Muito se fala sobre as dificuldades enfrentadas por um deficiente físico em realizar tarefas corriqueiras, como embarcar em ônibus ou circular pelas calçadas, mas pouco se discute sobre os obstáculos enfrentados pelos que desejam frequentar a praia. Contrariando a falta de acessibilidade do litoral carioca, a nadadora Danielle Mendes Gilson destaca-se no projeto Natação no Mar, em Copacabana, mostrando que, com a boa vontade dos parceiros, sua condição não é um empecilho para a prática da atividade.

“No começo, vinha de muleta e facilitava para andar na areia, mas as pessoas que me ajudam acharam mais prático eu vir de cadeira de rodas”, comenta a moça, que necessita da colaboração dos demais nadadores do projeto para realizar a atividade. O percurso para chegar na areia não é simples: primeiro, Danielle precisa encontrar uma vaga para estacionar seu carro depois, driblar os buracos nas calçadas e a falta de rampas ao calçadão nas imediações do Posto 6, onde o projeto acontece (e onde o mar é mais calmo, o que o torna mais convidativo para pessoas com necessidades especiais) – a última fica perto na esquina da Rua Francisco Sá, a cerca de 350m da tenda do projeto. Depois, é necessário ajuda para chegar na areia, já que as escadas de acesso do calçadão a ela não têm corrimão e, naquele ponto em especial, a passagem é parcialmente bloqueada por vasos de planta. Já na praia, a falta de uma esteira torna impossível a locomoção na cadeira de rodas e o acesso ao mar.

No Rio, essa estrutura é disponibilizada pelo projeto Praia Para Todos, que desde 2009 é montado sazonalmente. As últimas edições aconteceram em Copacabana e na Barra da Tijuca, reunindo atividades diversas. “Ele é ótimo e nos dá acesso, mas só em um ponto da praia. É ótimo, mas a Prefeitura deveria dar estrutura em todos os postos, como acontece na Europa”, sugere Danielle. Apesar da associação com o Velho Continente, seu desejo já é quase uma realidade em algumas localidades brasileiras – entretanto, caso a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência fosse cumprida, deveria ser em todas, já que o texto determina que cabe ao Poder Público promover o acesso de pessoas com esse perfil a atividades esportivas e recreativas.
Os exemplos ainda são poucos no Brasil e foi exatamente essa dificuldade de desbravar o mar que atraiu Danielle ao Natação no Mar, em 2010. “Encaro minhas vindas como um desafio. Conversando com amigos cadeirantes, constatei que eles podiam fazer muitas coisas, mas o mar ainda era uma limitação”, aponta, enumerando ainda outras dificuldades como a falta de um ponto de apoio onde essas pessoas possam deixar suas cadeiras de rodas, assim como a ausência de um profissional garantindo a integridade delas durante os banhos de mar.

A falta de sanitários adaptados na orla também é apontada como um obstáculo: “Muitos cadeirantes fazem cateterismo (vesical, para drenar a bexiga). Eles não podem fazer xixi na água, como muitas pessoas fazem, e os banheiros dos quiosques não são acessíveis”, queixa-se a nadadora, apontando as escadas que levam aos pavimentos inferiores. Apenas os instalados nos postos de salvamento podem ser usados por esse público, mas, em Copacabana, apenas o 5 (em frente à Rua Sá Ferreira e distante 500m da tenda do Natação no Mar) é situado em região onde o mar tende a ser permanentemente calmo – os outros são situados em lugares onde nem sempre a balneabilidade é propícia para pessoas com deficiências devido às ondas que estouram muito perto da areia.

As demandas mencionadas já deveriam ser de conhecimento dos órgãos competentes. Em 2015, a norma técnica de acessibilidade NBR 9050 incluiu em seu texto questões que abrangem praias, como a largura mínima adequada para as rampas de acesso, o modelo de sinalização adequado (nos moldes internacionais) e até detalhes de como deveria ser o banheiro perto de cada estrutura dessas.

Enquanto as praias cariocas não se tornam acessíveis aos cadeirantes durante o ano inteiro, algumas soluções já adotadas com sucesso em outras partes do mundo poderiam servir de exemplo. Em diversos lugares, até mesmo no Brasil, há empréstimos de cadeiras anfíbias e rampas, mas o modelo mais acessível é o adotado pelo resort Sirens (www.disableds-resort.gr), na cidade grega de Loutraki. Ali, as esteiras conduzem até alguns metros dentro do mar, percurso esse acompanhado por corrimãos, o que ajuda também quem caminha com dificuldades. Uma vez dentro d’água, até mesmo pessoas sem nenhum movimento no corpo conseguem aproveitar a balneabilidade, já que elas boiam graças aos coletes salva-vidas – ali, a ausência de ondas permite esse tipo de atividade sem riscos. Para voltar, o funcionário do hotel, que fica na rampa cuidando da cadeira de rodas adaptada para a atividade, ajuda o banhista a se sentar novamente e o conduz até a areia. Apesar de tamanho avanço, para Danielle, uma simples rampa já facilitaria sem acesso à praia.