professora de gastronomia, duas historiadoras, uma cientista social, um publicitário e dois estudantes, um de engenharia civil e outro de direito. “Nossa pesquisa não envolve metodologia científica. É a sociedade interpretando a história. A gente tenta fazer um padrão de linguagem que atenda a todos. A intenção não é só trazer relatos históricos, mas também redescobrir memórias afetivas e curiosidades”.

O conteúdo, publicado em textos, agrada aos leitores. “Existe uma ideia de que o Instagram é uma rede só de fotos e legenda curtinha. A gente tem tentado não levar os textos ao limite de caracteres, mas nem sempre dá”, ressalta, continuando: “Recentemente, uma das redatoras, a Luana Ferreira, que é guia de turismo e historiadora, fez um post sobre as lendas urbanas do Rio. Ela escolheu três: a do Arco do Telles, a do Castelinho do Flamengo e a do Convento do Carmo, que tem histórias meio assustadoras. Não tinha como, ela teve que chegar ao limite, e a repercussão foi incrível!”, lembra, mencionando, ainda, que os maiores textos são dedicados ao blog mantido pelo grupo.

Detalhe de rua do Morro do Castelo, mostrado por @morrodocastelo

Outro perfil que também se dedica a levar conteúdo àquela rede social é o Morro do Castelo,  dedicado  exclusivamente a esse espaço, marco de fundação da cidade – e , ironicamente, mantido por um morador de Brasília, Jeovane Cazer. “Há anos sou fascinado pelo Morro do Castelo, sua história e seu desaparecimento. A ideia foi sem pretensão alguma. Sentia falta de algum lugar na internet onde fosse possível visualizar as imagens da antiga colina, nossa Acrópole, e ao mesmo tempo, fosse possível ler textos interessantes e informativos”. Com o isolamento social, surgiu o pontapé necessário para levar a ideia adiante: “Foi a oportunidade de colocar a ideia em prática”.

A escolha pelo Instagram se deu exatamente pelo apelo visual da rede: “O perfil une a imagem e a palavra para realizar uma narrativa e contar uma história, a do Morro do Castelo. Nesse sentido, por ser viabilizada em uma plataforma tecnológica de massa, entrega o conteúdo de forma mais rápida para muito mais pessoas que, por exemplo, um livro ou uma tese acadêmica fariam”, analisa, sem descartar a possibilidade de, futuramente, transformar sua pesquisa em um estudo, um romance ou mais uma publicação histórica.

Dentre o público atingido, estão jovens, adultos, idosos, professores, escritores, historiadores, arquitetos, artistas, memorialistas, boêmios, páginas dedicadas ao turismo e à história e curiosos em relação ao Rio antigo no geral. Para Jeovane, a recepção tem sido muito boa: “Os seguidores estão curiosos. Um desses comentários afirmou que, com o perfil, descobriu que o ‘Castelo’ que ele tanto ouvia falar, do famoso ônibus ‘Castelo’, se referia a um monte que existia ali. Outro disse que é fascinado e citou que o pai brincava nos destroços dele, na Rua São José. Outro enviou “print screen” de um livro recém-adquirido em razão de um texto publicado, onde fizemos referência de tal obra. Tem sido gratificante ver a resposta do público, uma vez que eu não esperava que tantas pessoas se interessassem. A interação é muito importante!”.

As citações bibliográficas estão presentes em todas as postagens, publicadas, em média, duas vezes por dia de segunda a sexta, frequência essa que muda conforme a disponibilidade de Jeovane, que mantém o perfil sozinho enquanto não firma parceria com novos colaboradores. “Pesquiso muitas imagens e leio muitos textos, geralmente acadêmicos, reportagens de jornais antigos, sites, etc, e produzo um arquivo com esse material. A minha preocupação é adicionar um conteúdo que  acrescente algo além da  imagem e procuro sempre dar os créditos”, menciona, continuando: “Acho importante o leitor criar sua memória a partir do item iconográfico e do texto, uma vez que em se tratando de construção de uma narrativa, estamos falando também de interpretação e ficção. Memória e ficção compõe o campo de atuação do escritor e me considero um”, aponta, mencionando ser formado em Letras-Tradução pela Universidade de Brasília. “Um exempo é a lenda dos tesouros do subterrâneo do Morro do Castelo. Onde está a verdade?, conclui.