Em abril, o Leme completa 125 anos de fundação repleto de histórias. Separado de Copacabana em 1894, teve seu desenvolvimento inicial ligado à proteção da cidade, mas logo se tornou endereço de estabelecimentos que formaram sua identidade cosmopolita e boêmia. Até os dias atuais, reúne diversos espaços que funcionam como peças de um quebra-cabeça, mostrando que o passado e o presente dialogam e ajudam na evolução da região.

    Da antiga fortificação que deu origem à região, resta apenas o pórtico na ladeira homônima (que, devido à mudança do limite ao bairro, atualmente se localiza em Copacabana). O Forte Duque de Caxias, aberto a visitação, foi construído já no século XX, mas desde muito antes o alto do morro era usado para vigiar as embarcações que se aproximavam. O sistema de defesa era completado por um telégrafo óptico instalado no alto do Morro da Babilônia, cujas ruínas ainda existem e são o ponto alto do passeio pela trilha pela região, de onde sinalizava para o Morro do Castelo, no Centro, tudo o que era visto.

       Apesar dessa comunicação direta com o núcleo metropolitano, o Leme continuava desconhecido da população carioca. Tudo mudou em 1859, quando duas baleias encalharam em Copacabana e atraíram verdadeiras excursões, que chegavam na região através de barcos para contemplar os animais. A partir daí, o que viria a ser os dois bairros virou uma região de grande interesse do povo, o que tornou inevitável o surgimento dos primeiros negócios.

       Demorou cerca de 20 anos a partir desse episódio para o Grande Hotel do Leme abrir suas portas. Inaugurado há exatos 140 anos (antes mesmo da incorporação da área à cidade), logo passou a ser recomendado por sua “boa mesa” (além da grande oferta de bebidas variadas), mas foi através da tecnologia que ele deixou sua marca: pouco mais de um ano após a primeira ligação telefônica realizada no Brasil, a casa já tinha seu próprio aparelho, provavelmente o pioneiro de todo o entorno. A partir dele, contactava-se uma central na Rua da Passagem e se solicitava transportes à estação de bondes (puxados por burros) da Rua Real Grandeza (a ligação com Copacabana aconteceria apenas em 1892). Os animais também eram usados em passeios até a Igreja de Nossa Senhora de Copacabana, na outra extremidade e responsável por atrair fiéis à região há algumas décadas.

        O Grande Hotel do Leme também destacava-se na parte cultural. Apesar de ser destinado a questões terapêuticas (na época, banhar-se no mar era receitado por médicos para curar determinadas patologias e o estabelecimento, assim como o pioneiro no entorno (o Hotel da Copacabana), surgiu como solução para minimizar os grandes deslocamentos até o Centro, tinha um caramanchão a poucos metros do mar (a Avenida Atlântica ainda não havia sido aberta), onde aconteciam apresentações musicais.

         Essa tendência de unir shows e gastronomia persistiu nas décadas seguintes, quando a abertura do túnel na Rua Salvador Corrêa (atual Avenida Princesa Isabel) começou a movimentar a região. Apesar desse acesso, a chegada do bonde ao entorno da atual Praça Almirante Júlio de Noronha fez ser necessária a criação de um chamariz ao local, estimulando a população a usar aquele meio de transporte – os bilhetes traziam a quadrinha “Pedem vossos pulmões ar salitrado?/Correi antes que a tísica os algeme/deixai o Rio o centro infeccioso/tomai um bonde que vai dar no Leme” mencionando os aspectos medicinais da visita ao balneário, o que já era explorado desde a época do Grande Hotel do Leme. Surgia então o Bar e Restaurante do Leme (popularmente conhecido como Bar da Brahma), vizinho à estação. Os atrativos eram diversos: além dos jantares-concertos em plena orla, havia ainda uma pista de patinação e um teatro, por onde passaram espetáculos como festivais variados e apresentações musicais constantes.

