A natação tem se firmado como um esporte cada vez mais procurado por pessoas que já passaram da juventude. O expressivo número de competidores acima dos 50 anos em campeonatos expõe o sucesso dessa modalidade entre essas pessoas: apenas na edição mais recente do Rei e Rainha do Mar, foram 255 competidores em categorias acima dos 50 anos, o que correspondeu a quase 32% do total de inscritos. O Jornal Posto Seis conversou com alguns desses atletas a fim de conhecer o que os atraiu à atividade. Os motivos são variados, mas todos são unânimes ao destacar a melhoria que trouxe para suas saúdes.

Foto: Arquivo Pessoal

Oneide Di Marco, 4º lugar da categoria entre as mulheres entre 70 e 74 anos, é experiente na prática. Nascida em Carolina, no Maranhão, aprendeu a nadar ainda bebê. “Com 1 ano, eu já atravessava o Rio Tocantins com um talo de buriti. Era nossa boia. Meus irmãos viravam barcos nas enchentes, junto com as cobras. Tínhamos que aprender a nos defender”. Quando a menina fez três anos, a família se mudou para o Rio e Oneide continuou nadando. “Treinei uma época na Praia de Botafogo, mas nadava também na Baía de Guanabara. Não tinha nem pixe”, recorda-se, mencionando não ser fã de piscinas: “Gosto de água corrente, de mar, rio, cachoeira…”.

Foto: Arquivo Pessoal

As competições surgiram em sua vida quando a nadadora conheceu o grupo Natação no Mar, em Copacabana, onde passou a apreciar os torneios. “Já nadei acho que 6 ou 7km. Sempre ganhei a minha faixa etária, tenho várias medalhas. Agora ganhei 10kg e não consegui perder, aí me sinto cansada. Parei de competir, mas me inscrevo apenas para participar”. A natação, além de uma paixão, é também um uma maneira de manter sua saúde: “ Tenho diabetes tipo 2, hérnia de disco lombar, artrose na cervical e parece que também nos joelhos…  Tenho vários problemas, então o único exercício que posso é esse. Já joguei basquete, caminhava muito, fazia muitos alongamentos. Nunca gostei de academia, mas sempre participei de tudo ao ar livre”. Mesmo durante o isolamento, ela tem se mantido ativa: “Não posso parar, sou diabética. Tomo remédio e minha glicose não passa de 110 ou 112mg/dL, mas com o exercício, controla. Vou cedinho, às 6h. Vou de máscara e óculos”, aponta.

Outros benefícios foram sentidos por Carlos Rubens Cardoso, que disputa com competidores entre 65 e 69 anos: “O maior de todos foi que consegui pagar de fumar”, celebra, mencionando a evolução da capacidade pulmonar. “Por tabela, comecei a fazer academia, o que melhorou minha massa muscular, muito importante na minha idade”. Ele nada no mar há três anos, após um longo intervalo, depois de largar as piscinas, e participa do grupo Natação no Mar, preparando-se, inclusive para todas as competições: “Os professores fizeram uma esquema de treinamento específico para quem ia participar da prova”. A situação da pandemia, entretanto, lhe obrigou a parar completamente as atividades externas, inclusive esta: “Tenho obedecido rigorosamente o isolamento social, até por ser médico e ter que me expor durante os dias de plantão”, destaca, citando estar tentando manter a forma física em casa.

Já Regina Celia Alves, que compete na mesma faixa etária, aponta outro benefício: “Desde os 60 anos, a recomendação médica é de prótese no joelho. Vou fazer 70 ans dia 3 de maio e estou conseguindo adiar essa cirurgia”, comemora, atribuindo esse sucesso à prática. Essa associação foi reforçada durante o isolamento social – sem nadar, ela tem sentido mais dores que antes. Para tentar driblar a falta dessa prática, Regina tem se alongado, por conta própria, três vezes por semana, como fazia antes de entrar na água.

Daniel Benchimol, que competiu entre homens de 65 a 69 anos, também faz da natação uma terapia. “Eu tinha problemas ortopédicos e os tratamentos convencionais não funcionaram”, cita, apontando ter obtido êxito na piscina até o fechamento da academia que frequentava. Então, procurou continuar a atividade no mar: “Desde criança, eu pescava, mergulhava, saía de barco, velejava, então comecei a nadar na turma do Luiz Lima, do Gladiadores.  Sou um dos piores”, diz, entre risadas, apontando que, em paralelo, considera-se um dos melhores por nunca ter desistido.

Foto: Arquivo pessoal

Os campeonatos são, para ele, um lazer: “Vejo como uma forma de viajar um pouquinho. Vou para Búzios, aí passo um fim de semana lá… Fico mais vinculado com a geração da saúde para se preparar para a prova, o que é muito emocionante. Sempre acho que não vou conseguir concluir”. Ele estava inscrito para a etapa que ocorreria em março, mas que foi adiada devido à pandemia de COVID-19, e já vinha treinando para ela: “Sempre me preparo. Vejo qual vai ser a distância, avalio o quanto sou capaz de fazer e me preparo para além daquilo. Aí começo a nadar com mais frequência. É igual quem vai fazer uma prova de vestibular e tem que estudar mais”. Com o isolamento social, sua rotina de exercícios foi transformada em cuidados domésticos:  “Lavo a louça, varro a casa, pego uma garrafa de água mineral para fazer musculação, faço alongamento, mas obviamente não se compara. Já estou vendo uma maneira de dar uma fugida por volta das 5h para dar uma nadada escondida antes do dia clarear”, confessa.

