O projeto “Basquete Cruzada”, que funciona nos prédios da Cruzada São Sebastião, no Leblon, participa da formação social de mais de 200 crianças e adolescentes. Com mais de 50 alunos que já passaram por clubes profissionais e alguns até em intercâmbios, a ação voluntária conta com parcerias, doações e paixão pelo trabalho. Com a iniciativa resistindo há 20 anos e sem apoio do governo, o idealizador Wagner da Silva conta que os próprios atletas ajudam na gestão de várias atividades e que o principal objetivo é formar cidadãos e líderes. A atividade, que tinha a proposta apenas de tirar os jovens das ruas, levou mais de 50 garotos a treinarem em clubes e alguns até se sustentarem da profissão. “No projeto, eu comecei no judô e aos sete anos, fui jogar basquete no cimento da quadra da escola. Aos 12, fui convidado para jogar no Flamengo e aos 15 tive a oportunidade de fazer intercâmbio na Flórida. Tudo por causa do Cruzada”, conta Gustavo Gabriel da Silva, 22, que disse ter recebido proposta para voltar ao Flamengo mas hoje joga pelo Joinville, em Santa Catarina. A importância da concepção do projeto alcança outras esferas a cada ano que passa. Em dezembro, a equipe de basquete participou do primeiro campeonato fora do Rio, jogaram em São Paulo. “Mesmo com a vizinhança do Leblon, o projeto vem ganhando respeito e somos convidados a participar de outros eventos fora daqui. O ‘câncer’ do Leblon vem quebrando barreiras”, orgulha-se Gabriel, que continua: “Nós negros não somos o que ditam: ladrão ou pobre. Podemos ser outras coisas.” Ele ainda diz, ainda, que a qualidade dos treinos impressiona. “O Wagner e o Ítalo, que dão as principais aulas, estão sempre se atualizando. Os treinos não perdem em nada para os dos EUA e do Flamengo, só não tem a mesma estrutura”, garante. O realizador e gestor do projeto, Wagner da Silva, trabalha com os recursos que adquire para reforçar ensinamentos, não só técnicos do esporte mas também de caráter para a formação de cidadãos. “Para a parte técnica, eu sempre trago técnicos de clubes diferentes para dar aulas que incentivem os meninos. Mas também gosto de prepará-los para a vida, agregar valores e comportamento. Por exemplo, uma vez vi algo na internet que chamou minha atenção que era um meme comparando as cotas de italianos e negros que não era verdade. Trouxe a questão aos treinos e fiz eles pesquisarem e refletirem sobre o assunto, assim eles entendem que nem tudo que nos é imposto deve ser aceito como verdade.” A principal dificuldade do programa, segundo Wagner e seus atletas, ainda é a falta de recurso. “Tenho parceria com empresas como Nike e Adidas que doam material esportivo mas nada do governo. Em 2016, o time do Orlando Magic da NBA veio reformar a quadra e doou bolas. Mas existem muitos empecilhos que impedem o projeto de crescer, as pessoas nem imaginam. Eu não ganho um real, pelo contrário, dou muitos mas sei que sou respeitado porque não sou vendido a qualquer empresa ou político., afirma o idealizador. “Já pensei em desistir mas reflito que se cada um fizer um pouco pelo outro, mudaríamos muitas vidas. Nós já tiramos gente da violência das ruas, das drogas, do tráfico, tudo isso apenas ocupando a mente deles. Estamos procurando patrocínio sérios, vamos tentar entrar em um edital…são todos meus filhos e se um dia algum deles for jogar na NBA, já posso morrer feliz”, conta Wagner.

Além de eventuais parcerias, os próprios atletas se unem com a comunidade e vendem rifas para arrecadarem dinheiro e gastarem com o que for prioridade no momento. ”Certa vez um atleta estava com sérios problemas financeiros e o time ganhou muitas cestas básicas. Todos sabiam da situação mas deixei que gerissem os recursos da melhor forma. Acabaram doando tudo para ele”, conta Wagner. “Todos nós trabalhamos e agimos por amor. Vamos fazer um canal no Youtube sobre basquete, já cuidamos do facebook e instagram. Cada um é responsável por gerir uma tarefa e conseguirmos mais dinheiro, patrocínio e visibilidade”, conta Ítalo Lima, ex-aluno da Cruzada e auxiliar de Wagner. A “Escolinha de Basquete da Cruzada São Sebastião” surgiu de uma obra na quadra da escola Municipal Santos Anjos, em 1998, e começou a atrair amantes da modalidade para jogarem aos finais de semana. As peladas se transformaram em um time referência para a comunidade e inspiraram as aulas para as crianças. A quadra foi concedida pelo Padre Marcos e também por Joel Nonato, da ONG “Crescendo em Graça”, responsável por atender psicologicamente as crianças e dar aulas de reforço escolar. Para um futuro próximo, o grande projeto que leva o nome de “Basquete Cruzada” pelo destaque da modalidade (mesmo abraçando várias outras), deve estender suas atividades para a criação de uma biblioteca comunitária este ano, que antes havia sido previsto para o início de 2017. “Os garotos não tem pretensão na vida, não querem estudar. Nosso povo só sabe obedecer, não somos ensinados a pensar. Então, queremos incentivar essa parte acadêmica dos nossos atletas. Além disso, quero fazer parcerias com escolas privadas e universidade para realizar intercâmbios, aulas de reforço escolar, palestras sobre drogas e álcool, cursos e voluntários para nossa atividade”, conta Wagner. Além disso, a equipe planeja transformar o projeto em uma ONG com ainda mais atividades para facilitar parcerias com empresas e poder atuar não só em outras comunidades do Rio, mas também em comunidades de outros estados do Brasil. “Já começamos o BC Coletivo de Audiovisual, onde alguns alunos fazem a cobertura fotográfica de eventos. Vamos voltar com o BC Informe Cruzada, que era um jornal falando sobre os jogos e acontecimentos daqui ” As ideias não param por aí. Alguns interessados estrangeiros como um músico francês e o diretor técnico de uma Federação de Basquete da Suíça devem complementar as parcerias e levá-los a Europa em 2019, segundo Wagner. A equipe deve voltar camisetas e bonés personalizados e outras iniciativas como o BC Music, para os alunos trabalharem no funk e o BC Modas, para revelar modelos da comunidade, pretendem movimentar a cultura na cidade. “Quero tirá-los do gueto para circular na cidade. Eu tenho a seleção brasileira aqui”, aspira Wagner. Neste mês, a equipe deve disputar um campeonato em Ribeirão Preto.

 

Texto: Catarina Lencioni