         A proposta assemelhava-se à do Bar Alpino, o maior da América Latina em 1931, data de sua inauguração na Avenida Atlântica. Gerido pelo alemão Hans Krips sob o lema “Bebendo cerveja, morre-se. Não bebendo, morre-se. Devemos beber…”,  foi apontado inicialmente como um dos lugares mais alegres e econômicos para a boemia carioca passar a noite, apesar de, em seus anos finais, atrair principalmente famílias. A morte do proprietário, menos de um ano depois da construção da nova loja, gerou dúvidas sobre a continuidade do negócio, o único a servir chope preto em toda a Zona Sul e que tinha capacidade para 600 pessoas. Contra todas as expectativas, a viúva Carolina Krips assumiu o negócio. Foi na gestão dela que a casa passou a promover bailes de carnaval, trocou a orquestra bavária pelas apresentações de um pianista, “abrasileirou” o cardápio (apesar de ainda manter os pratos típicos nele) e passou por sua maior mudança: o enorme terraço com vista para o mar foi alugado e transformado no Cine Danúbio, com 250 poltronas – apesar de grandioso para os padrões atuais, comportava a metade do público do grandioso Cine Leme, que funcionava no salão hoje ocupado pelo Marius Degustare. O negócio funcionou até 1961, quando Caroline, já idosa, e seu filho, também chamado Hans, decidiram descansar da rotina de cerca de 30 anos dedicados à casa.

         O Bar Alpino foi o estabelecimento de maior sucesso a presenciar a transformação urbanística do bairro, já que quando foi aberto, os casarões dominavam a paisagem e no fim das atividades, boa parte dos terrenos já era ocupada pelos prédios atuais. Em meio a essa mudança, surgiu a Taberna Atlântica, a casa mais antiga do Leme ainda em funcionamento. Inaugurada em 1945, ainda atrai muitos moradores. A localização privilegiada, ao lado da Praça Heloneida Studart, permite que ali aconteçam eventos diversos como rodas de samba e até concentração de conjuntos carnavalescos. A tradicional Banda do Leme, que desfilou ininterruptamente entre 1970 e 1996 antes de interromper suas atividades, retomadas de maneira discreta em algumas datas posteriores, se concentrava ali. Apadrinhada em seu segundo desfile pela Banda de Ipanema, a agremiação também celebrava datas festivas relacionadas ao bairro como o aniversário de Ary Barroso, ilustre morador (que não chegou a presitigiar nenhum desfile, já que morreu alguns anos antes). Atualmente, é a Confraria do Peru Sadio quem ocupa o local a cada carnaval.

         A Taberna Atlântica é a única testemunha das mudanças, mas é o restaurante Shirley que detém a marca de estar em seu endereço original desde que o prédio em que se situa foi construído – a loja nunca recebeu outros estabelecimentos. Nomeado em homenagem à atriz norte-americana Shirley Temple, já uma adulta aposentada das artes cênicas na ocasião da inauguração do espaço, em 1954, até hoje é uma referência em pescados e crustáceos – sua vitrine, sempre cheia de animais marinhos até de grande porte, são uma atração à parte. A casa atualmente é gerida por Mário Cortez, neto da proprietária original, Estrela Sánchez. Ele planeja celebrar os 65 anos de funcionamento na data do aniversário do restaurante, em 31 de julho. Motivos para festa, não faltam: até os dias atuais, os clientes disputam cada uma das poucas mesas, dividindo espaço com clientes ilustres como o jornalista Alexandre Garcia e o vice-presidente Hamilton Mourão.

         Nesse tempo, a proibição dos cassinos, em 1946, havia modificado as noites cariocas. Com o fim dos jogos, a alta sociedade carioca viu-se sem espaços de luxo para se reunir, o que impulsionou o surgimento de boites, como a Vogue, em Copacabana. A inauguração da Sacha’s, no Leme, no mesmo ano que o Shirley chegou ao bairro, tirou este público da outra casa, transformando-a no novo “point” da cidade. Fundada pelo austríaco Sacha Rubin, foi endereço de momentos icônicos como a primeira aparição da 1ª Miss Brasil, Martha Rocha, após o concurso, e de uma apresentação da atriz e cantora Marlene Dietrich em sua vinda ao Brasil para shows no Copacabana Palace.