Já Aristides Vieira Paixão, que nada com homens entre 70 e 74 anos, descobriu uma nova vida após parar de trabalhar: “Planejei, durante toda a minha vida, me aposentar. Pensava em pendurar a chuteira, em não fazer mais nada, em esperar o fim da vida, mas tudo aconteceu algo muito surpreendente.  A natação me trouxe uma coisa que eu jamais esperava que iria acontecer na minha idade. Foi algo tão bom que falo pro Sidney (Pereira), nosso treinador, que o objetivo dele é me preparar para a categoria 100+. Vou cobrar a criação dessa categoria”, promete, afirmando ser apaixonado por competir no Rei e Rainha do Mar: “é a competição que mais adoro, é uma emoção incrível! Minha esposa também nada nela. No começo, ela ia para tirar fotografia, mas agora ela nada. É uma confraternização fantástica”.

Para ele, a principal vantagem diz respeito à sua vida social: “Minha rede de amigos cresceu como nunca tive antes. Ao me aposentar, passei a ter mais que antes. Foi completamente diferente do que imaginei que seria minha terceira idade. Praticamente nasci de novo e isso faz com que eu tenha mais vontade de viver. Natação é algo fantástico no ponto de vista físico e mental. Recomendo a todos os meus amigos”. Sua saúde, entretanto, também foi afetada pela prática: “Meu cardiologista, quando me examinou um ano ou dois após eu começar a nadar, ficou surpreso com meus batimentos cardíacos. A frequência estava fantástica. Ele provavelmente não tinha nenhum paciente nadador e ficou muito feliz com isso. Me sinto outra pessoa”.

Sua esposa, Claudia Carolina Ayala Vieira Paixão, compete na categoria entre 50 e 55 anos, mas aponta que o esporte lhe ajudou a superar seu medo do mar, apesar de já saber nadar desde antes. “Eu costumo brincar que minha primeira travessia foi onde a gente tem o centro de treinamento, ali no Pontal. Tem uma primeira pedrinha bem pequena junto à pedra enorme. Minha primeira prova foi chegar nela. Lembro da emoção de conseguir nadar até ali. Depois, para retornar, foi um sufoco porque eu nao tinha mais pulmão nem braço e a equipe toda me ajudou’, lembra, continuando:

“Uma das coisas que mais me fascinam na natação, principalmente no mar, é que a gente nunca está só. Todo mundo sempre fala que é um esporte solitário e não é. Toda vez que eu treino e tenho necessidade de parar para respirar ou descansar, alguém sempre para ao meu lado e pergunta se está tudo bem e se pode seguir. A gente aprende que nunca está só. Até dentre as pessoas que a gente não conhece, nas travessias, a gente percebe a preocupação um com o outro”

Na próxima competição, Jorge Soares deve estrear em uma categoria diferente – ele chegou a se inscrever para o Rei e Rainha do Mar que seria em março como se tivesse 69 anos, mas o adiamento da prova e seu 70º aniversário, em abril, o colocarão para competir com outros atletas. Enquanto ainda desconhece como a organização lidará com seu caso, ele relembra seu passado no esporte:  “Comecei aos 51. Antes, era nadador de baldinho de praia. Quando foi o ano de 2000, minha mulher começou a forçar a barra porque ela já nadava”. Na época, o casal vivia na Barra da Tijuca, em um condomínio com piscina. A mudança para o Leblon o fez descobrir a prática em águas abertas:

“Aconteceu um fato interessante. Por incrível que pareça, embora tenha o Flamengo, o Monte Líbano, o Clube Militar, a A.A.B.B, uma série de clubes com piscina, nenhum tem vagas. Aí surgiu a história, nem sei como, de nadarmos no mar. Entramos para o grupo que tem no Posto 6, mas o problema de nadar é o seguinte: você tem que ter segurança, ou seja, alguém que nade com você. Nunca devemos nadar sozinhos. Hoje, moro na Barra. Vou diariamente dar um mergulho e não tenho coragem de passar da arrebentação. No Posto 6, há uma equipe grande, além do pessoal do stand up paddle, das canoas, os professores. Tá todo mundo ali em volta”.

Apesar de apreciar bastante a prática, Jorge não gosta de competir. “Eu me inscrevo porque acho que dá para participar, mas na hora da partida, sempre há um estresse muito grande. No meu grupo, tem garoto de 15 anos largando junto e a ideia de vencer é uma coisa natural da juventude, ao passo de que, na minha idade, só quero chegar. Estou ali para participar. Até porque, se eu for competir com garoto, você sabe qual vai ser o resultado”, diverte-se, às gargalhadas.