O projeto social da campeã mundial de jiu-jitsu Alessandra “Tiola” Lopes, oferecido na Associação de Moradores e Amigos do Morro dos Cabritos (Amacabi), está ameaçado. Há cerca de um mês, as atividades foram interrompidas devido a falta de recursos, afastando do esporte as crianças das comunidades Tabajaras e Morro dos Cabritos e de novas possibilidades para seus futuros. As necessidades englobam desde artigos básicos, como quimonos, até verba para inscrição nos torneios.

     “Temos tatame, mas não material de limpeza. A carteirinha de atleta custa R$50 (de acordo com o site da Confederação Brasileira de Jiu Jitsu, esse valor corresponde à primeira via de praticantes acima de 16 anos; abaixo dessa idade devem pagar apenas metade). As competições, cerca de R$150”, enumera, antes de questionar. “Como iniciar um sonho, chegar no meio e falar que não pode mais?”. A atleta é bicampeã mundial (1999 e 2000) e seis vezes campeã brasileira (entre 1995 e 2000), além de ser detentora também de diversos títulos estaduais.

     Alessandra é um exemplo do quanto a atividade pode modificar uma vida. “Como pratico (a modalidade) desde 1994, vivenciei isso. Vi diferença em relação às minhas amigas. Minha vida só teve a crescer. O esporte me ensinou disciplina, mudou meu modo de ser”, analisa, antes de explicar: “Aos 11, eu já respondia processo por agressão. Entrei aos 13 no jiu-jitsu e participei de mais de 30 campeonatos. Fui para a final em todos só fui vice quatro vezes”, enumera.

     Sua ideia é atender a todos os pequenos, sem limite de idade, já que a professora defende que os ensinamentos devem ser ensinados desde cedo. “Não quero fazer uma recreação e sim ensinar disciplina para, futuramente, a criança sair do país para lutar e ganhar medalhas. Tenho uma aluna de cinco anos que é uma das melhores, ela absorve tudo”, menciona, apontando também que o caçula de seu grupo é ainda mais novo: um menino de quatro anos. A diretora da Amacabi, Vânia Ribeiro, opina que essa estratégia tem funcionado: “As mães vêm junto em outras aulas (das demais atividades oferecidas na sede da associação), mas na da Alessandra, não. As crianças têm que ser doutrinadas, elas precisam aprender a pedir ‘posso beber água?’. Quando houve sessão de cinema, até o aluno que era muito levado perguntou se podia assistir ao filme”, cita, mencionando que o menino se comportou bem durante o filme devido aos ensinamentos das aulas.

     Um dos antigos aluno de Alessandra é o instrutor de boxe Thiago Augustinho, que, assim como Alessandra, também sentiu na pele as mudanças trazidas pelo esporte: “Eu também era muito brigão. Comecei a praticar aos sete e quando o outro projeto acabou, vim para o jiu-jitsu. Fui seguindo e virou minha profissão. Há muitas crianças agitadas e nervosas aqui precisando gastar energia”, sugere. A professora acrescenta que esse tipo de iniciativa também traz benefícios na questão afetiva: “Às vezes elas ganham no esporte o que o pai e a mãe não dão em casa. Aqui, elas criam vínculos, o que se torna uma oportunidade para conversar sobre drogas”, exemplifica. Thiago cita

     Apesar das dificuldades de manter o projeto, a dupla compartilha o desejo de montar um centro esportivo atendendo tanto crianças do Tabajaras quanto do Cabritos. “Por que há na Rocinha, no Cantagalo, no Leme, no Santa Marta, mas não aqui? Os meninos ficam lá fora fazendo sei lá o que. É necessário transformar as mentes deles”, questiona Alessandra, que afirma haver muitos interessados em lecionar diferentes modalidades nas cinco quadras da região. “Há muitos profissionais de diversas lutas aqui. Temos até um bombeiro que se ofereceu a ensinar natação caso fizessem uma piscina! O motorista da kombi (que sobe a Ladeira dos Tabajaras, levando passageiros entre as ruas Joseph Bloch e Euclides da Rocha) se ofereceu para levar grupos até o Arpoador (onde modalidades diversas poderiam ser ensinadas)… tem muita gente boa aqui”.

     A ideia, entretanto, segue sem futuro pelo mesmo motivo que paralisou seu programa: falta de materiais. Alessandra aponta que já houve até campeonato esportivo patrocinado pela Petrobras no local, mas que como o jiu-jitsu não é olímpico, tende a ser desprezado pelas empresas. “Meu sonho é o Luciano Huck vir aqui. Vi o que ele fez no projeto de surf no Cantagalo”, diz, sonhando com uma intervenção semelhante à realizada pela produção do programa apresentado pelo global no programa Favela Surf Club, em 2010. Para ela, até mesmo a pintura do espaço, cedido pela Amacabi, seria bem-vinda.

     Enquanto o projeto segue sem recursos para continuar, os responsáveis pelos participantes lamentam a ausência. “Lugar de criança é em projeto de educação e cultura. Enquanto estiver aqui, não está na rua fazendo (coisas erradas) e vendo (maus exemplos)”, sugere a moradora mãe de uma participante do projeto. A filha, integra também outros projetos sociais como aulas de hip hop, gravação de vídeo, artes visuais, batalha de passinho e teatro. “Ela vai levar os aprendizados para a vida”, acredita.