Mytse Nogueira (Foto: Acervo pessoal)

A professora Mytse Nogueira é a única representante do Rio de Janeiro na final do prêmio “Professor Transformador”, que visa premiar pelas ações inovadoras destinadas ao ato de ensinar. Inscrita com diversos trabalhos já desempenhados com sucesso em salas de aula, a profissional, que atua em instituições de ensino de Queimados e Nova Iguaçu, já recebeu outros reconhecimentos por sua maneira de ensinar, que aproxima o conteúdo do dia a dia dos estudantes. O vencedor será anunciado no Bett Educar, a maior feira de educação e tecnologia da América Latina, que aconteceria em maio, mas foi adiada devido à pandemia de COVID-19.

O projeto selecionado, “Operação Carne Forte: Estudo dos nutrientes a partir da carne”, foi desenvolvido com alunos do 8º ano do Ensino Fundamental e surgiu a partir das notícias veículadas sobre a Operação Carne Fraca, deflagrada pela Polícia Federal, em 2017, para apurar denúncias de adulteração na carne produzida pelos principais frigoríficos do País. “A escola em questão não tem laboratório de ciências. A gente criou um em sala de aula”, cita Mytse, mencionando que só de posicionar as cadeiras de maneira diferente os alunos já costumam demonstrar mais interesse. “Quando falamos da vitamina C, fizemos uma atividade de identificá-la nas carnes, onde eram mascarada. Eles conseguiram ver e, inclusive, saber se as peças estavam estragadas ou não”, lembra. 

A ação permitiu outras abordagens, conectando o aprendizado com outros tema: “A gente acabou fazendo um link com dieta saudável. Pegamos sucos artificiais e de fruta mesmo. Eles fizeram a identificação da vitamina C e viram a diferença, notaram que praticamente não existia no artificial. Tudo por conta da análise da reportagem, que falava em mascarar carne com essa substância. Isso foi apenas um dos experimentos. Eles causaram muito interesse e os motivaram”. Para a professora, é importante associar os temas ensinados na escola com o dia a dia dos estudantes: “Cheguei na sala de aula levando os memes da época, que eles sabiam e riam. A gente brincava muito e isso chamava a atenção deles. No meu trabalho, tento, o tempo todo, vincular o ensino com a realidade, trazendo significado para a escola, que considero, às vezes, muito abstrata. Por isso que se torna chata. O aluno não consegue inseri-la na vida. Fica muito afastada. Quando a gente traz o cotidiano, consegue que ele se aproxime e se motive”. 

Coube à própria Mytse realizar sua inscrição no prêmio, que lhe chamou a atenção pela maneira de selecionar os candidatos classificados para cada uma das etapas. “Já recebi alguns outros. Por conta disso, o pessoal da minha cidade e da Secretaria de Educação, quando fica sabendo de alguma premiação, me manda o link. Eu não conhecia esse ainda, é novo, está na primeira edição. O diferencial dele é que o professor não escreve apenas um projeto e sim várias práticas que ele fez, não necessariamente só naquele ano. Cada um vai ganhando pontos, que vão se somando no processo de classificação. Depois, escolhem um. Dos que enviei, quatro foram selecionados para a segunda fase. Achei interessante porque não pega o professor em um momento que ele teve um insight e, de repente, fez algo bacana e chamou a atenção, sem que essa busca seja constante”, avalia, defendendo o “Operação Carne Forte: Estudo dos nutrientes a partir da carne” como finalista:

“Acredito que ele tenha um apelo social muito forte para desenvolver a criticidade do aluno. Esse projeto estava relacionado a uma operação da Polícia Federal, o que gerou toda uma repercussão nas redes sociais. A gente está em um momento que as pessoas tendem a analisar a sociedade o tempo todo e de maneira muito crítica. É isso que a gente tem que buscar desenvolver no aluno, até para ele saber se comportar dentro dessas demandas. Ele precisa saber se posicionar, analisar uma situação e até propor soluções. É isso que a gente espera. Esse projeto trabalha muito isso, além de outras questões, mas tem esse apelo muito forte”, ressalta.

Foram inscritos também outros trabalhos seus, como o dos “vacinal influencers” (trocadilho com “digital influencer”, que venceu o Prêmio Paulo Freire na Alerj, em 2019, na categoria “Experiência Pedagógica no Ensino Fundamental”. “Ele teve relação com a questão das vacinas e o retorno de doenças erradicadas, como o sarampo. Comecei o ano preocupada com isso e quando comecei a pesquisar, vi que algumas das principais causas são as fake news”, diz, continuando: “eles fizeram, primeiro, um trabalho de influenciar a comunidade e as crianças menores, falando sobre o tema. Depois, fizeram um fórum na escola, onde levaram até o secretário de saúde e jornalistas para debaterem a questão das fake news e o papel das escolas para combatê-las. Eles também criaram redes sociais para falar das vacinas e participaram de um evento na praça. Foi muito bacana”, recorda-se, mencionando também mais uma de suas ações:

“Teve outro que recebi o prêmio da Shell (Prêmio Shell de Educação Científica). Eu pegava crimes ou supostos crimes, geralmente ligados à alimentação, como aquela Operação Leite compensado, em que eles colocavam água para diluir e depois, amido para reconstruir a densidade. Os alunos estavam estudando amido e sabiam identificar isso. Eles faziam toda a análise do leite para ver se estava adulterado ou não, entre outros alimentos e outras situações. Eles viravam peritos criminais. Teve um outro que eles se tornavam pesquisadores. Nesse, aprenderam, na prática, como se faz pesquisa científica, inclusive na coleta de dados, quando eles foram para a comunidade buscar questões da dengue, cujo número de casos tinha aumentado muito, e acho que da zika também (a ação foi em 2015 ou 2016 e, portanto, a professora não se recorda mais de tantos detalhes). Eles saíram como pesquisadores em ação, junto com a Secretaria de Saúde da Cidade”.

O prêmio “Professor Transformador” conta com 12 finalistas, distribuídos entre os ensinos Infantil, Fundamental I, Fundamental II e Médio. Em sua categoria, Mytse concorre com outros dois projetos, um do Maranhão e outro de São Paulo. Os segundos e terceiros colocados em cada uma receberão R$2,5 mil e a oportunidade para apresentar suas iniciativas na edição 2020 da Bett Educar. Já os primeiros colocados ganharão R$7 mil, além de uma viagem para participar da Bett Educar 2021, em Londres, na Inglaterra.