         O sucesso impulsionou o surgimento de outros espaços semelhantes como a Boite Arpège, aberta menos de um mês depois do incêndio que destruiu a Vogue, em 1955. Propriedade do pianista Waldir Calmon (que acompanhou, com seu instrumento, boa parte das apresentações), a casa foi palco de artistas como Chico Buarque (que fez ali seus primeiros shows de temporada acompanhado de Odete Lara e MPB4 logo após vencer o Festival Internacional da Canção com “A Banda”), João Gilberto, Tom Jobim (em cujo show o amigo Vinícius de Moraes conheceu Baden Powell, resultando na famosa parceria), Ary Barroso, Dóris Monteiro, Gilberto Gil, entre outros. Havia ainda a Drink’s, na Avenida Princesa Isabel, propriedade do músico Djalma Ferreira e um dos primeiros palcos de Wilson Simonal, revelado durante sua atuação como crooner na casa, função que exerceu por dois anos. Também recebeu artistas já renomados como Aracy de Almeida e Cauby Peixoto, que comprou o espaço e durante um show de Ângela Maria, não se conteve e subiu no palco para um dueto improvisado, o primeiro de muitos da dupla.

         No mesmo quarteirão, havia também o Bar e Restaurante Fred’s, uma das últimas casas noturnas dessa geração a fechar as portas (a Sacha’s foi vendida em 1966; a Arpège, no ano seguinte – apenas a Drinks resistiu até 1971). Em seus anos iniciais, recebeu atrações como os artistas, Sarah Vaughan e Billy Eckstine, mas logo foi comprada pelo empresário Carlos Machado, apontado como Rei da Noite e sócio no Sacha’s. Neste lugar, Machado montou grandes musicais como “Chica da Silva 63”, com Grande Otelo e Betty Faria (alçada ao sucesso neste trabalho), uma sátira a história da escrava que alcançou destaque social durante a exploração de diamantes nas Minas Gerais do século XVIII e “Rio Boa Pinta”, também com Grande Otelo, dessa vez acompanhado de Elza Soares e que comemorava os 400 anos do Rio de Janeiro abordando fatos cotidianos, hábitos e tradições dos cariocas. O maior êxito foi “As Pussy, Pussy, Pussy… Cats”, com Ary Fontoura e Rogéria (em seu primeiro grande papel), um teatro de revista com muitos palavrões e chanchadas, sem tantas plumas e paetês, ironizando as restrições impostas aos sambas-enredos das escolas de samba, que deveriam apenas mencionar passagens da história do Brasil. Sua demolição pôs fim a uma era no bairro. Até houve uma tentativa de reviver o Sacha’s, em 1993, mas a sociedade já vivia uma nova época e o Leme não era mais o mesmo.

       Apesar de as casas noturnas investirem também em gastronomia para conquistar o público, elas também resultaram na modificação do perfil dos novos restaurantes. O La Fiorentina foi inaugurado em 1957 reunindo tanto os ilustres moradores do bairro como artistas, boêmios, intelectuais e esportistas, atraídos por descontos específicos para esses perfis influenciadores, o que também atraía outros clientes. Num primeiro momento, entretanto, a aceitação não foi imediata, talvez pelo fato de o estabelecimento substituir o grandioso Furna da Onça, famoso por servir pratos da gastronomia nortista e que chegou a ter duas filiais no bairro. A primeira crise, ainda no ano inaugural, ameaçou o futuro do negócio, que logo se reergueu como um dos queridinhos dos cariocas e das celebridades.

