O Beco das Garrafas, importante espaço cultural de Copacabana e da música brasileira, corre o risco de fechar as portas definitivamente. Com atividades interrompidas devido à pandemia, o local segue sem previsão de reabertura e sem verba para custear os gastos básicos. Para tentar reverter esse quadro, foi criada uma vaquinha para garantir a existência das casas que ali funcionam por, pelo menos, mais um mês. Os interessados em ajudar podem fazer através do link www.vakinha.com.br/vaquinha/preservacao-beco-das-garrafas.

“Acabaram os recursos quea gente tinha, até as economias pessoais”, lamenta a produtora cultural Amanda Bravo, proprietária dos estabelecimentos, que continua: “A gente não é um restaurante ou um bar. Nosso negócio não é venda de bebida e sim de música. Parece que é a última coisa que vai voltar, ain- da mais em lugar fechado”.

No passado, o Beco das Garrafas já foi o núcleo cultural de Copacabana. Composto, então, por três casas, foi endereço de shows de nomes como Elis Regina, Maysa, Dolores Duran (que realizou sua última apresentação ali, na véspera de sua morte), Marcos Valle, Baden Powell, Dóris Monteiro, Wilson Simonal e até convidados internacionais como Ella Fitzgerald, Sacha Distel e Sammy Davis Jr. O sucesso foi tão grande que, ao mesmo tempo que impulsionou os artistas e o próprio endereço, também foi responsável pela decadência – os músicos e cantores que permaneceram no Brasil se tornaram famosos demais para se apresentarem ali, visto que a capacidade reduzida das casas impedia o empresário Alberico Campanas de pagar seus cachês. Com a inauguração da casa de shows Canecão, em Botafogo, em 1968, e das discotecas, o público também migrou, levando o local a encerrar suas atividades até 2014, quando o Little’s Club e o Bottle’s Bar foram reabertos também com ajuda do público: “Passamos um chapéu entre os amantes da bossa nova, do jazz e da música ao vivo, porque não havia vaquinha virtual, e conseguimos”, lembra Amanda.

Até março, quando as atividades foram paralizadas repentinamente, havia uma série de shows agendados e um festival em planejamento. Todos foram suspensos, mas na medida em que os meses passaram, as dificuldades aumentaram. “Não sabíamos que ia ser por tanto tempo”, comenta a produtora. Esse período sem
espetáculos, além de colocar em risco o futuro do espaço, impactou diretamente no sustento dos músicos que ali se apresentavam. “A gente tinha, no mínimo, dois shows por noite. Às vezes, cinco. Como havia uma programação fixa de bossa nova, temos famílias de músicos sustentadas pelo Beco das Garrafas. É o ganha-pão deles, mesmo que seja algo inconstante. Pode ter uma semana que o movimento seja super fraco e na outra, muito bacana, mas eles sabiam que algum dinheiro ia entrar. Tem uma galera passando necessidade. Os técnicos, principalmente”, aponta. Até o fechamento dessa edição, a meta era alcançar R$20 mil, suficientes apenas para manter as casas por mais um mês. “Botamos um valor baixo para animar as pessoas. Já sabemos que não vai abrir em agosto, então vamos continuar com a vaquinha. Caso abra em setembro, será necessário readequar ao novo normal, com medidas de isolamento”, cita Amanda, lamentando a redução da capacidade de cada espaço: “A do Little’s era de 50 pessoas e do Bottle’s, 65 . Vai passar para 20, 25. Vai ser muito dificil continuar funcionando e pagando os custos básicos. Precisamos de muita grana para não ser mais um a sucumbir”, finaliza.