        No princípio, o estabelecimento (assim como a Taberna Atlântica) era vitimado pelas ressacas que ainda atingiam aquela área da Avenida Atlântica. O aterro que afastou o mar dos prédios só foi feito na década de 1970 e assim que foi concluído naquele trecho, levou os proprietários do La Fiorentina a não perderem tempo ocupando o novo calçamento bastante largo do local: foram eles os primeiros a instalarem mesas e cadeiras no passeio, aumentando a capacidade da casa e criando um hábito que seria repetido por quase todos os restaurantes da orla até os dias atuais. Ironicamente, apenas dois copos que estavam nessa parte externa resistiram ao incêndio que destruiu o estabelecimento em 1987 – e que queimou também as mais de 1 mil assinaturas registradas nas paredes do local, inclusive algumas irrecuperáveis como a o presidente Juscelino Kubitschek, do poeta Vinícius de Moraes e do rei Faisal, da Árabia Saudita (mortos em 1976, 1980 e 1975, respectivamente).

        Em 1992, o La Fiorentina foi despejado, causando tristeza em seu público e nos moradores, desacostumados com a falta de movimento naquele endereço. Após projetos de mudá-lo para a Barra da Tijuca ou para um endereço próximo, o restaurante voltou a funcionar no Leme em 2000, no mesmo endereço, com seus tradicionais leões na porta, mas sob nova gestão. As paredes, que voltaram brancas, já estão tomadas de assinaturas novamente, repetindo o passado que, nos tempos áureos, contou com a concorrência da igualmente tradicional Cantina Sorrento, que também fazia muito sucesso na década de 1950 reunindo celebridades – cabia a elas escolherem uma ou outra para serem fiéis – e que ostentava o título de primeira pizzaria da cidade.

      A Sorrento ocupou uma loja na Avenida Atlântica, 290, e na década final teve como vizinha a churrascaria Mariu’s, aberta em 1982 pelo pelo empresário Mairos Santana, que aproveitava a tecnologia para produzir o churrasco perfeito. A chegada ao bairro deixou uma marca para sempre na história do Rio de Janeiro, já que em seu primeiro ano de funcionamento, produziu a primeira queima de fogos na praia, espetáculo repetido até a virada de 2000 para 2001, quando os bombeiros proibiram os rojões direto na areia (desde então, eles são estourados de balsas a 200m da orla). Quando isso aconteceu, o show pirotécnico, já espalhado até o fim de Copacabana, havia se transformado em um dos principais atrativos turísticos da cidade (e do país), atraindo milhões de visitantes anualmente. Posteriormente, ocupou também o imóvel deixada pela Sorrento e em uma loja, continuou servindo churrasco; na outra, inaugurou o Marius Crustáceos – atualmente, o Marius Degustare engloba as duas especialidades.

    Quando o Mariu’s, ainda com essa grafia, chegou ao bairro, o Leme já concentrava suas principais características contemporâneas que o diferem de Copacabana. Ao contrário da vizinha, tornou-se um lugar pacato repleto de edifícios residenciais. O comércio já estava concentrado na Rua Gustavo Sampaio, apesar de haver lojas diversas em outros logradouros como a Rua Roberto Dias Lopes. Ainda assim, a inauguração do restaurante Da Brambini mostrou que o Leme ainda tinha potencial para receber novas casas de sucesso. De portas abertas há quase 30 anos e com capacidade para apenas 40 clientes, recebeu prêmios até do Consulado da Itália, que o reconheceu como um dos melhores do mundo. Na década seguinte, foi a vez do D’Amici também chegar à região, mostrando que há espaço para todos funcionarem, mesmo com especialidades semelhantes (o que recentemente foi reforçado com mais uma cantina italiana em funcionamento simultâneo no Leme, a Pasta e Pallone).

         Nos últimos anos, foram os quiosques quem ganharam brilho, mostrando uma nova vertente do bairro. Através de festas variadas, eles têm atraído grande público principalmente aos fins de semana, quando na Mureta do Leme (de onde o pôr-do-sol faz bastante sucesso) quanto nos negócios que funcionam no calçadão. Com esses atrativos à beira-mar, eles repetem a fórmula que desde o Grande Hotel do Leme é sinônimo de sucesso: música e opções gastronômicas. O sucesso evidencia que a história se reinventou e o que já foi passado voltou a ser presente, sugerindo que o Leme ainda tem muito a mostrar.